Grupo Século honra os legados dos Comendadores Horácio Roque e António Braz

0
74
Grupo Século honra os legados dos Comendadores Horácio Roque e António Braz

No dia 19 de Maio, respectivamente 4 e 16 anos após o falecimento dos Comendadores Horácio Roque e António Braz, o Grupo Século prestou uma sentida homenagem aos homens que tornaram possível o jornal “O Século de Joanesburgo” e a empresa da indústria gráfica que é hoje a terceira maior da África do Sul.

  Com a presença de todos os trabalhadores do Grupo – como teriam desejado os homenageados -, do embaixador de Portugal na África do Sul, António Ricoca Freire, de Ana Brito, conselheira diplomática da Embaixada, Luisa Fragoso, cônsul-geral em Joanesburgo e de Rui Azevedo, coordenador do Ensino de Português na África do Sul, a presidente do Conselho de Administração e viúva de Horácio Roque deu início à cerimónia.

  Num discurso emocionado, ladeada pelos administradores do Grupo Século, Rogério Varela Afonso e Jorge Peixinho, Paula Caetano recordou “a dimensão de dois homens reflectida num universo de negócios, relações humanas e contributo social”.

  António Braz e Horácio Roque foram nas palavras de Paula Caetano “dois grandes senhores”, “dois ícones, dois mitos e uma cultura”. “Tenacidade, força de vontade, persistência e coragem” eram alguns dos muitos atributos que tinham em comum.

  António Braz fundou o jornal em Junho de 1963, “num acto de coragem”, concretizando o “sonho de ter um jornal que fosse publicado integralmente em português”. Horácio Roque, “num acto heróico”, continuou o projecto.

  “Nós vamos dar seguimento à sua obra”, frisou a presidente do Grupo, fixando os olhos na assistência, que não raro se emocionou com as suas palavras.

   “Horácio Roque, meu marido, meu companheiro, meu mentor, o melhor professor que qualquer pessoa gostaria de ter, um dos maiores empresários portugueses do seu tempo, era uma figura conhecida e respeitada a todos os níveis (…) em Portugal, na África do Sul, em todos os países onde tinha investimentos. (…) Mesmo depois da sua actividade exigir a sua presença em Portugal, onde centralizou os negócios, não deixava de aqui se deslocar com frequência, dando sempre relevo ao valor deste país e chegando um dia a afirmar que a África do Sul era tão boa para viver que gostaria de aqui se reformar”, recordou Paula Caetano.

  Continuando discurso, Paula Caetano traçou a evolução do mais antigo órgão de comunicação social da diáspora portuguesa – a contar já com 51 anos – e referiu o “sucesso alcançado pelo grupo gráfico, que é hoje o terceiro maior do país, tendo capacidade para imprimir 150 mil exemplares por hora”.

  Lembrou ainda o reconhecimento público que António Braz e Horácio Roque granjearam, quer a nível empresarial quer na esfera pública, com a atribuição de vários prémios e Comendas e disse que “coragem e persistência são as qualidades que resumem a vida” de António Braz e Horácio Roque, “dois beirões que se respeitavam e admiravam mutuamente, havendo em comum uma feliz coincidência de vontades e capacidade de realização”.

  António Braz e Horácio Roque eram “homens simples, mas de alma muito grande”. “Serão sempre recordados com eterna saudade por todos nós”, concluiu a presidente do Conselho de Administração do Grupo Século.

  Com a colaboração do embaixador de Portugal na África do Sul, Ricoca Freire, Paula Caetano procedeu, depois, ao descerrar de duas placas, colocadas na recepção do edifício. Uma com a fotografia de António Braz, onde se lê: “O Grupo Século honra o legado de António Braz, homenageando o homem, o empresário e o fundador do Jornal O Século de Joanesburgo”. Outra com a fotografia de Horácio Roque, onde se lê: “O Grupo Século honra o legado de Horácio Silva Roque, homenageando o homem, o empresário e o empreendedor”.

  Tomou então a palavra o embaixador Ricoca Freire, que falou também na qualidade de amigo de Horácio Roque, que conheceu quando ocupou há dez anos atrás o cargo de cônsul-geral em Joanesburgo.

  António Ricoca Freire frisou que a cerimónia em causa era importante se servisse para que todos se sintonizassem com os homenageados: “Quando o homem parte, fica o espírito e a memória. A obra perdura se soubermos honrá-la”.

