Introdução do Português na ONU depende de muito investimento

0
32
Introdução do Português na ONU depende de muito investimento

O presidente do conselho directivo do Observatório da Língua Portuguesa (OLP), Lauro Moreira, considerou que a introdução do Português como língua oficial nos organismos internacionais como a ONU depende do investimento financeiro dos países lusófonos.

 “Passos como estes que foram dados na cimeira (da Co-munidade dos Países de Língua Portuguesa/CPLP) de Brasília e a oportunidade de contar com uma pessoa de língua portuguesa do nível de António Guterres, penso que isso é um facilitador, vai ajudar muito” na introdução do Português como língua oficial nos organismos internacionais, nomeadamente a ONU, afirmou à agência Lusa o diplomata brasileiro.

 O também antigo embaixador da Missão do Brasil junto da CPLP (2006-2010) considerou que “vai depender, de facto, da real disposição dos países lusófonos de realizar as despesas necessárias para que isso também aconteça”.

 O Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, também anunciou na XI Cimeira da CPLP, a 1 de novembro, em Brasília, que foi aprovada uma proposta para que o Português seja uma língua oficial nas Nações Unidas.

 Marcelo Rebelo de Sousa disse que a proposta foi aprovada por aclamação, e adiantou que foi feita pelo Presidente do Brasil, Michel Temer.

 António Guterres afirmou, durante a cimeira da CPLP em Brasília, que gostaria de ver o Português tornar-se uma das línguas oficiais desta organização, mas referiu que essas decisões competem à Assembleia-Geral da ONU.

 Questionado sobre que papel terá a língua portuguesa quando for secretário-geral da ONU, António Guterres res-pondeu: "Eu suponho que essa não é uma questão do secretário-geral, é uma ques-tão da CPLP, dos países de língua portuguesa. Sei que existe essa aspiração, e essa é uma aspiração muito importante".

 "Naturalmente que eu próprio gostaria muito de ver isso concretizar-se, mas essas são decisões da Assembleia-Geral das Nações Unidas. E uma vez mais digo: ainda não sou secretário-geral das Nações Unidas", acrescentou.

 Actualmente, a ONU tem seis línguas oficiais: o castelhano, o inglês, o mandarim, o russo, o francês e o árabe.

 “Se dependesse apenas da boa vontade de todo o mundo, o Português já estava lá (na ONU). Mas depende mais do que da boa vontade, exige-se dinheiro para se fazer isso, exige-se não apenas uma pré-disposição dos países mas também investimento. Por isso, acredito que temos que pensar mais no assunto”, afirmou Lauro Moreira.

 No entanto, alertou, “isso custa muito dinheiro. É preciso saber se os países da CPLP estão dispostos a suportar estas despesas”, não só para introduzir o idioma nas Nações Unidas, mas nos demais fóruns internacionais, acrescentou.

 Para o diplomata brasileiro, "é fundamental que se trate a língua como algo mais abran-gente".

 "Acredito muito que a língua deve ser levada através da cultura, pois chega mais depressa” e "desperta o interesse dos outros povos", referiu, de acordo com a sua experiência como embaixador.

 A cultura desperta, automaticamente, também o interesse pela língua portuguesa, por isso, deve-se ir além do ensino do português, defendeu.

 “Os nossos países de língua portuguesa, onde há embai-xadas, devem somar esforços e não separar-se, como havia uma certa tendência antes, para projectar uma imagem lusófona, porque há uma convergência enorme entre os nossos países”, indicou.

 Lauro Moreira considerou ainda que tanto a CPLP como o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) "são aquilo que os seus países-membros querem que sejam", apontando neste sentido os escassos recursos destinados ao instituto.

 

* Acção em tribunal tenta acabar com Acordo Ortográfico nas escolas portuguesas

 

 As escolas podem deixar de ter de ensinar segundo o Acordo Ortográfico, caso vingue a acção que um grupo de cidadãos e a Associação Nacional de Professores de Português (Anproport) entregou na quinta-feira em tribunal.

 A acção contra o acordo ortográfico no sistema de ensino público foi entregue no Supremo Tribunal Administrativo, em Lisboa, e impugna a resolução do Conselho de Ministros 8/2011, que mandou aplicar nas escolas o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90).

 Além da Anproport, a acção é uma iniciativa do grupo “Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990”, constituído na rede social Facebook e que já tem mais de 30 mil membros.

 Artur Magalhães Mateus, primeiro autor da acção, jurista e membro do grupo, explicou à agência Lusa que, caso a acção vingue, o AO90 continua mas deixa de ser imposto, não será vinculativo. E o res-ponsável acredita que, não sendo vinculativo, em pouco tempo será esquecido.

 Já em maio passado os mesmos autores tinham apresentado uma acção para anular a norma jurídica que aplica o AO90. “A acção de hoje segue-se a outras intentadas na administração pública e também temos apresentado petições”, disse Artur Magalhães Mateus, lembrando que decorre igualmente a recolha de assinaturas para um referendo sobre a matéria.

 Questionado sobre se uma nova mudança na forma de escrever não ia confundir os alunos o responsável disse: “Regressar a uma grafia correcta e não responsável por novos erros é sempre positivo. Quando foi feita esta resolução do Conselho de Ministros, também ninguém questionou se seria penoso para as crianças”.

 De acordo com Artur Magalhães Mateus, a vantagem da mudança é uma grafia “muito mais lógica, mais fácil de aprender e que não causa erros como a de agora”, tanto mais que, com o AO90, há palavras que estão a ser escritas e acentuadas de forma errada.

 A resolução do Conselho de Ministros 87/2011 (do XVIII Governo Constitucional, liderado por José Sócrates) mandou aplicar o AO90 ao sistema de ensino, a partir de 2011/12.

 Os autores do processo entendem que esta resolução contém “ilegalidades flagrantes”, que o AO90 “não está em vigor juridicamente” e que é “inconstitucional a vários títulos”. “Já pedimos ao provedor de Justiça que requeresse ao Tribunal Constitucional a apreciação da constitucionalidade do AO90”, salientou Artur Mateus, lembrando que a iniciativa de referendo ao Acordo já tem 32.800 assinaturas em papel, das 60.000 necessárias.

 “Continuamos a recolher assinaturas, o processo é moroso mas estamos confiantes que conseguiremos as assinaturas necessárias”, disse.

A aplicação do AO90 sempre gerou polémica em Portugal e até o Presidente da República falou do assunto, admitindo que o Acordo podia ser repensado em Portugal, se países como Angola e Moçambique também o fizerem.