Glórias do passado:José Águas, do Benfica,o primeiro português a erguer a Taça dos Campeões Europeus

0
96
José Águas

José ÁguasHá 61 anos o Benfica fez uma digressão por África e aterrou em Lisboa com um reforço na bagagem, que seria o capitão das duas Taças dos Campeões.

 Quantos jogadores venceram a Taça dos Campeões?
 Quantos jogadores venceram a Taça dos Campeões e se sagraram melhores marca-dores nessa época de glória?
 Nove: Di Stéfano, Puskas, José Águas, Altafini, Müller, Van Basten, Kaká e Cristiano Ronaldo.
 Quantos jogadores venceram a Taça dos Campeões, se sagraram melhores marcadores e ainda levantaram a Taça na qualidade de capitães?
 Esta é fácil. Só um: José Águas, em 1961. E é dele que vamos falar, porque fez, 61 anos que chegou a Portugal, via Angola.
 Nasceu em Luanda e cresceu no Lobito, onde o pai, Raul, trabalhava. Aos 15 anos, José entra como dactilógrafo na Robert Hudson, empresa concessionária da Ford, e com facilidade lança-se na equipa de futebol da firma. Com instintos goleadores.
 Em 1950, José Águas, com 19 anos, e já um benfiquista ferrenho, por influência do pai, vive um dia de glória aquando da vitória do Benfica na Taça Latina. No dia seguinte, um jornal local publica o poster dessa equipa e José Águas cola-o na parede do quarto.
 No mês seguinte, quando o referido poster já estava amarelo de apanhar tanto sol, o Benfica chega a Angola para uma digressão de início de época.
 Dos 15 jogos previstos, o oitavo é o mais importante.

 Não pelo resultado (derrota por 3-1), mas pelos dois golos de José Águas, avançado-centro da selecção de Lobito, que saltou mais alto que qualquer defesa do Benfica.
  Ted Smith, treinador inglês dos encarnados, pede-lhe então que passe pelo seu hotel para falarem.
 No dia seguinte, o FC Porto, por telefone, convida José Águas para umas férias na In-victa e uns treinos na Constituição (o estádio dos portistas), ao que este responde, timidamente: Amanhã respondo.
 O amanhã nunca mais chegou para o FC Porto, pelo menos. Para o Benfica, o ama-nhã significa a descoberta de mais um fenómeno da África ultramarina. Ponta-de-lança elegante e clássico, fazia do jogo de cabeça a sua grande arma.
 E larga tudo para vestir a camisola do Benfica no resto da digressão.

 Nos três jogos seguintes, seis golos, incluindo um hat-trick na estreia, com a selecção Huíla-Lubango
 A 9 de Setembro de 1950, o Benfica aterra em Lisboa, com um reforço na bagagem. E o resto é história. Que vale a pena contar.
 José Águas demora duas horas a adaptar-se ao nosso futebol.
 No primeiro jogo, com o Atlético, na Tapadinha (2-2), para a segunda jornada do campeonato nacional, Águas, nada habituado a um campo relvado e a jogar com pitons, quase não toca na bola e é posto em causa pela imprensa desportiva.
 Antes que isso se transforme em críticas, Águas desfaz equívocos e marca quatro go-los (o primeiro aos 30 minutos), na jornada seguinte, num estonteante 8-2 ao Braga.

 Nas 13 épocas seguintes, José Águas vive momentos inesquecíveis, como a conquista das duas Taças dos Campeões, em 1961 e 1962 (na primeira edição é mesmo o melhor marcador da prova, com 11 golos em nove jogos), ambas como capitão, e um golo em cada final, ao Barcelona e ao Real Madrid, respectivamente. Sem esquecer que foi o primeiro português votado para a "France Football", em 1961 (certamente votos do jornalista português, porque a sequência José Águas, Germano, José Augusto, Costa Pereira e Eusébio é no mínimo suspeita). Além das sete Taças de Portugal e de cinco campeonatos nacionais e cinco títulos de melhor marcador da Pri-meira Divisão, que contribui para que seja dos poucos jogadores do mundo a terminar a carreira com mais golos (290) que jogos (282).

 Em 1962, a saída do técnico húngaro Bela Guttmann precipita o fim de José Águas.
 Com o chileno Fernando Riera a apostar em José Torres, é relegado para o banco.
 Emigra então para a Áustria e joga no Austria Viena, contabilizando dois golos (em sete jogos), longe dos números arrasadores no Benfica: 379 golos (em 384 jogos), no segundo melhor registo de sempre da história encarnada, só atrás de Eusébio (473), outro fenómeno de África, mais precidamente de Moçambique.  Mas isso é outra história. Que fica para outro dia. Hoje é o de José Águas.
 A filha Helena Águas, mais conhecida no mundo da canção como Lena d’Água, es-creveu o livro “José Águas meu pai herói’”
 Helena Águas aceitou o desafio de Maria João Lourenço, editora da Oficina do Livro, para escrever “José Águas meu pai herói” livro sobre o seu pai, José Águas, o capitão do Benfica que por duas vezes ergueu a Taça dos Campeões Europeus.

