Felicidades António Guterres

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Felicidades António Guterres

O Século de Joanesburgo foi o jornal da diáspora portuguesa que maior cobertura noticiosa deu à candidatura do eng. António Guterres ao cargo de secretário-geral da ONU. A primeira notícia publicámo-la na nossa edição de 25 de Janeiro deste ano, quando a proposta do Governo português começou a ser esboçada e desde então acompanhámos sempre o processo, divulgando nomeadamente as declarações de apoio, os debates entre os vários candidatos ao lugar e os resultados das sucessivas votações indicativas realizadas a partir de 21 de Julho, todas elas ganhas por Guterres.

  Na quinta-feira, 6 de Outubro, dia que passou a ser histórico para Portugal, surgiu a grande notícia: o Conselho de Segurança das Nações Unidas escolheu por unanimidade e aclamação o antigo primeiro-ministro português e ex-alto comissário da ONU para os Refugiados,  António Manuel de Oliveira Guterres, para o desempenho das funções de secretário-geral da organização, cargo que assumirá no próximo dia 1 de Janeiro de 2017, por um período de cinco anos.

  Depois de ter vencido todas as seis votações indicativas – o que o torna como o primeiro candidato submetido ao mais alto grau de escrutínio e de transparência, factos que melhoram a imagem democrática das Nações Unidas – António Guterres será o 9.º secretário-geral da ONU nos 71 anos de existência do organismo fundado em 1945 e sucede ao sul-coreano Ban Ki-moon, notoriamente menos activo, por evidente cansaço, neste seu segundo mandato.

  Guterres conseguiu chegar onde nunca antes tinha chegado qualquer outro português e os que o escolheram viram nele, pela sua inteligência e longa experiência, além de competência e dedicação, a capacidade de obter consensos no domínio dos grandes problemas internacionais. Os problemas sociais dominaram sempre as suas preocupações e acredito que tenha seguido e usado a política, quando por ela envederou, para os tentar resolver. É um seguidor da doutrina social da Igreja, que procura os melhores caminhos para acudir aos mais vulneráveis e aliviar o sofrimento dos po-vos que são vítimas de conflitos.

  Vai desempenhar o mais alto cargo da ONU, onde estão ou por onde já passaram também outros portugueses. Mas Guterres conhece bem os cantos à casa. Ele esteve, entre Junho de 2005 e Dezembro de 2015, à frente do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Re-fugiados (ACNUR), uma organização com cerca de 10.000 funcionários em 125 países.

  Na história da ONU está Diogo Freitas do Amaral, que foi escolhido para presidir à 50.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, entre 1995 e 1996. Entre 2001 e 2002, Portugal foi representado pelo embaixador Seixas da Costa, eleito vice-presidente da Assembleia Geral, presidente da Comissão de Economia e Finanças e vice-presidente do Conselho Económico e Social (ECOSOC). Seixas da Costa foi também escolhido pelo secretário-geral Kofi Annan para membro da administração do fundo para as parcerias internacionais, designado por UNFIP.

  O actual embaixador de Portugal na ONU é Álvaro Mendonça e Moura.

  Desde 2013 que Miguel de Serpa Soares, antigo membro do Tribunal Permanente de Ar-bitragem, em Haia, é o subsecretário-geral da ONU para os Assuntos Jurídicos. Mais re-cente, a 23 de Junho, foi a eleição do procurador-geral adjunto José Manuel Santos Pais para o Comité dos Direitos Humanos, o primeiro português a ser escolhido para este órgão. Marta Santos Pais é outra portuguesa com funções de destaque na ONU: representante especial do secretário-geral para a Prevenção da Violência contra as Crianças. O intendente Luís Carrilho, da Polícia de Segurança Pública, é o comandante da polícia das Nações Unidas na República Centro-Africana.

  De salientar que o antigo presidente da República de Portugal, Jorge Sampaio, foi enviado especial do ex-secretário-geral Kofi Annan contra a tuberculose e alto-representante do actual, Ban Ki-moon, para a Aliança das Civilizações.

  O futuro secretário-geral da ONU, António Guterres, e eu estivémos, em anos diferentes, nas mesmas salas de aula, quando estudámos Engenharia no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Vim a conhecê-lo pessoalmente, mais tarde, no Funchal, quando ele, como primeiro-ministro, presidiu, ao lado de Alberto João Jardim, à cerimónia de encerramento de um Congresso dos Conselhos das Comunidades Madeirenses. Tivémos então a oportunidade de recordar alguns professores que nos tinham sido comuns, para depois, com toda a plateia, ouvirmos no anfiteatro um improviso brilhante sobre a diáspora portuguesa. É impressionante a facilidade com que Guterres domina qualquer tema. Disso já tinha dado prova nos debates parlamentares na Assembleia da República.

  Nesta campanha de candidatura de Guterres à ONU, temos que reconhecer a eficiência do trabalho desenvolvido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e pela sua equipa de diplomatas. E entre eles destaco o empenho do actual embaixador de Portugal nas Nações Unidas, Álvaro Mendonça e Moura, como protagonista de excepção deste êxito no campo diplomático.

  Mendonça e Moura foi conselheiro da Embaixada em Pretória e mais tarde encarregado de negócios na África do Sul durante largo tempo, depois da saída inesperada do embaixador José Manuel Villas Boas, em Junho de 1988.

  Tivémos um óptimo relacionamento institucional, ele como diplomata, com uma brilhante carreira que já se vislumbrava à sua frente, e eu como director do jornal e como membro do Conselho das Comunidades Portuguesas da África do Sul, que fui de 1981 a 1991. Em abordagem de assuntos correntes da comunidade, recordo-me que almoçámos um dia num dos mais antigos restaurantes de Pretória, instalado numa moradia histórica onde tinha sido assinado o tratado de paz que pôs fim à segunda guerra boer.

  No âmbito da sua campanha, António Guterres deslocou-se no passado dia 25 de Junho a Pretória, onde foi recebido por Jacob Zuma, Presidente da República da África do Sul, país que detem a presidência da União Africana, que tem um papel destacado nas iniciativas de paz no continente, país que é membro da SADCC e dos BRICS, e que defende a reforma do Conselho de Segurança da ONU, de forma a que este órgão passe a contar com dois assentos destinados a países africanos e que, por essa via, o continente fale com voz própria.

  Além de uma imperativa necessidade de reformas, especialmente no Conselho de Segurança, o principal centro de decisão da ONU, no qual cinco países têm a prerrogativa de veto, António Guterres tem pela frente problemas imediatos como as guerras no Iraque e na Síria, a crise dos refugiados ou a resposta global às alterações climáticas.

  Como portugueses e também como cidadãos do Mundo, amantes da paz e do progresso nesta casa que Deus nos deu, desejamos a António Guterres as maiores felicidades no desempenho da sua difícil função de secretário-geral da ONU.

R. VARELA AFONSO