Fernando Anceriz fala sobre Comunidade, negócios e o futuro do país

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Fernando Anceriz é um português nascido na África do Sul. Orgulhosamente português contribuiu em muito para o bom nome da Comunidade. Desde fazer parte da direcção da escola do Lusito e outras acções de beneficência, ao contributo profissional que deu à África do Sul e pelo continente africano. Hoje, já sem o pé a fundo no acelerador mas firmemente ainda em crescimento, o Século foi saber junto de Anceriz a opinião que tem sobre a actual Comunidade lusa, o trabalho ainda por desenvolver e o seu percurso. Também com que olhos vê a África do Sul. No seu novo escritório, isto foi o que nos revelou…

 

Michael Gillbee: Dê-nos um pouco do seu historial, onde é que nasceu? Onde é que estudou?

Fernando Anseriz: Eu nasci em Joaneburgo em 1965 em Rosentenville. Estudei na Rosentenville Junior e Central, no liceu andei no The Hill High e depois nos últimos dois anos de liceu fui para o Damelin College que era na baixa de Joanesburgo. Depois estudei na Wits Technicon, onde estudei engenharia mecânica e depois fiz uma pausa nos estudos e fiz dois anos de serviço militar. Foi em 1983-1985 que estive no serviço militar e depois voltei aos estudos, acabei por fazer engenharia industrial. As minhas escolhas eram entrar no ramo da metalomecânica do meu pai, que começou a empresa dele nos finais dos anos 70. Passei a maior parte da minha juventude nesse ramo, não me deram muita opção de estudar ou fazer outra coisa. Aos 23 anos de idade, não possuía a mesma visão do meu pai e queria experienciar as coisas por mim mesmo e então comecei a minha carreira empreendedora. Mas claro, também dentro da metalomecânica. 

MG: A sua família de onde é que vem?

FA: Os meus pais vêm de Portugal, mas conheceram-se em Moçambique. As minhas irmãs nasceram em João Belo, Moçambique e o meu pai aos 21 anos veio para Moçambique, passou 9 anos em lá onde conheceu a minha mãe. Ironicamente, os meus pais são de duas vilas separadas por um quilómetro de distância no Fundão, Serra da Estrela, mas nunca se conheceram enquanto jovens. E têm 11 dias de diferença de idades. E nos anos 60 houve uma grande procura de artesãos na África do Sul e vieram para cá. Pouco tempo depois de chegarem eu nasci.

MG: Vem de uma família portuguesa muito tradicional e tendo estudado cá em Inglês e Afrikaans, fala Português de forma perfeita. Como é possível?

FA: Isso tenho que dar crédito aos meus pais. Ainda hoje em casa, com os meus pais, apenas se fala Português. Eles sempre falaram com elevado nível de Português connosco e sempre insistiram que nós falássemos a língua. Todos nós, eu e as minhas irmãs, todos falamos, lemos e escrevemos Português. Temos o certificado do 5º ano do Português. Andámos 10 anos na escola portuguesa, de manhã íamos para a escola inglesa e ao fim da tarde escola portuguesa. Aí aprendemos muita coisa, não era só o Português e a literatura, era a geografia e história de Portugal. Foi a coisa que mais gostei além da língua, foi a História de Portugal. E desde daí intriga-me muito e gosto de passar essa informação aos meus filhos porque a minha esposa não é portuguesa.

MG: Os seus filhos falam Português então?

FA: [hesita] muito limitado. Já se torna muito complicado, porque a língua principal que falamos em casa é Inglês. É conforme as gerações avançam, mas que têm um afecto e um imenso amor a Portugal, isso têm. Desde pequeninos que os levo lá, a mostrar e a contar histórias da História de Portugal e a ver que tornou-se num país completamente diferente da primeira vez que eu lá fui. A primeira vez que visitei, tinha eu sete anos, em 1972 e até 1980, o meu pai levava-nos lá rigorosamente todos os anos. Mas o país não era nem uma fracção do país que é hoje. Os meus filhos já tiveram a vantagem de ver um país completamente diferente, muito mais moderno e eles adoram lá ir. Acho que isso foi uma coisa que desde de pequeninos ganharam o gosto. Espero que Portugal faça parte do Futuro deles ou mesmo que seja só de visita.