 Num trabalho a que chamou "arqueologia do fundo do coração", a mulher que nos anos 80 foi Lena d’Água, voz de êxitos musicais como ‘Sempre que o Amor me Quiser’ e ‘Dou-te um Doce’, abriu gavetas à procura de memórias, redescobrindo o pai e outras "personalidades valorosas da história do futebol português antes de Eusé-bio".

Desde o nascimento em Luanda, a 9 de Novembro de 1930, até à morte, a 10 de De-zembro de 2000, em Lisboa, sucedem-se ao longo das páginas de “José Águas meu pai herói” descrições dos feitos desportivos do avançado que foi campeão europeu há 50 anos, mas sobretudo instantâneos do homem que escrevia bilhetes para a mulher e para os filhos quando era obrigado a estar longe, precisamente devido ao futebol.

CAMPEÃO EUROPEU

 "Esse jogo em que venceram o Barcelona por 3-2, na final da Taça dos Campeões Europeus, foi o que mais marcou o meu pai. Por ter sido "a primeira vitória do Benfica frente a uma das melhores equipas mundiais; porque marquei o primeiro golo… (era sempre eu a marcar o primeiro golo; era o capitão e tinha que dar o exemplo… Foi assim, também, na final com o Real Madrid, em Amesterdão) e porque esse jogo relançou o Benfica a nível mundial".

DEPOIS DA REFORMA

 "Sabíamos do humor com que chegava a casa pelo assobio… ficava pelo quintal a regar as árvores de fruta e a fumar o seu cigarrito… Aliás, era lá que costumava passar o tempo que duravam os jogos do Benfica, que o enervavam.
 Preferia não ouvir o relato, ainda mais quando o Rui jogava… Volta e meia, munia-se de uns óculos escuros e de um boné e ia "incógnito" assistir aos desafios "do seu rapaz". Escondia-se atrás de uma árvore, ou de um poste, acreditava que passava despercebido, mas o Rui via-o sempre!"

ÚLTIMOS DIAS

"Na véspera do derradeiro internamento no Instituto Português de Oncologia, estivémos os três na sala, entretidos a ver um qualquer programa de televisão, como se fosse apenas mais uma noite como as outras. Por volta da meia-noite, talvez mesmo um pouco mais tarde, chegada a hora de subir ao quarto, o meu pai levantou-se devagarinho do seu lugar, o sofá perto da janela. Estava muito fraco, mas, apesar de tudo, continuava imponente, mantinha o porte de capitão nos seus, apesar de tudo, belos 70 anos.
 A minha mãe pediu-me: "Lena, ajudas o pai a subir?" Estremeci. Ia ser a última vez, todos o sabíamos bem.
 Mantive o sangue-frio – sou a filha mais velha, tinha de "dar o exemplo" nos momentos em que a maldita doença se interpunha entre nós e decidiu levá-lo do nosso convívio para sempre. Paz à sua Alma!

 António Lobo Antunes assina o prefácio do livro “José Águas, o meu Pai Herói”.
 “José Águas foi uma das figuras mais marcantes do futebol português. Não apenas pela sua elegância e técnica invulgar na abordagem ao jogo, mas, sobretudo porque sempre soube exibir essas qualidades numa função – a de avançado-centro – que não exigia, naquela época, tão subtil desempenho.
 Do n.º 9 de antigamente, encaixado no eixo do ataque, entre os interiores, esperava-se, pelo contrário, empenho e espírito de luta, de que a capacidade de concretização era seu natural complemento.

 O virtuosismo ficava entregue a outros. Dele só se esperava a eficácia. Águas teve o mérito de aliar estes dois conceitos.
 A classe, que fez transbordar nos relvados (e também nos incríveis pelados de início), e os golos, muitos, que galvanizaram multidões.
 Uma das primeiras imagens que ressaltam nas páginas deste livro é a de um jovem jogador a “nadar” dentro de um casaco emprestado por Ted Smith, gigante louro e o primeiro treinador que co-nheceu no Benfica: o casaco largueirão foi, simbolicamen-te, a primeira camisola encarnada que Águas pai envergou ao serviço do clube da sua paixão. Outra imagem forte prende-se com a sua forma de estar em campo. Quem o viu jogar nunca mais esqueceu os saltos ágeis e felinos,  “como se uma gazela brincasse no capim alto”, nem os golos de antologia que marcou, sobretudo de cabeça, revelando a sua classe de fino jogador.

Para além de se destacar em campo, José Águas revelou-se também fora das quatro linhas. Escrevia cartas de amor tocantes, postais ternos e divertidos aos filhos. Falava da família, da “sua senhora”, com um amor profundo. As suas crónicas contribuem para traçar um retrato rigoroso e crítico do mundo do futebol à época.
Mais do que uma biografia, este livro é o retrato inspirador de um desportista com cabeça que sempre teve o Benfica no coração» José Águas pelos olhos da filha.