Herdeiros de Portugal

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Herdeiros de Portugal

Hoje, 16 de Junho, é o Dia da Juventude na África do Sul. É a ela que nos vamos referir neste Editorial, mas na perspectiva das nossas raízes. As Pátrias também se celebram e comemorar hoje um país sem o entregar a uma juventude ainda melhor preparada é deserdá-lo do seu futuro. Este ano, no âmbito das comemorações do Dia de Portugal e tal como tem acontecido nos últimos anos, a Embaixada em Pretória organizou uma cerimónia de reconhecimento aos alunos luso-descendentes que são líderes escolares nos estabelecimentos de ensino sul-africano que frequentam.

  Aconteceu sábado nos jardins da Embaixada com a participação de mais de uma centena de jovens de cerca de cinquenta escolas do ensino básico e secundário da África do Sul, que receberam certificados de reconhecimento pelas suas capacidades de liderança e certificados de mérito pela frequência de cursos de Língua e Cultura Portuguesas. Na presença do coordenador de Ensino de Português, dr. Rui Azevedo, o embaixador António Ricoca Freire elogiou os alunos luso-descendentes que, por mérito, ascenderam a cargos de liderança nas suas escolas, destacando o valor e prestígio que isso representa, ao nível do sistema educativo sul-africano, em termos de currículo académico, de vantagem para o ingresso nas Universidades e, posteriormente nas carreiras profissionais, como uma mais-valia na alta competição que é hoje o mercado de trabalho.

  A importância da aproximação das novas gerações de luso-descendentes na África do Sul às instituições portuguesas e a promoção de laços afectivos que marquem as relações com Portugal e com os seus valores culturais têm sido sempre tidas em conta nas iniciativas da Embaixada e da Secretaria de Estado das Comunidades.

  Também há muito que a Comunidade Portuguesa da África do Sul está disso consciente e o vem demonstrando. Daí o empenho manifestado todos os anos pelas comissões organizadoras das celebrações do Dia de Portugal em dar continuidade à forma lusíada de sentir e estar no mundo, atribuindo Medalhas de Mérito Jovem aos que se notabilizam e chamando-os a participar nos programas comemorativos da efeméride, tanto na vertente desportiva como através de manifestações culturais, sector em que as exibições de folclore e as exposições de trabalhos escolares continuam a ser os exemplos mais significativos.

  Vimos, nestas comemorações do Dia de Portugal, jovens nos eventos desportivos realizados na União Portuguesa e no Luso-Africa, jovens integrados no agrupamento de Escuteiros que prestou guarda de honra à Chama da Pátria e no grupo folclórico que actuou no Núcleo de Arte e Cultura, jovens nas cerimónias oficiais de terça-feira na Embaixada em Pretória, e jovens na gala de aniversário da Academia do Bacalhau de Joanesburgo, sábado no Salão do Wanderers Club, jovens que são já o núcleo fundador da futura Academia Jovem, na qual os compadres da velha guarda depositam muita esperança.

  A forma de continuar Portugal na diáspora, cujo mérito tem pertencido às comissões das comemorações do 10 de Junho, deve deixar de ser pontual para se multiplicar ao longo do ano por iniciativa dos próprios jovens, que têm por raiz comum a lusodescendência.

  Por outro lado, no sentido da nossa juventude herdar o seu futuro neste País, aponte-se o importante papel que os jovens poderão ter, através de acções de voluntariado, na tarefa de ajudar a melhorar as condições de vida das populações sul-africanas menos favorecidas e na missão de fomentar, como jovens empresários, uma aproximação cada vez maior entre as sociedades civis de Portugal e da África do Sul.

  Hoje colegas de escola de futuros quadros superiores da África do Sul, os nossos jovens – muitos deles já aqui nascidos – podem, melhor do que ninguém, compreender a importância da sua participação na vida da Comunidade e do empenhamento desta no desenvolvimento social e económico deste País, começando desde já a criar os seus “lobbies”. É por esses jovens que passará, em grande parte, o futuro da nossa Comunidade, cabendo-lhes – num serviço a Portugal – dar continuidade aos esforços na criação de uma melhor imagem por parte das gerações que os precederam .

  Mas para se conseguir um maior envolvimento da juventude nestes projectos comunitários estratégicos e dar-lhes como herança o orgulho por Portugal, – essa grande matriz da sua própria identidade original – há que motivá-la, eliminando a margem de indiferença que toca larga camada das novas gerações, muitas vezes por culpa dos pais, alguns dos quais só se lembram que os seus filhos também são portugueses quando uma qualquer agitação social mais grave os leva a engrossar a corrida ao passaporte europeu nos Consulados.

  Lembremo-nos que, como portugueses, celebramos a nacionalidade que nos une em países de acolhimento, onde é cada vez maior o número de luso-descendentes neles nascidos, mais pela língua e pela cultura, que as velhas gerações preservam com orgulho e por vontade própria, do que pela visão de uma terra que nem todos conhecem e que à qual muitos outros já nem sequer conseguem adaptar-se.

  Mas que importa isso, se hoje, com a volatilização das fronteiras geográficas por conceitos económicos e políticos de globalização, a nova definição de Portugal se estende aonde palpitar o coração de um português!

  Como no Dia da Mãe ou no Dia do Pai, que ontem se viveu na África do Sul, datas em que se oferece uma prenda ao progenitor celebrado, também por estes Dias, o de Portugal que já passou ou o da Juventude que hoje se celebra, com o nosso velho País a viver actualmente uma crise que passa pela austeridade e por uma contenção das finanças públicas, reflictamos no problema do qual também somos parte da solução e não perguntemos o que é que o País pode fazer por nós mas questionemo-nos sobre o que podemos fazer pelo seu engrandecimento.

 A par de aumentarmos o consumo de produtos portugueses – neste momento a economia de Portugal só pode crescer por via das exportações -, a resposta mais abrangente ao nível das comunidades emigradas pelo mundo fora é, obviamente, transmitirmos a maior e mais perene riqueza nacional aos nossos filhos: a língua.

  Como? Escolarizando-os em Português.

R. VARELA AFONSO