MG: Há o elo quebrado das gerações. Os seus pais continuaram a falar e insistiram que os filhos falassem e lessem Português. Onde é que a segunda geração quebra o falar Português?

FA: Há muitos que não falam Português da minha geração. Ou de uma maneira só dizem algumas palavras. Eu acho que a estrutura, da Comunidade em si, dos anos 60 e 70, era uma Comunidade completamente diferente, os números eram diferentes. E havia muito mais união, sentíamos mais isolados porque eramos poucos e havia certas estruturas dentro da Comunidade, como escolas portuguesas, tínhamos clubes onde a parte onde íamos por sermos portugueses socializávamos entre todos. Havia aquele sentido de sentir-se português, conforme as gerações passaram eu acho que uma grande parte integraram-se porque a prioridade era mesmo essa. Tanto o sistema antigo como agora, as gerações estão muito mais integradas e fazem parte não são isoladas nem se sentem isolados por causa da língua. O Português passou a ser uma coisa secundária. E penso o que é interessante, quando há instabilidade política, há incerteza e de repente as novas gerações querem focar-se no Português. “Devia ter feito isto”, “devia ter estudado” e talvez seja necessário fazer-se algo nesse sentido, para responder a essa necessidade. De tal maneira que há cada vez mais pessoas à procura da cidadania e nacionalidade portuguesa. Vem por causa da incerteza. Muitos estão a aperceber-se que formamos uma pequena parte de uma minoria e que, devido à incerteza, mais querem ser portugueses. Penso que há um desejo ao “regresso às origens” mas que as estruturas comunitárias estão diferentes por várias razões. Houve líderes que não passaram testemunhos e não modernizaram. A melhor forma de dizer, ficaram com a mentalidade dos lugares de origem e meteram isso nas instituições locais, o que não era mau para começar, mas era necessária a modernização. A teimosia levou a muito danos na Comunidade, onde poderíamos ter hoje melhores estruturas.

MG: Acha que nunca coubemos bem? Apesar da presença portuguesa vir desde 1488, durante o “Apartheid” não éramos suficientemente brancos e agora não somos suficientemente aceites?

FA: Somos demasiado brancos para o regime actual. Há uma ressurgência para “encontrar” ou religar às raízes. Porque temos desafios enquanto Comunidade dentro do sistema do “Apartheid”, havia pessoas que foram beneficiadas do sistema. Mas em geral, era muito difícil para todos. Porque não falávamos a língua certa, Afrikaans, tínhamos segundo o Estado, a Cultura errada, religião errada e tinham nomes e termos muito pejorativos para connosco. Eramos muito insultados. Mas penso que aí mostramos a nossa resiliência e como eramos vistos em certos círculos, como lojistas e merceeiros, a sermos influenciadores de economia e contribuir significativamente para a economia sul-africana. Passámos a África do Sul há muitos séculos, mas nunca nos focámos nesta zona. Focámo-nos nas ilhas e na corrente de abastecimento das especiarias da India para a Europa, as rotas negreiras e no comercio da escravatura a África do Sul nunca foi prioritária para Portugal nesses sentidos. Estamos cá há muito tempo, mas só os emigrantes é que se radicaram cá. Uma das coisas em relação à nossa Comunidade e razões pelas quais perdeu-se o Português, acho que nos focamos muito nas nossas diferenças e não naquilo que nos une e é semelhante. Ainda hoje, tem-se pessoas a trabalhar arduamente para identificar diferenças de partes diferentes de Portugal, chega ao cúmulo de diferenciar freguesias ou regiões autónomas e promovem e focam-se nessas diferenças. Não se vê o global e essas diferenças são irrelevantes à Comunidade nos tempos que correm. Se tivéssemos desenvolvido mais escolas, mas desenvolveram mais o elemento social. De certa maneira digo que os primeiros emigrantes eram egoístas porque apenas cuidaram de certos interesses. Perderam os filhos que não entendem a língua nem se interessam pela Comunidade. Ela não teve muitos visionários e se teve alguns, foram abafados. Foram indivíduos e egos, aliados à teimosia que prejudicaram muito o Futuro da Comunidade. Agora vivemos com o que temos, há um ressurgimento às raízes, mas faz-se parte de um sector muito pequeno do que é ser-se parte da África do Sul e pode trazer conotações negativas quanto à cultura e cor de pele, que agora há uma vontade de pertencer a algo mais antigo e profundo.

