Festas Nicolinas querem bombos, pregões e “roubalheiras” na lista da UNESCO

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Festas Nicolinas querem bombos, pregões e “roubalheiras” na lista da UNESCO

Em Guimarães, estudantes ladeiam um pinheiro pelas ruas da cidade enquanto tocam bombos, dão maçãzinhas às raparigas, fazem "danças", apregoam crónicas, dão-se à "roubalheira" e fa-zem um magusto. São as Festas Nicolinas e querem ser Património Imaterial da Humanidade.

 Celebradas em honra de S. Nicolau, padroeiro dos estudantes de Guimarães e "também dos ladrões", as Nicolinas juntam, de 29 de No-vembro a 6 de Dezembro, actuais e antigos estudantes da cidade – os Novos Nicolinos e os Velhos. A primeira referência escrita das festividades remonta a 1645.

 A classificação pela Organização das Nações Unidades para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) seria o "perpetuar do culto" das Nicolinas para fora das margens da cidade e o "reconhecer de um tesouro único", mas pode ter um lado negativo, "a massificação, regras rígidas e cumprir a tradição por cumprir, sem a viver", segundo a direcção da Associação de Comissões de Festas Nicolinas.

"Uma das características das Nicolinas é não serem estáticas. Por exemplo, a ‘rouba-lheira’ não tem dia fixo, as danças nem sempre são no mesmo dia. Uma classificação como Património Imaterial da Humanidade iria dificultar esta flexibilidade", aponta o presidente daquela associação, Augusto Costa.

 Por outro lado, adianta outro dos responsáveis pela colectividade, Miguel Bastos, "seria a forma de muita gente em Portugal, e pelo mundo, saber que em Guimarães existe uma coisa tão única, enraizada e que, fora do concelho, quase ninguém conhece".

 O processo de candidatura, esclareceu Augusto Costa, "está ainda num estado muito embrionário”, com a elaboração do projeto científico.

 E o que são as Nicolinas? "Nasceram para homenagear S. Nicolau e alguns dos momentos foram pensados para custear uma capela evocativa do santo", responde Miguel Bastos, Velho Nicolino.

 S. Nicolau é celebrado a 6 de Dezembro, mas, "apesar do lado sagrado das festas, o lado profano foi suplantando a dimensão religiosa e foram sendo introduzidas tradições populares, como o anúncio do início das festividades com a ereção de um pinheiro", agora o primeiro momento das Festas Nicolinas.

 Assim, a 29 de Novembro, desde o século XVII, um pi-nheiro, oferecido há quase 100 anos pela mesma família, percorre a cidade, em cortejo, carregado num carro de bois e ladeado pelos estudantes de Guimarães, que tocam bombos e caixas.

 "É o mastro anunciador das festas. O dia em que milhares de estudantes e antigos estudantes voltam à cidade, dia de rever velhos amigos e acaba tudo na ceia, preferencialmente rojões", refere Augusto Costa.

 A 4 de Dezembro dão-se as Posses, oferendas que os estudantes recolhem pelas casas da cidade e que partilham depois com todos no grande Magusto.

 Um dos momentos altos das festas é a noite do Pregão, a 5 de Dezembro, "uma declamação, um texto, escrito por uma personalidade convidada pelos Nicolinos, um pouco crítico, satírico, que é recitado por vários pontos da cidade", diz Miguel Bastos.

 Seis de Dezembro, por regra, é dia das danças, mas também pode não ser. Trata-se de rábulas, representações, cantorias, levadas a cena numa sala de teatro, na rua ou em casas particulares, pelos Velhos Nicolinos.

 No mesmo dia, rapazes oferecem maçãzinhas, colocadas na ponta de lanças enfeitadas com fitas, às donzelas que esperam nas janelas.

 Sem dia fixo, as ‘roubalheiras’ são outra "marca" das festas, com origem na tradição de no S. João os estudantes, de forma sorrateira, mudarem de lugar as coisas do espaço público. “Na manhã seguinte, juntavam tudo no Largo do Toural, até as coisas mais bizarras", descreve Miguel Bastos.

 "Isto começou como uma festa de uma elite, havia poucos estudantes. A massificação do ensino massificou também as festas. Hoje as Festas Nicolinas são o pulsar do coração da cidade", acrescenta.