Insurgências em Cabo Delgado: Presidente Nyusi pede máxima prontidão face ao “silêncio do inimigo”

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O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, congratulou-se pelos avanços que as Forças de Defesa e Segurança estão a alcançar no combate aos insurgentes em Cabo Delgado, mas pede “máxima prontidão” face ao “silêncio do inimigo”.

“Há um ligeiro silêncio do inimigo, mas nós precisamos estar em máxima prontidão”, declarou o chefe de Estado moçambicano, citado pela Televisão de Moçambique.

  O Chefe de Estado moçambicano falava duran-te um encontro com um grupo de militares das Forças de Defesa e Segurança na segunda-feira em Cabo Delgado.

  Segundo o Presidente, os resultados das forças governamentais no teatro operacional de Cabo Delgado mostram um relativo avanço, mas isso não deve ser motivo para distração.

  “Não nos podemos distrair por causa do silêncio do adversário. Continuem firmes e não vacilem”, frisou.

  Na penúltima sexta-feira, o comandante-geral da Polícia da República de Moçambique disse que as Forças de Defesa e Segurança abateram um total de 37 terroristas e apreenderam 21 armas em Cabo Delgado.

  Os resultados anunciados são consequência de operações do 7.º batalhão das Forças de Defesa e Segurança posicionado em Macomia, uma das regiões mais afectadas pelas incursões dos insurgentes, disse à comunicação social Bernar-dino Rafael, durante uma visita à sede daquele distrito localizado a 176 quilómetros da capital provincial de Cabo Delgado (Pemba).

 

* Polícia anuncia abate de suposto informador perto de megaprojectos de gás

 

  A polícia moçambicana disse que abateu um suposto informador dos insurgentes no distrito de Palma, nas redondezas dos megaprojectos de gás natural em Afungi, na província de Cabo Del-gado

  O facto ocorreu no bairro de Quitunda, uma zona próxima aos megaprojectos e que tem sido usada para realojar as populações que viviam na área que agora alberga os empreendimentos da petrolífera Total, que lidera o projecto, disse o porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM) em Cabo Delgado, Ernesto Madungue.

  “[As equipas] deslocaram-se para aquele bairro, chegados no local a polícia foi recebida com tiros e sentiu-se obrigada a abrir fogo e daí um suposto informador dos terroristas acabou sendo alvejado mortalmente no local”, afirmou o porta-voz, em conferência de imprensa.

  Segundo Ernesto Madungue, a PRM terá se deslocado ao bairro após tomar conhecimento de que havia informadores dos grupos insurgentes em três residências, tendo, por isso, organizado equipas para responder à situação.

  “Também foi alvejado pelo suposto terrorista um dos membros da PRM, que ficou ferido e neste momento está a receber cuidados médicos no hospital”, acrescentou.

  Em Dezembro, grupos rebeldes que têm protagonizado ataques armados em Cabo Delgado efectuaram, pelo menos, dois ataques próximos dos megaprojectos liderados pela francesa Total.

 

* Marinha de Guerra reforçou fiscalização no porto  de Mocímboa da Praia

 

 

  O ministro da Defesa de Moçambique disse que a Marinha de Guerra reforçou a fiscalização no porto de Mocímboa da Praia, ocupado em Agosto por insurgentes, considerando que, embora existam rebeldes no distrito, a infraestrutura está controlada.

  “O porto não continua com o inimigo. Eles andam por lá [no distrito] sim , um e outro, e, se calhar, promovem as suas atividades lá, mas a Marinha de Guerra fortificou o seu trabalho de fiscalização”, disse Jaime Neto, em declarações à comunicação social na província da Zambézia, à margem da cerimónia do lançamento do recenseamento para o serviço militar.

  Na noite de 12 de Agosto, os grupos armados que têm protagonizado ataques em Cabo Delgado invadiram o porto de Mocímboa da Praia e os confrontos com as Forças de Defesa e Seguran-ça deixaram um número desconhecido de mortos, incluindo elementos da força marítima, além de várias infraestruturas destruídas.

  Segundo o ministro da Defesa, na altura, os insurgentes infiltraram-se nas comunidades, comandando ataques contra as forças governamentais de dentro para fora do distrito, o que facilitou a sua permanência no local por “muito tempo”.