MG: No que toca à Comunidade, os italianos possuem a Crawford Itália, os gregos a SAHETI. Porque é que acha que não temos uma escola?

FA: Eu teria que voltar ao que disse, nós não ultrapassámos as nossas diferenças que são triviais. O factor de unificação, os portugueses de origem madeirense – principalmente com a nova geração – têm uma visão muito diferente das coisas. A língua principal é o Inglês e, portanto, sendo portugueses havia uma conotação negativa atribuída a eles, conseguiram ultrapassar isso e hoje são influenciadores e incrementam e crescem negócios e empresas. Desenvolvem grandes comércios e negócios dentro da África do Sul e compreendem-se bem naquilo que tem que ser feito. Há grupos de pessoas muito boas e muito inteligentes, muito capazes e altamente motivadas que não estamos a unir nem a usar para o bem da Comunidade. São essas divisões que nos impedem de crescer. Apesar do dinheiro feito por muitos, essa fortuna trouxe egos insuflados e isso contribuiu para a destruição da Comunidade. Nunca houve um plano comunitário para se fazer uma escola em condições, por no centro de tudo, estamos segmentados e até se resolver isso não se faz nada. O denominador comum – exemplo melhor que posso dar – é aquilo que o Cristiano Ronaldo faz por Portugal. São relações publicas que não têm sido abundantes, não é preciso ser-se o Ronaldo nem estar naquele patamar, mas precisamos de muitos “Ronaldos” para impelir as coisas para a frente. Pessoalmente, gosto de ver os outros a atingirem sucessos, para muitos causa inveja. Devia-se promover o factores de união.

MG: Agora, as pessoas não se podem auto segregar na sociedade em que vivemos.

FA: Correcto. Não se pode separar porque isso é autoexclusão e somos postos de parte pela sociedade. “Ai não querem fazer parte? Então pronto!” Das poucas vezes que vou a um clube para um almoço, encontrar-me com um amigo, lembro-me do antigamente, de quando eu ia à União, havia o Sporting também, eram os dois clubes que havia onde eu cresci. Mas também vejo e penso o que é que fizemos com toda esta infraestrutura? Vendemos? Modernizámos? Fizemos algo para desenvolver as comunidades locais? Ainda queremos ser nós intrinsecamente, mas estamos localizados em zonas completamente diferentes do que no início, zonas degradadas. Ainda nos isolamos. Ou nos integramos totalmente e damos as coisas aos locais, aquilo que não é propriedade dos clubes como terrenos camarários e seguimos em frente. Ou fazer um plano, de construir uma escola, seja fazer um liceu.

MG: É demasiado tarde para se fazer uma escola?

FA: Nunca é tarde! Mas penso que como se faz tem de ser forma totalmente diferente. No sentido de que teria de se focar na língua e depois então trazer a Cultura. E tem que ser uma escola aberta a todos e não podemos esquecer-nos que Angola e Moçambique falam Português e portanto há um mercado enorme aqui na vizinhança. Para fazer uma escola, a razão sempre existiu e é mais relevante agora do que nunca. A nível do ensino superior houve sempre uma forte presença do Português. Há cada vez mais pessoas a falar e a procurar o Português. Há espaço para uma escola portuguesa primária e secundária aqui neste país. A meu ver tem que se começar de forma faseada.

