Heritage Day – Construção e Defesa do Património Cultural

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Heritage Day - Construção e Defesa do Património Cultural

Com uma população representativa de um leque humano tão diversificado, entre comunidades locais e gentes oriundas de outras partes do mundo, tanto do Ocidente como do Oriente, que aqui se foram fixando ao longo dos séculos, a África do Sul reúne uma herança cultural que é única no continente afri-cano.

  De geração em geração, a África do Sul acrescenta valor ao seu património e há todos os anos um mês – Setembro – em que é feita a sua exaltação através da realização de um programa de eventos que incidem sobre essa herança colectiva.
  É esse património de diversidade e de multiculturalismo – e o verdadeiro património são as pessoas, mais do que aquilo que elas investem em tijolos – que o País celebra anualmente ao longo deste mês e mais particularmente a 24 de Setembro, sob a designação de “Heritage Day” e com honras de feriado nacional.
  Mas como nasceu esta data, cuja celebração este ano ocorre na próxima segunda-feira?
  O 24 de Setembro era conhecido como o “Shaka Day”, comemorativo do rei zulu Shaka, uma figura le-gendária que desempenhou um papel importante na reunificação dos dispersos clãs zulus numa nação coesa.
  Acontece que, aquando da apresentação ao Parlamento do novo projecto de Lei dos Feriados Nacionais, o 24 de Setembro não se encontrava na lista, o que originou então a objecção do Inkatha Freedom Party, partido político sul-africano com larga participação de zulus. Das posteriores negociações entre o Parlamento e o IFP resultou um compromisso e foi dada ao dia 24 de Setembro a designação que ele hoje tem, além da sua inclusão na lista dos feriados nacionais. Na declaração final pode ler-se que “os sul-africanos, ao celebrarem a diversidade da sua herança cultural, estão a edificar a nação arcoiris. É o dia de celebrar a contribuição de todos os sul-africanos na construção da África do Sul”.
  Antes de 1994, ano da democratização do País, esta data, embora já fosse feriado nacional, tinha um significado restrito para a globalidade do povo sul-africano, dado que as cerimónias se centravam na exaltação monoculturalista dos valores referentes às origens europeias da classe política dominante. Até então, os museus e monumentos nacionais eram marcos históricos que reflectiam a vivência e os ideais de uma franja da população, com manifesta e injusta exclusão da maior parte do mosaico cultural.
Mas nesse ano, com a ascensão de Nelson Mandela à Presidência da República, o novo Chefe de Estado soube dar à data uma dimensão verdadeiramente nacional, mantendo-se, agora com maior razão, o estatuto de feriado oficial.
  Foi, entre muitas outras medidas tomadas pelo novo Governo de unidade nacional, uma decisão importante para o sucesso da construção de um futuro democrático colectivo. O País passou a celebrar, como nação e com respeito pelas suas especificidades, uma herança comum no contexto de um novo empenho político que privilegiava os valores da democracia, da tolerância e dos direitos humanos.
  Como prova da grandeza humana e intelectual dos novos governantes, nada foi destruído, nada foi vandalizado, mantendo-se esses marcos como pontos de interesse turístico.
  Parceira de Portugal no Comité responsável pela implementação da Convenção para a Protecção do Património Mundial, Cultural e Natural, no mandato que se prolongou de 1999 a 2005, a África do Sul soube compreender a defesa desses e de outros bens, uma vez que património, sendo herança do passado, é também construção do futuro.
  E foi assim que a nova África do Sul assumiu o passado com realismo e redireccionou com maior transversalidade a sua política relativa ao património his-tórico, patrocinando o Governo democrático a construção de novos marcos, não como saga mas condicionando esses empreendimentos aos recursos dis-poníveis no Orçamento de Estado de cada ano.
