Governo privatiza TAP e escolhe David Neeleman

0
57
Governo privatiza TAP e escolhe David Neeleman

O Governo português anunciou a vitória da Gateway, consórcio que junta David Neeleman da Azul e o empresário português Humberto Pedrosa do grupo Barraqueiro, para ficar com 61% da companhia aérea.

 O dono da companhia aérea Azul, a terceira maior do Brasil, ganhou a corrida à privatização da TAP, derrotando a proposta apresentada por Germán Efromovich.

 A decisão foi tomada quinta-feira em Conselho de Ministros. O Governo aprovou a venda de 61% da companhia a David Neeleman, empresário norte-americano que também tem nacionalidade brasileira, que se aliou nesta operação ao empresário português Humberto Pedrosa, dono da Barraqueiro.

 A proposta aposta no desenvolvimento da operação no Brasil e numa investida no mercado dos Estados Unidos, com 53 novos aviões na calha. Em termos financeiros, a primeira proposta pressupunha uma injecção entre 300 e 350 milhões de euros na TAP.

 Depois da decisão do Con-selho de Ministros, será ainda necessário obter luz verde por parte das entidades reguladoras, nomeadamente da Direcção-Geral da Concorrência da UE. 

 “O negócio é sobre todos os pontos de vista um sucesso”, declarou Sérgio Monteiro, secretário de Estado dos Transportes, que rematou: “Quinze anos depois de mui-tos tentarem, nós conseguimos vender a TAP.”

 No memorando de entendimento assinado pelo anterior executivo socialista com a troika, o governo comprometeu-se em vender a TAP apenas se “as condições de mercado” fossem favoráveis.

 Na conferência de imprensa que se seguiu ao Conselho de Ministros, o governo começou por apresentar um negócio como valendo um mínimo de 354 milhões de euros, incluindo a capitalização que o consórcio irá fazer na agora sua empresa, esclarecendo o valor da venda das acções somente depois de questionado.  No contrato de venda da TAP, foi colocada uma opção de compra do restante capital da TAP por parte do consórcio vencedor, independentemente da vontade do próximo governo.

 O secretário de Estado dos Transportes ainda revelou que “o Estado não fez qualquer pedido formal à Comissão Europeia para apreciar” a hipótese de avançar com uma capitalização pública, já que deduziu que a mesma iria obrigar a imposição de “redução de rotas, trabalhadores e salários”, resultando numa TAP “muito mais pequenina”. Mas esta dedução não devia ser automática: Apesar de este ter sido o cenário verificado em 1994, altura em que a TAP recebeu uma última injecção pública, então tratava-se de um grupo com excesso de problemas e que precisou de 3,2 vezes mais dinheiro que precisa hoje. Aliás, basta ver que se em 1994 o problema da TAP estava todo no ramo de transporte aéreo, hoje esse é precisamente o melhor ramo da transportadora.

Em 1994, a TAP tinha 38 aviões, 9.691 empregados, proveitos de 1,3 mil milhões – 134 mil por empregado –, uma rede de rotas “que não foi adaptada à evolução do mercado” e uma produtividade “sistematicamente abaixo da apresentada pelos competidores europeus”. Um cenário que fez com que, entre 1975 e 1994, a TAP tenha sido “permanentemente deficitária”, daí ter exigido “um rigoroso plano de reestruturação para restabelecer a viabilidade”. E hoje? A TAP tem uma frota de 61 aviões, 10,8 mil trabalhadores, 2,8 mil milhões de euros de volume de negócios e todos os anos vê o total de passageiros crescer, fruto do alargamento de rotas e da adaptação da oferta à procura. O problema da TAP em 1994 estava, assim, directamente relacionado com o transporte aéreo, daí a dura reestruturação a que a empresa foi obrigada.

 A companhia aérea nos últimos dez anos não só duplicou os proveitos como desde 2008 conseguiu baixar a dívida de 1,4 mil milhões para mil milhões recorrendo apenas aos seus próprios recursos.

 

* Venda pode chegar aos 488 ME consoante desempenho em 2015

 

 A venda da TAP ao consórcio Gateway permite a entrada de "no mínimo" 354 milhões de euros, valor que, consoante o desempenho da transportadora, pode chegar aos 488 milhões de euros, revelou o Governo.

 O valor da transação é "medido pela capitalização, pelo preço pago por acções e pela opção de compra e venda", sendo que "não é possível antecipar nesta fase o valor recebido daqui a dois anos" pelo Estado com a privatização da TAP, explicou a secretária de Estado do Tesouro, Isabel Castelo Branco.

 A governante falava em conferência de imprensa realizada no final da reunião sema-nal Conselho de Ministros.

 Na mesma conferência de imprensa, o secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro reconheceu que o valor de "encaixe" para o Estado com o negócio é "reduzido" mas "importante", sendo que a aposta no caderno de encargos sinalizava de antemão que havia um foco importante na capitalização da empresa.