MG: O clube italiano é um exemplo bom, porque em termos de infraestruturas tem tudo no mesmo local. Acha possível fazer-se isso dentro da nossa Comunidade?

FA: É uma questão de se fazer uma proposição e um plano de trabalhos.

MG: Qual é a sua visão de Futuro para a Comunidade?

FA: [questiona] dentro do contexto sul-africano? Penso que somos relevantes, acho que continuamos o nosso percurso em termos da economia e da relevância que temos. Vê-se o Gauteng, a influencia é muito forte e não nos vejo em estado de perigo. Temos desafios, mas se nos focarmos neles e perseverarmos, iremos e podemos tornar-nos ainda mais influentes. Pelo menos dentro de certas províncias da África do Sul. Não influenciamos muito os decisores, não fazemos lobby da melhor forma para o ganho da Comunidade. Temos que ter orgulho de quem somos, do que somos, da nossa herança cultural. Temos os nossos direitos e deveres sociais, não podemos fugir. Como em todo o lado – nos outros grupos étnicos – temos o bom e o mau. Não temos nada a temer nem do que ter vergonha. Pelo contrário, temos muito do que nos orgulhar. Porque é que estamos de pé atrás? É melhor tomar parte de uma decisão – seja pequena ou grande parte – do que não fazer parte de nada. Porque depois não se pode reclamar ou contribuir. As vozes têm que se fazer ouvir, a nível provincial e municipal. Fazemos parte desta sociedade, deste país, o que é que estamos a fazer enquanto Comunidade para positivamente influenciar? Temos um Futuro neste país tal como tivemos um Passado. Temos é que compreender muito bem como as coisas e as mudanças estão a ter lugar. Eu estive muito ligado à Comunidade desde tenra idade, desde a parte social dos clubes, depois fiz parte do Lusito, jovem e estive 18 anos no executivo da organização. Mudar a escola. Isso foi uma das coisas boas, tirar a escola de Judith’s Paarl para Regents Park. Foi muito bom na altura, mas aí agora não mudámos a tempo. Estão-se a tomar medidas para mudar – o que eu apoio totalmente – mas é a forma como se vai fazer. Fomos criticados pela mudança, mas sempre vimos como providenciar um serviço às crianças deficientes mentais de todas as raças, credos ou nacionalidades. Mas em relação à escola não existir – como têm os gregos e italianos – a culpa é inteiramente nossa. Nós queremos uma SAHETI agora, ela não demorou cinco ou seis anos a construir, foram algumas décadas. O modelo italiano é moderno e é bastante inteligente a parceria com o Crawford College. Requer muito esforço e dedicação e é uma empreitada delicada pelos tempos que se vivem.

MG: Sendo português, acha que nos faz sobressair no mercado de trabalho? Os valores familiares, ética de trabalho, dedicação?

FA: Duas coisas: foi-me dito que a primeira geração de emigrantes, portanto os filhos que já nasceram cá possuem um medo de falhar. Porque os pais emigraram para um país para encontrar um Futuro melhor e através do trabalho árduo, dedicação e coisas simples conseguiram algo. E dão-nos uma plataforma, uma base. Cabe-nos agora elevar ao próximo patamar. Os trabalhos todos são apreciados e são coisas simples que nos dão a força e vontade de atingir o sucesso. É o medo de falhar, que dá a perseverança extra. Se não se quer perseverar – o empurrão extra – que vem da base, do núcleo, da mãe resmungar e refilar porque quer o melhor para nós. Mas, só com o passar do tempo, percebemos isso. Não queremos, sob circunstância alguma, falhar. Falhamos sim, mas erguemo-nos e o falhanço dá-nos mais vontade de atingir o sucesso e superar a falhar. Também, aprendemos com o falhanço. A língua deu-me uma grande vantagem, durante o serviço militar, durante a minha carreira profissional e ajudou-me muito. Falo Inglês, Afrikaans e Português, ler e escrever todas três línguas. Fiz também dois anos de Francês na escola portuguesa, e isso ajudou-me nas minhas viagens de trabalho pela África francófona. Se se tem essas quatro línguas neste continente, é uma mais-valia para qualquer empresa ou organização. É riqueza que não se resume apenas a dinheiro.