  Caminhou-se, desta forma, para que os novos mu-seus e monumentos repusessem a realidade aos olhos dos seus visitantes e passassem a reflectir, por um lado, o passado oculto da história sul-africana e, por outro lado, preservassem de forma mais interactiva o património sócio-cultural de uma herança tão diversificada como excepcionalmente rica.
  Assim tem sido com o Museu de Robben Island, na ilha que foi cárcere para muitos presos políticos, o Museu do Apartheid, junto do parque temático de Gold Reef City, em Joanesburgo, o Museu Hector Pieterson, que marca o levantamento popular no Soweto em 1976, e que se encontra situado em Orlando Oeste, o Museu Mandela, naquela que foi uma vez a casa do antigo presidente no Soweto, e o Mu-seu de Constitutional Hill, que passou a dar enquadramento turístico ao complexo prisional do velho forte, em Hillbrow.
  De ano para ano, as celebrações deste dia, que se alargaram às escolas e desceram às ruas, têm ganho maior popularidade, com os governos provinciais a aliarem a efeméride a iniciativas do Mês do Turismo, associando a divulgação e preservação dos valores culturais aos ambientais e paisagísticos.
  É também o mês da promoção do artesanato e de actividades afins, que têm acompanhado de forma muito positiva a evolução do turismo e constituem um sector importante da actividade económica sul-africana no qual cerca de 1,2 milhões de pessoas ganham o seu sustento.
  Cabe abrir aqui um parágrafo para referir que os navegadores portugueses, ao usarem no século XV contas e missangas nas trocas comerciais com os povos desta costa, deram origem a uma arte que ganhou preponderância no artesanato sul-africano, porque com elas os artesão locais passaram a produzir peças de belo efeito decorativo, como pulseiras e colares. E este pormenor é frequentemente salientado pelo rei zulu Goodwill Zwelethini, tal como o fez numa celebração do Dia de Portugal na Embaixada em Pretória.
  Sob o lema “celebrando as nossas tradições na construção de uma África do Sul que pertença verdadeiramente a todos” – prova de que a diversidade cultural e étnica não constitui uma ameaça para a identidade da nação e de que o hibridismo e a ma-leabilidade de culturas são factores positivos de inovação – os programas passaram a incluir a apresentação de peças de teatro, concertos de jazz, festivais de dança e de grupos corais e espectáculos de música tradicional.
  Ao patrocinar estes programas, os governos provinciais a as câmaras municipais pretendem privilegiar a valorização e o crescimento da indústria de entretenimento, a promoção do turismo, a criação de postos de trabalho, a redução da pobreza e a descoberta de novos talentos artísticos entre a população dos bairros sociais.
  Do multiculturalismo deste País também fazem parte o folclore, a música e a gastronomia da comunidade portuguesa, que não tem sabido fazer eficientemente o “marketing” da sua imagem junto da nova sociedade sul-africana. Sempre defendi que, por iniciativa própria ou em parceria com outras comunidades locais, teríamos que saber arranjar espaço nos eventos do Heritage Day para promover e divulgar os valores culturais que trouxémos ao enriquecimento do mosaico humano da África do Sul.
  Esse objectivo conseguimo-lo nos dois últimos anos com presenças portuguesas no Arts Alive International Festival de Joanesburgo. Precisamente no Heritage Day, a 24 de Setembro de 2010, no Teatro do Montecasino, com a voz de Kátia Guerreiro, no Fado – esse fenómeno vivo da cultura portuguesa reconhecido pela UNESCO, como patri-mónio cultural da Humanidade, e o ano passado, novamente com Portugal ao alcance de um acorde, num espectáculo de “Os Deolinda”, no Mandela Joburg Theatre.
  Ontem, domingo, tivémos em Joanesburgo o XVII Festival de Folclore da nossa Comunidade na sede do Grupo Folclórico Terras do Norte. Para o próximo ano, os dirigentes da Federação de Folclore terão que pensar em torná-lo mais abrangente, através de uma maior aproximação da música e das danças tradicionais portuguesas ao público sul-africano, inscrevendo esta nossa manifestação cultural no Arts Alive International Festival de Joanesburgo e contribuindo, desta forma, para o programa do Heritage Day da África do Sul.
r. varela afonso