  “Eles estavam a combater de dentro do distrito para fora e isso, de certo modo, criou condições para que eles pudessem se estabelecer durante muito tempo ali. Nós acreditamos que um e outro [insurgente] ainda continua no distrito e nós estamos a fazer o esforço para o recuperar e colocar todas as instituições a funcionarem”, declarou Jaime Neto.

  A vila costeira de Mocímboa da Praia é uma das principais da província de Cabo Delgado, situada 70 quilómetros a sul da área de construção do projecto de exploração de gás natural conduzido por várias petrolíferas internacionais e liderado pela Total.

  A vila tinha sido invadida e ocupada durante um dia por rebeldes em 23 de março, numa ação depois reivindicada pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico, e foi, a 27 e 28 de Junho, palco de longos confrontos entre as forças governamentais e os grupos insurgentes.

  Nas suas declarações, o ministro da Defesa de Moçambique reiterou que as motivações destes grupos continuam incertas, mas as Forças de Defesa e Segurança desdobram-se em operações para “aniquilar o inimigo”.

  “Algumas vezes eles atacam as nossas posi-ções, mas as nossas forças estão em prontidão para responder a qualquer fogo do inimigo. A moral da nossa força é boa e eles estão a fazer tudo para que qualquer parte do nosso território não seja ocupada pelo inimigo”, declarou Jaime Neto.

  O governante acrescentou que os líderes des-tes grupos são provenientes de várias partes do continente africano e têm recrutados jovens mo-çambicanos para protagonizar ataques em Cabo Delgado.

 

* PAM pode interromper assistência às populações em março  por falta de fundos

 

  A escassez de financiamento pode obrigar o Programa Alimentar Mundial (PAM) a interromper em Março a assistência básica às populações deslocadas devido à violência armada em Cabo Delgado, norte de Moçambique, alertou a agência das Nações Unidas.

  “Caso prevaleça a actual escassez de financiamento e o PAM tenha de usar os seus recursos até ao limite, a assistência alimentar vital fornecida às pessoas afetadas pelo conflito em Cabo Delgado, Nampula e Niassa será interrompida em Março de 2021”, refere uma nota de imprensa do PAM.

  Segundo a agência, o défice orçamental é de 108 milhões de dólares (89 milhões de euros), num momento em que o número de deslocados tem aumentado devido à violência armada em distritos mais a norte daquela província.

  Até Março, caso a situação prevaleça, o PAM “terá esgotado as suas reservas alimentares e fundos para esta resposta humanitária”, alerta, acrescentando: “O que não só levanta preocupações em torno da segurança alimentar e riscos à saúde resultantes da desnutrição, mas também é alarmante do ponto de vista da protecção”.

  Apesar das limitações, a agência das Nações Unidas avançou que decidiu manter a cesta básica atual de “assistência alimentar crítica”, abrangendo 400 mil pessoas das mais de 560 mil deslocadas, segundo as autoridades.

  “O PAM fornece uma cesta alimentar familiar mensal em espécie: de 50 kg de cereais, 5 litros de óleo e 10 kg de feijões secos e lentilhas. O PAM também fornece assistência baseada em dinheiro onde os mercados locais funcionam, permitindo que as famílias escolham a sua própria cesta básica (alimentos e kits de higiene), em troca de senhas”, refere o PAM.

  Além dos desafios ligados à alimentação, a agência alerta para o aumento da violência do-méstica e casos de casamentos prematuros, bem como de exploração infantil.

  “Há indícios de aumento da violência doméstica e de casamento precoce, com a falta de recursos e as dinâmicas de poder desiguais a potenciarem situações de sexo para sobrevivência, que trazem riscos maiores de HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis, bem como de gravidez precoce”, acrescenta.

  A ONU anunciou, no mês passado, que precisa de um total de 254 milhões de dólares (206 milhões de euros, no câmbio atual) para o plano de assistência humanitária às populações deslocadas, incluindo as que se refugiaram nas províncias de Niassa e Nampula, vizinhas de Cabo Delgado.

  A segurança alimentar e o abrigo estão entre os principais pontos de destaque no plano de assistência da ONU, com uma verba de 136 mi-lhões de dólares (111 milhões de euros) e 28 milhões de dólares (23 milhões de euros), respetivamente, do total de 254 milhões de dólares necessários.