MG: Porque é que se juntou à SAPCC e qual é a sua visão da câmara?

FA: Em termos da câmara, trabalhei com os fundadores da câmara no lançamento da AJEPP (Associação de Jovens Empresário e Profissionais Portugueses). Fez-se um excelente trabalho, mas depois na transição de 1994, pensou-se “somo o quê agora?” e entrámos na política e alguns membros da AJEPP entraram na política e tomou-se a percepção que a organização era política com agenda própria. Olhando para trás, devíamos ter mantido a organização e mantermos uma posição provincial teríamos conseguido e feito muito mais. Mas a energia e motivação deles, como do Manuel Moutinho – com tenho uma amizade há muito tempo – Tony de Gouveia e Rui Marto, um grande amigo meu, identificaram a necessidade e criou-se a câmara. Para promover de forma positiva o que de bom se faz na Comunidade portuguesa na África do Sul. Providenciar uma plataforma para as empresas luso-sul-africanas. Não há divisões em nada, é tudo com a mesma identidade e propósito. Tem-se feito um grande trabalho de promoção e agora começa-se a entrar em grupos de lobby e pressão para sermos ainda mais influenciadores. O nosso próximo desafio é como quantificar a influencia da Comunidade a nível provincial primeiro e depois a nível nacional.

MG: Voltando ao Fernando e ao seu percurso profissional. Começou na empresa do seu pai e depois?

FA: Deixei em 1988, por causa das diferentes formas de ver o Futuro, vi de forma de diferente e estava a restringir-me, queria ser a minha própria força-guia. Eu queria também queria fazer algo diferente do que o meu pai fazia de forma também a não competir com ele. Comecei a própria empresa com contactos meus e trabalho árduo.

MG: O que é o Anceriz Group?

FA: As duas empresas, a do meu pai Anceriz Engineering e a minha Anceriz Industries. A minha empresa focada noutros mercados, em África com estratégia daquilo que a procura queria dos meus conhecimentos. Fui trabalhar em África, o primeiro país foi o Mali, Gana, depois Mauritânia, Senegal, Burquina Faso e viajei muito. Fiz produtos para a indústria da perfuração. Sempre mantive interesse na empresa do meu pai e à medida que saiu, houve mais e mais falta de estratégia. Tem de se delegar tarefas e departamentos. Desenvolvi a minha empresa, em 2010 encetei negociações com a Driconeq, queriam criar uma empresa global e procuraram-me. Houve muitas sinergias e fiz a combinação da minha unidade industrial na África do Sul e no mercado de África que eu já possuía. Durante cinco anos, a unidade local cresceu cinco vezes em tamanho e volume. Tornou-se mais estruturado e empresarial, ao vir de sobrevivência e empreendedorismo, foi um desafio para mim e aprendi muito. A partir dos 20 anos de idade não tive patrões e queria muito isso. Mas cinco anos depois, depois comecei a contar as consequências do sucesso, nunca estava em casa sempre a viajar entre continentes, fusos horários e o foco não está na família ou amigos e perde-se isso. Cheguei a uma altura da Vida em que decidi parar e perseguir números. Tomei uma decisão de separar da Driconeq porque queria outro estilo de Vida. Foi a 30 de Junho de 2016, que chegámos a acordo.

