Falecido em Bruxelas: José Pires Cutileiro foi embaixador de Portugal em Maputo e Pretória

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De família burguesa e raízes alentejanas, nascido em Pavia, distrito de Évora, a 20 de Novembro de 1934, cidade que deixou aos três anos de idade para acompanhar os seus pais que se radicaram em Lisboa, para depois disso, passar parte da sua adolescência em países como Suíça, Índia e Afeganistão, onde seu pai exerceu a actividade de médico ao serviço da Organização Mundial de Saúde.

  Voltando mais tarde a Lisboa, José Cutileiro termina os estudos secundários no Colégio Valsassina, passando em seguida a frequentar os cursos de Arquitectura e de Medicina na Escola Superior de Belas Artes, e depois disso a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

  Mais tarde decidiu viajar para o Reino Unido, onde viria a licenciar-se em Antropologia, na Universidade de Oxford, para no ano de 1968 completar o doutoramento nessa mesma disciplina, ingressando a seguir no St. Antony,s College, e mais tarde no London School of Economics of Economics and Political Science.

  Com a revolução de 25 de Abril de 1974, para ele testemunhado pela esposa como um dos dias mais felizes da sua vida, prova evidente da sua adversidade ao regime que se vivia, é a seguir nomeado conselheiro cultural da embaixada de Portugal em Londres, função que desempenhou de 1974 a 1977, tornando-se em seguida embaixador e representante de Portugal junto do Conselho da Europa, cargo que desempenhou até 1980.

  Passou em seguida pela embaixada de Portugal em Maputo – Moçambique, para a 16 de Agosto de 1983 ser agraciado com o grau da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, e no ano seguinte ser nomeado representante permanente de Portugal junto da Conferência de Desarmamento na Europa, em Estocolmo.

  Em 1987, com Aníbal Cavaco Silva como primeiro-ministro, José Cutileiro é chamado a Lisboa para assumir o cargo de director-geral dos Negócios Político-Económicos. Nessa altura foi negociada, com a sua participação, a adesão de Portugal à União Europeia Ocidental, chefiando também a delegação que negociou com os Estados Unidos os termos de utilização da Base Aérea das Lages, nos Açores.

  Foi depois disso, nomeado embaixador de Portugal, em Pretória, cargo que exerceu de Abril de 1989 a Julho de 1991, onde viria a ser recebido por Nelson Mandela, dezassete dias depois daquele que viria a ser o primeiro presidente sul-africano, pós apartheid, ser libertado da prisão. Em 1992 integrou a equipa de coordenação da Conferência de Paz para a Jugoslávia.

  Como ateu, alentejano de Évora e português que viveu em três continentes, um dos seus primeiros grandes contactos com o mundo em mu-dança acelerada, ocorreu quando foi incumbido em Pretória a testemunhar a libertação de Nel-son Mandela, e com ela o fim do apartheid, como caminhada para a normalização democrática num país que parecia condenado a um banho de sangue.

  Além da diplomacia, José Cutileiro era sobejamente conhecido pela sua actividade como cronista na imprensa escrita, sendo da sua autoria os dois livros de versos intitulados “A Monografia Antropológica” e “Ricos e Pobres Alentejanos”, daí ter sido distinguido em 2009 com o grande prémio de crónica pela Associação Portuguesa de Escritores e da Câmara Municipal de Sintra.

  Isto aconteceu depois de no ano anterior ter sido agraciado com o grau de Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, encontrando-se o seu nome na lista de colaboradores da publicação académica “Quadrante”, publicada pela Associação Acadé-mica da Faculdade de Direito de Lisboa.

  A exercer as funções de conselheiro especial do Ministério dos Negócios Estrangeiros para a Pre-sidência Portuguesa da Comunidade Europeia, e casado com a sueca Karin Gunilla, ao que consta coreógrafa de dança, de quem a certa altura se terá separado, e irmão do conhecido escultor João Cutileiro, este três anos mais novo, José Pires Cutileiro faleceu na madrugada de domingo de 17 de Maio, aos 85 anos, em Bruxelas, cidade onde residia nos últimos anos, e estava a ser tratado uma doença prolongada.

VICENTE DIAS