Glórias do passado “Matateu” do Clube Futebol Os Belenenses

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Matateu

MatateuA 27 de Julho de 1927, em Lourenço Marques, nascia Sebastião Lucas da Fonseca. O futebol mundial viria a consagrá-lo mais tarde como Matateu, a quem um dia chamaram “a 8ª maravilha do mundo”.

 Grande área, bola nos pés, e era golo certo.Fantástico no drible curto, possuidor de um arranque notável e senhor de um remate fortíssimo com qualquer dos pés, Matateu era uma força da natureza.
 Um fulgor e alegria em campo, e fora dele, que fez misturar o seu próprio nome com o do Belenenses de tal forma que conseguiu que, no seu tempo, os jogadores azuis fossem representados a negro. Ainda hoje, “Os Belenenses” têm orgulho disso!
 O futebol português muito deve a Moçambique. Naquela ex-provincia ultramarina de Portugal, agora nação, nasceram alguns dos maiores mitos do relvado.

 Artistas negros da bola que os portugueses idolatraram e o mundo consagrou. Matateu, Coluna, Vicente e Eusébio são os melhores exemplos do talento moçambicano.
 Sebastião Lucas da Fonseca, ou Matateu, nasceu com três quilos. Filho de Matambo Lucas e Margarida Heliodoro, nasceu no Alto de Mahé, popular bairro de Lourenço Marques (hoje Maputo, capital de Moçambique), o mesmo onde haveria de nascer outras estrelas da constelação futebolística nacional. Foi o terceiro filho de cinco irmãos. Mais tarde nasceriam Lusete, e depois Vicente, o caçula que viria a tornar-se o “tal central que secava Pelé”.

 A família não era abastada, muito pelo contrário. O pai tipógrafo de profissão não ga-nhava muito mais que o suficiente para o sustento.
  Matateu passou a infância de forma humilde mas, amor nunca faltou. Mas Matateu era apenas uma alcunha que o próprio dizia nem a mãe saber a origem.
 Aos 10 anos foi para a Escola de Santana da Munhuana. Entretanto, aprendeu a nadar para fora de pé.
 O futebol não era paixão platónica e acabou por abandonar a praia de Polana para ir treinar ao campo do 1º de Maio, filial de “Os Belenenses”.
 Vestiu, em seguida, a camisola do João Albasini (clube particular, constituído por africanos) para pouco depois regressar ao primeiro clube, encantado por uma proposta de emprego.

 Não conseguiu dar ao pai a alegria de o ver jogar ao mais alto nível, falecido tinha ele 16 anos, antes de Matateu alinhar pela Selecção de Lourenço Marques. Foi nessa altura que se transferiu para o Manjacaze, pela vantagem de algum dinheiro e, fundamentalmente, um lugar nos escritórios da administração da vila.

 Fez um jogo e logo João Pedro Belo, o árbitro da partida e ex-internacional do Belenenses, o indicou. Aos azuis, claro. Pouco tempo depois Matateu recebeu um telegrama em Lourenço Marques:  “Tratar tudo urgentemente stop Matateu embarque Lisboa primeiro avião stop”. Assim foi. Com destino ao relvado do Belém, partiu com a proposta de uma passagem de ida (e de volta, se viesse a desejar), 30 contos de luvas e 1600 escudos de salário. Para trás ficavam sete épocas em modestas equipas laurentinas. Pela frente o desafio de uma vida …
 A 4 de Setembro de 1951 chegou a Lisboa.

 A 16 desse mês estreou-se num jogo de pré-época contra o F. C. Porto. Passado pouco mais de uma semana, e apenas 19 dias após ter pisado (anónimo) pela primeira vez a Europa, já a imprensa o apelidava de “astro”.
 Afinal tinha sido carregado em ombros pelos eufóricos adeptos do Belenenses no final de uma partida, realizada nas Salésias, vencida por 4-3 frente ao Sporting, na primeira jornada do campeonato.
 Apontou o golo do empate a 2 bolas, deu a marcar a um colega o 3-2, suportou o de-sânimo do 3-3 para apontar, a cinco minutos do final, o golo da vitória.
 Na época seguinte (52/53) jogou pela Selecção Nacional. A estreia ocorreu a 23 de Novembro de 1952, no Porto, frente à Áustria. No final da época cotou-se como o melhor marcador do campeonato, com 29 golos em 26 jogos, vencendo a Bola de Prata, prémio instituído nessa temporada pelo jornal “A Bola”. Duas épocas depois repetiria o feito com 32 golos apontados.

 A 28 de Novembro de 1954 defrontou, ao serviço da Selecção, a formação das pampas. Nesse mesmo dia nascia a sua filha, fruto do casamento com Matilde Gomes, a quem baptizou de Argentina – nome do adversário que o havia deixado “em branco”.
 Curiosa e infortunadamente a época de 54/55, em que bisou o troféu de melhor marcador, ficaria marcada na história de “Os Belenenses” e de Matateu, como a mais aziaga página desportiva.