  O embaixador realçou ainda a importância do jornal em língua portuguesa: “O Século de Joa-nesburgo ao ligar a comunidade” ajuda-a a “compreender a sua identidade portuguesa”. Ao fazê-lo, acrescentou, “sentimo-nos mais unidos com os nossos irmãos portugueses na comunidade da África do Sul e, à distância, com aqueles que estão espalhados por Portugal fora”.

  Ricoca Freire aproveitou ainda a ocasião para apelar à união da comunidade portuguesa, considerando ser necessário que “a obra dos dois seja vivida nos dias de hoje com o espírito que a determinou”. “É essa fidelidade ao sonho dos Comendadores, é essa lealdade ao espírito, a que hoje apelo”, concluiu.

  Entretanto, as individualidades oficiais, os colaboradores do Grupo Século, os directores e pessoal da Agência de Viagens Lusoglobo foram encaminhados para outra ala do edifício, onde foi concelebrada uma missa em memória dos empresários falecidos, pelo Padre Tony da Igreja de Malvern East, Frei Gilberto Teixeira, da Igreja de Santa Maria dos Portuguesas, em Pretória, e pelo Padre Miguel Lemos, da Igreja de Santo António dos Portugueses, em Mayfair.

  A celebração de uma missa, com comunhão, nas instalações do Grupo era um desejo acalentado por Paula Caetano e agora concretizado.

  Depois da celebração religiosa, seguiu-se um almoço-convívio, onde todos foram convidados a estar presentes.

 

* Funcionários e amigos guardam “excelentes recordações e lições”

 

  “Era uma excelente pessoa, não tinha filhos, e afirmava que o seu filho era o Século de Joanesburgo. Tinha uma adoração especial pelo jornal”, lembrou o delegado em Petória, Joaquim Vicente Dias, sobre António Braz.

  Foi através do fundador do Século de Joanesburgo que Joaquim Dias entrou para o jornal e do comendador diz guardar excelentes recordações. Recua no tempo e conta que António Braz “fez questão de oferecer um exemplar da primeira edição do jornal, de Junho de 1963, ao então Primeiro-ministro Oliveira Salazar. Na altura, Salazar preveniu-o que um jornal é um poço sem fundo e que lá voltasse dali a uns anos. Passados cinco anos levou um novo exemplar do jornal a Salazar e este disse-lhe: Parabéns, eu sabia que os beirões são teimosos, mas o senhor ultrapassa a teimosia”.

  Persistência, coragem, determinação, humildade, força de carácter e bondade são algumas das qualidades enumeradas por aqueles que conheceram os Comendadores António Braz e Horácio Roque. Quis o destino que partissem no mesmo dia e mês, com doze anos de diferença.

  Frei Gilberto Teixeira, da Igreja de Santa Maria dos Portuguesas, em Pretória, afirma guardar “boas recordações e lições” do fundador do jornal.

  “Era uma pessoa que estava sempre a pensar nos outros, na comunidade”, afirmou o sacerdote, recordando a altura em que compartilhou com o Comendador a sua ideia de adquirir um terreno para aí instalar um Lar de Idosos. A iniciativa mereceu de imediato o apoio de António Braz, que “contribuiu com 50 mil randes para o projecto”. Mais tarde, Frei Gilberto preparava-se para visitar António Braz, hospitalizado, quando foi informado que ele estava muito mal e “não dava acordo de si”. Mas, “quando entrei, surpreendentemente, ainda me perguntou como ía o projecto do Lar”.

  António Braz era “considerado um homem rico, mas quis morrer pobre, até o caixão onde seguiu para o cemitério era simples, com pegas de corda”, sublinha Frei Gilberto.

  Sobre o comendador Horácio Roque, um colaborador do Grupo Século há já 21 anos, ri ao recordar um episódio que diz tê-lo feito corar de vergonha. Francisco Nunes de Pontes era porteiro do edifício e uma das suas funções era apontar o nome e pedir a assinatura a todos quantos pretendessem entrar nas instalações. Até que um dia foi o administrador do jornal que entrou e Francisco Pontes, que ainda não o conhecia, fez como lhe competia e pediu-lhe a identificação e a assinatura. “Não é preciso”, disse Horácio Roque. Mas o funcionário não estava pronto a desistir e foi sempre insistindo. Horácio Roque retorquia que não era necessário, até que, perante o zeloso Francisco Pontes, Horácio Roque se deu a conhecer: “Sou o Horácio Roque”, e de imediato agradeceu “o bom serviço”, elogiando a competência e persistência daquele seu funcionário.

  “Era uma pessoa fantástica. Tinha sempre uma palavra simpática. Trabalhou, trabalhou, nunca descansava. Não parava”, acrescentou ainda Francisco Pontes sobre o Comendador Horácio Roque.