Governo português tem de criar condições para evitar a fuga de cérebros

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“fuga de cérebros”

“fuga de cérebros”A chamada “fuga de cérebros” está a aumentar em Portugal e vai continuar a crescer no futuro, cabendo ao Governo criar condições para colmatar essas saídas, defendeu o coordenador do Observatório da Emigração.

 “Aumentou o peso da população que migra, não tanto pelas razões económicas, mas mais pela procura de condições de realização pessoal e profissional. Sobretudo na área do trabalho qualificado e essa é uma emigração que inevitavelmente continuará a aumentar”, disse Rui Pena Pires.
 Numa entrevista à agência Lusa por ocasião do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que se assinala na quinta feira, o sociólogo alertou para a necessidade de Portugal criar condições para colmatar a saída de pessoas qualificadas.

 “Ninguém acreditará se alguém disser que dentro de 10 ou 15 anos teremos capacidade de dar emprego com condições de realização profissional elevadas a sectores muito qualificados equiparados aos Estados Unidos, à União Europeia, à França ou à Alemanha. É impossível”, afirmou.
 O especialista em migrações contrariou ainda a ideia recente de que há uma nova vaga de emigração, afirmando que essa vaga “não é nova”, simplesmente “esteve muito tempo escondida do olhar público”.
 “A emigração recomeçou no final dos anos 1980. Assim que se deu a integração europeia, os acordos facilitaram a liberdade de circulação e recomeçou a emigração portuguesa para o espaço europeu”, disse.

 A novidade desta vaga emigratória prende-se com os destinos escolhidos.
 Além dos tradicionais França, Luxemburgo e Alemanha, surgiram também o Reino Unido, Espanha e, mais recentemente, Angola.
 Outra novidade da emigração portuguesa prende-se com a sazonalidade, que não existia nos anos 1960 e 1970 quando as pessoas saíam do país para sempre ou por muitos anos, disse.

 Afirmando que, por ano, saem de Portugal entre 60 a 70 mil pessoas, Rui Pena Pires estima entre 2,3 milhões e 2,5 milhões o número de portugueses no estrangeiro e ressalva que os cinco milhões frequentemente referidos contabilizam os filhos dos emigrantes já nascidos nos países de acolhimento.
 “Mesmo assim, é um número muito elevado para um país com 10 milhões de habitantes”, ressalvou.
 O sociólogo destacou a dificuldade de se saber ao certo quantos portugueses saem para trabalhar no estrangeiro porque “não há estatísticas de saída”, afirmando que “os países que as têm são países que não têm um regime de-mocrático”.
 Numa análise comparativa entre a emigração dos anos 1960 e a recente, Rui Pena Pires disse que as “diferenças que existem resultaram da transformação da população portuguesa”.

 “Hoje, parte dos sectores que são responsáveis pelo crescimento da emigração na Europa são sectores ligados à limpeza, à segurança e à manutenção dos espaços urbanos. Nos anos 60 era muito maior o peso da indústria”, afirmou.
 O coordenador do Observatório da Emigração disse ainda que outra mudança prende-se com a facilidade de comunicação e com o facto de os portugueses irem encontrar na Europa sociedades muito semelhantes à portuguesa, pelo que a integração é mais facilitada e a necessidade de se agruparem numa comunidade fechada para recordarem o seu país é quase inexistente.
 No entanto, assegurou que há um elo comum que atravessa gerações de emigrantes: partem sempre com a ideia de regressar!

* Emigração para a Alemanha está a mudar, com a chegada de muitos licenciados

 O paradigma da emigração portuguesa para a Alemanha está a mudar, com a chegada nos últimos anos, a metrópoles como Berlim ou Munique, de muitos licenciados de diversas áreas, atraídos por um mercado de trabalho mais compensador.
 Tal como os seus compatriotas que começaram a emigrar para a Alemanha nos anos sessenta, para voltar a pôr de pé uma indústria arrasada pela guerra, a saída de Portugal dos novos emigrantes foi também motivada pela falta de perspectivas de um emprego compatível em Portugal, que retarda também eventuais planos de regresso à pátria.

 “Penso que dificilmente regressarei a Portugal, apesar de o meu pensamento estar lá todos os dias”, diz à Lusa Manuel Faria, que chegou à Alemanha em 1976, começou a trabalhar numa expedição, e acabou por se tornar comerciante.
 “Aquilo que se vê de Portugal não é nada animador, e tenho mais garantias sociais na Alemanha, o que me faz ter re-ceio de regressar um dia”, diz o emigrante de 58 anos, natural de Barcelos.
 Luís Batalha, formado em antropologia social, a trabalhar no Museu das Comunicações de Berlim, ainda não tem 10 anos de Alemanha, mas partilha algumas das preocupações do seu compatriota.

 Este emigrante sublinha que o país de origem vai ter de esperar por ele “nos próximos anos”, e que as condições que a Alemanha lhe oferece “não são comparáveis às que existem em Portugal”, quer quanto à progressão na carreira, quer quanto às recompensas financeiras.
 E dá um exemplo elucidativo, um jovem como ele, que termina o curso universitário e começa a trabalhar num mu-seu de Berlim, ganha, logo de entrada, o mesmo que um di-rector de departamento de um museu em Portugal.

 André Isidro, 29 anos e licenciado em Estudos Europeus, prefere sublinhar as perspectivas profissionais que encontrou em Berlim, onde implementa projectos para uma grande multinacional da área das comunicações integradas.
 A facilidade em arranjar emprego em Berlim surpreendeu-o, e embora soubesse que era mais fácil do que em Lisboa, um mês depois de estar na capital alemã já tinha iniciado um estágio na empresa onde está, que mais tarde lhe ofereceu um contrato fixo.
 “Entretanto, tenho vários co-legas de curso que também vieram para Berlim, e outros conhecidos com cursos universitários que já encontrei aqui, vieram à procura de uma perspectiva de trabalho e de uma vida diferente, e têm-se saído bem”, sublinha André.

 Carlos Faísca, 65 anos, tem uma história bem diferente: saiu de Portugal nos anos sessenta, para não ter de fazer o serviço militar e começou por ter uma vida bem dura no país de acolhimento.

 “Comecei por trabalhar numa fábrica de chumbo, em Hamburgo, estive lá um ano e meio, e depois fui para a marinha mercante alemã, fui marinheiro durante muitos anos, até me estabelecer com um restaurante na Alemanha”, conta o reformado, entretanto a viver em Loulé, sua terra natal.
 Mas agora viaja frequentemente entre Portugal e a Alemanha, porque os dois filhos ficaram a viver no país onde nasceram, lamenta este emigrante da primeira geração.

 O Dia de Portugal não vai ser assinalado este ano por nenhuma cerimónia oficial ou particular na Alemanha, ao contrário do que acontecia há alguns anos.