 Em 24 de Abril de 1955, nas Salésias, o Belenenses defrontou, no último jogo do campeonato, o Sporting.
 Caso vencesse, e tudo indicava que sim, sagrar-se-ia campeão nacional. Porém, a quatro minutos do final, com a marca de 2-1 favorável aos azuis, o sportinguista Martins fez o empate e deu a vitória no campeonato ao … Benfica, que nessa tarde vencia o Atlético.
 Matateu marcou um golo. E teria marcado outro se o árbitro do encontro tivesse validado, já que, segundo o testemunho de muitos, entre eles o do próprio guarda-redes, e grande desportista do Sporting, Carlos Gomes, a bola esteve dentro, e bem dentro, da baliza.
Pese o desgosto de Matateu, que nunca se sagraria campeão nacional, a carreira continuou a desenrolar-se de forma extraordinária, jogando e marcando golos pelo seu Belenenses e pela Selecção Nacional.

 Um desses golos viria a contribuir para a vitória alcançada na final da Taça de Portugal, a 3 de Junho de 1960 no Estádio Nacional, frente ao Sporting por 2 a 1, que funcionou como uma espécie de desforra do fatídico empate, ocorrido cinco anos antes.
 O grande Matateu só podia ser travado na área em falta. E uma dessas faltas travou a possibilidade irrevogável de, no dia 21 de Outubro de 1961, Portugal assistir à participação num só jogo dos seus três maiores avançados, e mitos, de sempre: Peyroteo, Matateu e Eusébio. A partida, disputada com o Luxemburgo, que serviu de estreia ao Pantera Negra, poderia ter sido também a última de Matateu (com 34 anos) ao serviço da Selecção Nacional, orientados por Peyroteo, há muito retirado dos relvados.

 Mas quis o destino que, convocado, Matateu se lesionasse e não recuperasse a tempo … teria sido um sublime, e único, momento em que se juntavam, mais que simples avançados, jogadores de raro instinto do golo, raça de rematadores natos, aquele “algo mais” que fazia erguer as bancadas numa arrepiante emoção, mal na grande área os viam com a bola nos pés, na perspectiva do habitual rasgo de génio em movimento.
 No total, Matateu festejou os seus próprios golos por 217 vezes em 291 jogos realizados na 1ª Divisão, sempre ao serviço do Belenenses.
 Conquistou a Taça de Portugal em 59/60, venceu duas Taças de Honra e foi o melhor marcador da Taça Latina.
 Assinou três golos em duas partidas na Taça UEFA.

 Representou a Selecção portuguesa por 27 vezes, apontando 13 golos (igualando Peyroteo, até então o melhor da Selecção Nacional).
 Matateu era um verdadeiro felino no ataque, sempre sedento de golos.
 Chamavam-lhe “o terror dos guarda-redes”. E foi essa fama, provada em campo, que lhe valeu da imprensa estrangeira o epíteto de “a oitava maravilha”.
 Vítima de diversas lesões, quase todas provocadas pela marcação implacável dos de-fesas adversários, Matateu lesionou-se gravemente em 1962, nos Estados Unidos, fracturando uma perna. No ano seguinte Fernando Vaz, técnico da formação azul, entende que Matateu já não pode jogar na 1ª equipa.

 Em Novembro de 1964, o clube promove-lhe uma grandiosa homenagem, para um mês depois ser dispensado, não obstante a forte oposição de alguns dirigentes da épo-ca, entre eles Acácio Rosa.
 Para muitos a sua carreira terminara. Mas para Matateu não. Representa o Atlético em 1965 ajudando o clube de Alcântara a regressar à I Divisão, apontando nove golos.

 Antes de partir para o Canadá para envergar a camisola do First Portuguese, representou ainda o Gouveia e o Amora. Volta a Portugal para representar o Chaves, mas a sua atenção centra-se já no continente americano para onde retorna, em 1969, jogando até aos 55 anos pelo Sagres de Vitória.
 Em Maio de 1987 e Outubro de 1994, Matateu desloca-se a Lisboa onde é alvo de homenagens promovidas pelo Clube de Futebol “Os Belenenses”.
 E é precisamente o Belenenses quem faz deslocar a Victória, no Canadá, o seu irmão Vicente e a sua filha Argentina, num momento que era já doloroso face à doença de que era vítima. Matateu agradece emocionado o gratificante gesto do seu clube de sempre e doa parte do seu espólio desportivo a “Os Belenenses”.

 No dia de 27 de Janeiro de 2000, aos 72 anos  faleceu.
 A 8 de Fevereiro, por iniciativa do clube e consentimento da família, as cinzas de Matateu foram depositadas em Portugal. Só não foi uma perda irreparável porque Ma-tateu há muito ocupa espaço na memória colectiva de todos os Belenenses e não só…