Golpe de Estado no Mali

0
213

Uma grande crise humanitária, afectando 3,7 milhões de pessoas, incluindo 1,6 milhão de crianças, Estará na origem do golpe de Estado protagonizado na terça-feira por um grupo de militares, que exigiu a demissão do presidente e seu ganinete, como se isso viesse a resolver o problema que o país enfrenta desde  dezenas de anos, agravada por violentos conflitos interétnicos, que opõem predominantemente os Fulani às comunidades Dogon.

  Os golpistas, por seu lado, que anunciaram a criação do Comité Nacional para a Salvação do Povo (CNSP), dizem ter decidido assumir  responsabilidades perante o povo e perante a história de um dos países mais pobres do planeta, com um PIB per capita de apenas 837 dólares, pro-pensa à seca, que figura na lista das Nações Unidas de 47 países menos desenvolvidos, com  grande parte de sua população a depender da agricultura de subsistência para poder sobreviver.

  Mali, que já fez parte de três famosos impérios da África Ocidental que controlavam o comércio trans-saariano de ouro, sal, escravos e outras mercadorias preciosas, principalmente durante o reinado de Mansa Musa – um imperador rico da Idade Média -, é também famoso por crimes violentos, como sequestro e assalto à mão armada. O crime violento é uma preocupação particular durante feriados locais e eventos sazonais em Bamako, seus subúrbios e nas regiões do sul do país.

  Alegando que o país está afundar dia após dia no caos, na anarquia e na insegurança devido aos homens encarregados do seu destino, os militares não podem ter isso como dado fundamental para um golpe de Estado, que até deixa sua sociedade agitada e cheia de medo, sem saber o que poderá acontecer no dia de amanhã, já que o poder foi arrancado com base numa força militar e não democraticamente.

  Diz-se na praça pública que um dos catalisadores da actual crise política no Mali foi a invalidação, no final de Abril, de 30 resultados das eleições legislativas pelo Tribunal Constitucional, incluindo cerca de uma dezena a fa-vor da maioria parlamentar. A decisão, aliada a factores como o clima de instabilidade e insegurança sentido nos últimos anos no centro e norte do país, a estagnação económica e a prolongada corrupção instigaram várias manifestações contra o presidente Ibrahim Boubacar Keita, vulgarmente chamado por  IBK.

  A pesar de os militares alegarem que todos os acordos feitos serão respeitados, o que poderá ter tranquilizado a comunidade internacional, não deixa de reinar muitas dúvidas sobre o futuro político do país.

  A missão da ONU Minusma, a força anti-jihadista francesa Barkhane, o G5 do Sahel (que inclui cinco países da região), a força Takuba (um agrupamento de forças especiais europeias criado supostamente para apoiar os malianos em combate) continuarão como parceiros, devendo os militares golpistas estar empenhados no Processo de Argel, o acordo de paz assinado em 2015 entre Bamako e os grupos armados do norte do país.

  Para evitar um “banho de sangue”, já que estas golpadas tem sido uma desculpa para os oportunistas criminosos, o presidente Ibrahim Boubacar Keita, no poder desde 2013, anunciou no mesmo dia a sua demissão e a de todo o Governo, uma exigência até dos responsáveis pelo gol-pe de Estado.

  Apesar de golpeado, Keita agradeceu ao povo do Mali pelo seu acompanhamento ao longo destes longos anos e o calor do seu afecto. “Não quero que se derrame mais sangue por me manter no poder”, afirmou na televisão estatal do país.

  Um responsável do motim, anunciou no final da tarde de terça-feira, ter detido o Presidente Ibrahim Boubacar Keita e o seu primeiro-ministro, durante a revolta dos milita-res, uma acção que foi condenada pela aliança militar regional do G5 Sahel, que exigiu a “libertação imediata e incondicional” do Presidente, primeiro-ministro, membros do governo e de todas as personalidades detidas durante o golpe de Estado.