MG: No presente, o que está a ocupar o seu tempo?

FA: No entretanto, não parei nem me quero reformar, mudei o foco e as prioridades, então comecei aquilo que foi o meu part-time. Comprei várias unidades industriais durante todo o tempo e agora faço isso, renovo e alugo propriedades e unidades industriais. Quero focar-me no desenvolvimento desses imóveis. Tenho estado a trabalhar num conceito de um projecto comercial. Um programa piloto que não tem nada a ver com metalomecânica, com indústria mineira e perfuração. Mas foi sempre que gostei de fazer. Se temos paixão por alguma coisa, é fácil ter sucesso.

MG:  Está cá desde que nasceu. Viu vários momentos neste país, como é que vê o Futuro da África do Sul?

FA: Haverá sempre uma posição para nós aqui. Haverá sempre tempo e espaço, desde que afinquemos o pé e temos a ganhar se fizermos por isso. Vejo cada vez mais desafios, os números, as exigências que me preocupam como a pobreza e desintegração social. Se não se crescer a economia para providenciar recursos, vai-se ter muitos problemas. E temos que ter orgulho da nossa bandeira, quer da Comunidade, quer de Portugal, quer da África do Sul. A África do Sul é demasiado grande para falhar, em África e no Mundo. O tamanho da economia, influencia no continente e a nível global é demasiado importante. Não importam as retóricas políticas, há sempre um pouco de bom-senso que prevalece. Acho que já tivemos o melhor e o pior da democracia. Houve um crescente, entre Mandela e Mbeki depois tivemos a era do Zuma deitou abaixo todas as instituições construídas por Thabo Mbeki. Tivemos o período de lua-de-mel com Mandela, crescimento com Mbeki e pesadelo com Jacob Zuma. Esperançosamente, politicamente, há pontos comuns. O que precisamos é de liderança forte e capaz. Temos alguma, com algumas limitações, para nós como Comunidade, precisamos dar a saber naquilo que somos bons e no que nos diferenciamos pela positiva, cultural, língua, herança ancestral. Temos orgulho disso e fazermos parte da mudança positiva. Temos de encontrar todos os “Ronaldos” lá fora na sociedade. As eleições deverão ser favoráveis em termos económicos.

MG: Que conselhos é que pode dar àqueles que começam agora a vida de trabalho?

FA: Encontrar mentores, podemos referir-nos a pessoas com visão aberta e compreensão do que é a África do Sul. Não ajuda encontrar um mentor que tenha tido sucesso, mas que não goste do país nem contribua positivamente para o crescimento da pessoa. Os jovens possuem tantos conhecimentos tecnológicos, que é imperativo dar-lhe uma plataforma para empregarem e aplicarem esses conhecimentos. Dar-lhes a dita “bandeira”, mas guia-los na direcção certa. Não devem esquecer as raízes culturais e se nós, a minha geração, fizer um bom trabalho, as próximas gerações irão beneficiar de uma forma especial. Não sintam vergonha de serem portugueses. Há factores diferenciadores, como o Português e há elementos comuns da todos os portugueses que nos ajudam ao sucesso. Adicionamos valor a qualquer sociedade onde nos integramos.

Fernando Anceriz é tipicamente português: estatura média, encorpado e de fácil trato. Com um sorriso aberto e um olhar vivo, fala apaixonadamente da sua activadade profissional passada, presente e futura. Dedica-se com corpo e alma a tudo o que faz, seja de forma de bem-fazer ou profissional. É orgulhosamente português e estima muito as raízes que possui e educação que recebeu dos pais. Valoriza em muito o facto de ser luso. Uma fonte de conhecimento e conselho valiosa, Fernando Anceriz deixou um contributo importante na África do Sul e na Comunidade portuguesa. Continua agora a contribuir e a oferecer conselhos para navegar água turbulentas. É sem sombra de dúvida uma referencia da marca deixada pelos portugueses neste país.