Há focos de conflito com investidores estrangeiros no acesso à terra em Moçambique

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Moçambique

MoçambiqueMoçambique já regista “focos de conflitos” entre a população e investidores estrangeiros no acesso à terra, devido às cumplicidades entre as elites locais e o grande capital na exploração dos recursos naturais, considera o economista moçambicano João Mosca.

 Um estudo da Coligação Diálogo sobre África (CoDA), apresentado em Lisboa, no âmbito da reunião anual do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), aponta Moçambique como um dos alvos da “corrida à terra” por parte dos investidores estrangeiros interessados em aproveitar o potencial agrícola do país.

 A análise define como “opacos” os acordos entre os governos africanos e os investidores, acusando os intervenientes no processo de marginalizarem as comunidades locais nas negociações para a implantação dos projectos de exploração de recursos naturais no continente.
 Comentando em Maputo a pesquisa da CoDA, o economista João Mosca, um dos mais interventivos no debate do investimento estrangeiro em Moçambique, defende que o país já é palco de disputas entre as comunidades e os investidores estrangeiros.
 “Já começa a haver alguma conflitualidade, porque os locais de grande interesse para os investidores estrangeiros no sector agrícola, florestas e minas são coincidentemente de grande densidade populacional e de subsistência para a população”, observa João Mosca, também investigador e docente da Universidade A Politécnica.

 O pesquisador cita estudos que reportaram tensões entre a população e a Vale, empresa brasileira que ganhou uma importante concessão na exploração de carvão na província de Tete, centro de Moçambique.
 Para João Mosca, o Governo moçambicano é em parte culpado pela situação, pois omite exigências importantes às multinacionais, para proteger os interesses das elites locais.

 “Os decisores políticos têm interesses lá fora, estão relacionados com o grande capital. Às elites locais também in-teressa que os contratos sejam mal negociados, porque isso lhes garante dinheiro fácil”, diz o economista.
 Para evitar que as tensões devido à exploração dos recursos não assumam “proporções mais graves”, na opinião de João Mosca, impõe-se que as comunidades sintam os benefícios dos grandes investimentos e haja transparência nas negociações”.

 Por outro lado, é necessário que o setor privado moçambicano ganhe capacidade de iniciativa, capital e investimento, para poder competir com os parceiros estrangeiros e assim garantir maiores ganhos para o país.
 “É necessário criar capacidades e competências locais para que o país retenha ganhos dos grandes investimentos na exploração dos seus recursos. Tem de se garantir que a maior parte da cadeia de valor se localiza no país.   Ao invés de se exportar o algodão, exporte-se o tecido”, acrescenta João Mosca.