  Num comunicado emitido em Nouakchott, a presidência mauritana do G5 Sahel (Mauritânia, Mali, Níger, Chade e Burkina Faso) expressou o seu “apego inabalável à ordem constitucional e ao respeito pelas instituições democraticamente estabelecidas” no Mali, após o golpe de Estado dos militares.

  Sabe-se que o actual presidente do G5 Sahel continua em estreitas conversações com os seus homólogos, chefes de Estado dos países membros, acompanhando com grande preocupação os graves acontecimentos ocorridos na terça-feira, reafirmando a disponibilidade dos presidentes do grupo para “ajudarem os irmãos do Mali na resolução pacífica desta crise extremamente grave”.

  Assim, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) anunciou na terça-feira a suspensão do Mali como membro dos seus órgãos exe-cutivos e agora também não é claro qual é o papel do país no seio do G5.

 Grande preocupação tem também Portugal, que  desde 1 de Julho possui uma Força Nacional Destacada no Mali, no âmbito da Missão Multidimensional Integrada para a Estabilização do Mali (Minusma), das Nações Unidas, com um contingente de cinco elementos na missão europeia (quatro no quartel-general de Bamako e um no campo de treino de Koulikoro) e 69 na missão das Nações Unidas (65 no destacamento aéreo, com um avião de transporte C-295 e quatro no quartel-general).

  O objectivo da missão portuguesa é assegurar missões de transporte de passageiros e carga, transporte táctico em pistas não preparadas, evacuações médicas, largada de paraquedistas e vigilância aérea e garantir a segurança do campo norueguês de Bifrost, em Bamako, onde estão alojados os militares portugueses.

  A boa notícia é que os portugueses se encontram bem”, segundo garantiu o Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa, que adiantou a embaixada de Portugal em Argel, acreditada no Mali, não ter recebido qualquer comunicação de cidadãos nacionais.

   Segundo a informação prestada pelo MNE há portugueses a trabalhar em algumas empresas no Mali, mas a maior parte está integrada nas missões Eucap, EUTM e Minusma”, missões das Nações Unidas ou da União Europeia (UE).

  Por outro lado, o secretário-geral das Nações Unidas, o português António Guterres, fez saber, através do seu porta-voz, que está a acompanhar com “profunda preocupação” a situação, condenando o motim militar. Guterres “condena veementemente” estas acções, apelan-do para a “restauração imediata da ordem constitucional” e do “Estado de direito no Mali” e a “libertação imediata” de Keita e dos membros do Governo.

  Também os líderes da União Europeia manifestaram-se “extremamente preocupados” com o golpe militar no Mali, que pode “desestabilizar toda a região”, e reclamam o regresso ao Estado de direito.

  Apesar de preocupada com a situação, a UE defende que deve “prosseguir a cooperação estreita com a CEDEAO”, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, que tem promovido um diálogo entre Governo e manifestantes, “e outras organizações africanas, em busca de uma solução que vá ao encontro das aspirações do povo do Mali.

  Este é o segundo golpe de Estado que o país sofre, desde a indepdênência conquistada ao Governo francês em Junho de 1960. O primeiro aconteceu em Março de 2012, quando militares atacaram diversos locais da capital do país, Bamako, incluindo o palácio presidencial, a televisão estatal e quartéis militares.

  Os militares, que afirmaram ter formado um “Comité Nacional para a Restauração da Democracia e do Estado” (CNRDE), declararam no dia seguinte que  tinham derrubado o regime de Amadou Toumani Touré, que renunciou ao cargo formalmente, após um acordo entre as facções golpistas e lideranças da CEDEAO.

  Cada golpe tem a sua justificação. Os países dizem-se democráticos mas no fundo nem todos os problemas políticos são resolvidos democraticamente, havendo até a chamada “ganância do poder” para a sua solução. Com as conversações, talvez o Mali possa chegar lá.

Eduardo Ouana