  O consórcio que ganhou a privatização da TAP, liderado pelo empresário português Humberto Pedrosa, assumiu que o compromisso de crescimento e de investimento na companhia aérea nacional é a partir de hoje a prioridade.

 "É com enorme satisfação que recebemos a notícia do Estado Português de que a nossa visão para o futuro da TAP foi a escolhida”, lê-se numa nota enviada à Lusa por David Neeleman e por Hum-berto Pedrosa, considerando que “mais importante que a vitória é a responsabilidade”.

 Os dois empresários que integram o consórcio Gateway realçam “a responsabilidade de corresponder às expectativas criadas a todos os envolvidos, desde o Estado aos colaboradores e, principalmente, os portugueses que têm tanto sentimento pela TAP”.

 “O nosso compromisso de crescimento e investimento na TAP e em Portugal é a partir de hoje a nossa prioridade”, sublinham.

 

* PS promete reverter processo

 

 O PS advertiu que a privatização da TAP está ainda numa "fase intercalar" e que um Governo socialista fará reverter o processo para garantir que o Estado conservará a maioria do capital da transportadora aérea.

 Em conferência de imprensa, o coordenador da bancada socialista para a Economia, Rui Paulo Figueiredo, adiantou também que o PS chamará ao parlamento, com carácter de urgência, o ministro da Economia, Pires de Lima, para dar explicações detalhadas sobre o processo de privatização da TAP.

 Estas posições foram assumidas pelo dirigente socialista após o Conselho de Ministros ter anunciado a decisão de vender a TAP ao consórcio Gateway, liderado pelo norte-americano e brasileiro David Neeleman, que está associado ao português Humberto Pedrosa (da Barraqueiro), rejeitando pela segunda vez a proposta de Germán Efromovich (dono da Avianca).

 

* Paulo Portas recomenda “alguma coerência” ao PS

 

 O vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, recomendou ao PS "alguma coerência" sobre a privatização da TAP, recordando que a defendeu quando era Governo e "a colocou no memorando com a ‘troika’", criticando os "sinais errados aos investidores" dados pelos socialistas.

"Eu recomendaria alguma coerência ao maior partido da oposição porque as pessoas têm memória. Então o PS quando está no Governo diz "viva a Swissair" e quando es-tá na oposição diz "abaixo a Azul?", respondeu Paulo Portas aos jornalistas sobre a privatização da TAP, à margem do encerramento 1.º Fórum Exportador, em Guimarães.

 O vice-primeiro-ministro recordou que o PS defendia a privatização "quando era Go-verno e até a colocou no memorando com a ‘troika’" e acusou o maior partido da oposição de nos últimos tempos estar "a dar sinais errados aos investidores".

 "Ao dizer que rompe o acordo com o Governo sobre a descida gradual do IRC e ao dizer agora que interrompe o processo de capitalização da TAP, evidentemente gera des-confiança e gera incerteza", condenou.

 Paulo Portas foi mais longe e considerou que uma gestão privada na TAP torna a companhia "mais livre e menos dependente de direcções sin-dicais que convocam greves inaceitáveis porque numa gestão privada, as pessoas têm que pensar duas vezes".

 "Estas direcções sindicais fazem estas greves, que dão cabo financeiramente de uma companhia, porque acham que alguém pagará a factura, ou seja, o Estado há de lá pôr o dinheiro. Numa empresa privada não é assim", alertou, considerando que isso é bom para os clientes, para a reputação da companhia e para os próprios pilotos que "têm um ambiente onde o seu mérito profissional é avaliado e ainda bem porque são bons".

 O governante enfatizou que a "entrada de capital novo, privado na companhia dá-lhe outra oportunidade" e que "isso também é outra oportunidade para os postos de trabalho".

 Sobre as críticas aos números envolvidos no negócio, Portas foi peremptório: "se alguém tiver 1092 milhões de euros, que é o valor da dívida, e se alguém me conseguir resolver o problema dos mais de 500 milhões de euros de capitais próprios negativos e disser eu não preciso de capital privado e tiver uma solução, faça o favor de a apresentar".

 O vice-primeiro-ministro rejei-tou que a solução passe por o "Estado pôr lá dinheiro", recordando que "a União Euro-peia é claríssima quando re-cusa auxílios de Estado que depois têm que ser devolvidos".

 "Só com capital privado, fresco e novo na empresa é que nós a viabilizamos. E a viabilidade da TAP é essencial para que ela continue a ser es-tratégica", observou.

 Paulo Portas disse ficar bastante descansado com o facto de o vencedor ter origem na América Latina.

"Porque se fosse europeu poderia ter a tentação de deslocalizar os voos, sendo sul-americano tem naturalmente a vocação de crescer para a Europa e eu acho que o ‘hub’ português – que não é só Lisboa, também é Porto, também é Faro – pode até crescer", justificou.

 Paulo Portas fez na sexta-feira o encerramento do 1.º Fórum Exportador, em Guima-rães, uma iniciativa do Conselho Empresarial da Região do Ave e do Cávado.