Faleceu Maria Barroso, a antiga primeira dama que colocou a família na precedência da política

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Faleceu Maria Barroso, a antiga primeira dama que colocou a família na precedência da política

O Presidente da República, Cavaco Silva, e o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, compareceram quarta-feira na missa de corpo presente de Maria Barroso, onde, além da família, estiveram muitas figuras do Partido Socialista e políticos de todos os quadrantes.

  O secretário-geral do PS, António Costa, e o anterior líder socialista António José Seguro marcaram presença na missa, na Igreja do Campo Grande, em Lisboa, que antecedeu o funeral da antiga primeira dama Maria Barroso, falecida na terça-feira, aos 90 anos.

  A presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, o candidato presidencial António Sampaio da Nóvoa, o ex-primeiro-ministro Pedro Santana Lopes, os ministros da Saúde, Agricultura e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Macedo, Assunção Crista e Rui Machete, respectivamente, o anterior secretário-geral do PCP Carlos Carvalhas, o ex-Presidente da República Ramalho Eanes, o ex-líder do PSD Fernando Nogueira, o antigo presidente do CDS-PP Freitas do Amaral e o líder parlamentar do Bloco de Esquerda Pedro Filipe Soares foram outras das figuras presentes.

  No adro da igreja concentraram-se centenas de populares, que aplaudiram quando a urna entrou na Igreja dos Santos Reis Magos, proveniente do Colégio Moderno, também no Campo Grande, onde o corpo esteve em câmara ardente. Por lá passaram, numa última homenagem, Almeida Santos, Guilherme d’Oliveira Martins, Carlos Monjardino, Jorge Sampaio, Adriano Moreira e Maria Cavaco Silva. Também estiveram presentes actores e actrizes, o secretário de Estado da Cultura, a presidente do Parlamento, a procuradora-geral da República e o presidente do Tribunal Constitucional.

  Depois da missa na Igreja do Campo Grande, freguesia da sua residência, o funeral seguiu para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. O cortejo fúnebre fez uma breve paragem junto à sede nacional do PS, no Largo do Rato.

 Maria de Jesus Barroso, mulher do antigo Presidente da República Mário Soares, era presidente da Fundação Pro Dignitate, foi fundadora do Partido Socialista, partido pelo qual foi deputada, e dirigiu a Cruz Vermelha Portuguesa. Apoiava causas humanitárias e tinha um grande sentido familiar.

  Maria Barroso casou com Mário Soares em 1949, de quem tem dois filhos, João e Isabel.

 Diplomou-se em Arte Dramática na escola de Teatro do Conservatório Nacional e licenciou-se depois em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conheceu Soares.

  Foi também actriz, tendo trabalhado nos teatros Nacional D. Maria II, Villaret e São Luiz, e dirigiu o Colégio Moderno, fundado pelo sogro, João Soares.

 Morreu na terça-feira pelas 05:20 horas, aos 90 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, onde se encontrava internada desde 26 de junho, na sequência de uma queda, que lhe provocou um traumatismo intracraniano, tendo ficado em coma profundo.

  Não foi permitida a recolha de quaisquer imagens no interior das instalações do Colégio Moderno durante o período em que o corpo de Maria de Jesus Simões Barroso Soares ali permaneceu em câmara ardente.

  Num documento enviado à comunicação social, os familiares mostraram reconhecimento pelas manifestações de solidariedade que estavam a receber e agradeciam a dedicação da equipa médica do Hospital da Cruz Vermelha pela “disponibilidade e profissionalismo” com que trataram Maria Barroso desde que dera entrada naquela unidade.

  A família agradeceu ainda à comunicação social “a compreensão que tem revelado” ao longo dos últimos dias e pedia respeito pela dor que estava a passar.

 

* PERFIL de Maria Barroso

 

  Maria Barroso, que morreu a semana passada aos 90 anos, destacou-se como actriz, declamadora e activista política e ao longo de 66 anos acompanhou a vida do líder socialista e antigo Presidente da República Mário Soares.

Maria Barroso casou em 1949 com Mário Soares, de quem tem dois filhos, João e Isabel, e foi uma das fundadoras do Partido Socialista (PS), na Alemanha, em 1973.

  Maria de Jesus Barroso Soares, nascida a 2 de maio de 1925, na Fuseta, Olhão, formou-se em Arte Dramática no Conservatório Nacional, em 1943, e licenciou-se em História e Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conheceu aquele que seria o seu marido. Viriam a casar-se quando o fundador do PS se encontrava preso por motivos políticos.

  Maria Barroso estreou-se como actriz no Teatro Nacional, em 1944, na Companhia Amélia Rei Colaço/Robles Monteiro e na peça "Aparências", dirigida por Palmira Bastos, tendo o papel na peça de José Régio "Benilde" sido considerada uma das suas interpretações mais memoráveis.

  Destacam-se ainda participações no cinema, em vários filmes como "Mudar de vida", de Paulo Rocha, ou "Le soulier de Satin", de Manoel de Oliveira.

  Foi professora no Colégio Moderno, fundado pelo sogro, João Lopes Soares, mas chegou a ser proibida de ensinar durante o Estado Novo.

  Em 1969, candidatou-se a deputada pela Oposição Democrática, tendo sido a única mulher a intervir na sessão de abertura do III Congresso daquela organização, em 1973, em Aveiro.

  No mesmo ano, participou, na Alemanha, na reunião fundadora do Partido Socialista. Na altura, votou contra a ideia de fundação do PS, o que muito aborreceu Mário Soares.

  "Julgávamos que não era bem a altura de formar o PS, devíamos esperar um bocadinho antes de tomar a decisão. Estávamos errados e Mário Soares estava certo, a História provou-o", disse a própria numa recente entrevista ao jornal i a propósito do seu 90.º aniversário, a 2 de maio de 2015.

   Depois do 25 de Abril de 1974, foi por várias vezes eleita deputada à Assembleia da República, pelos círculos de Santarém, Porto e Faro.

  Em 1986, assumiu o papel de mulher do Presidente da República, quando Mário Soares foi eleito para um primeiro mandato.

  Durante uma década no Palácio de Belém dedicou-se à defesa de causas como o apoio aos países de língua portuguesa, a prevenção da violência, a luta contra o racismo e a exclusão social.

  Depois de Mário Soares ter deixado a Presidência da República, em 1997, Maria Barroso presidiu à Cruz Vermelha Portuguesa, cargo que ocupou até 2003.

  Foi fundadora e era presidente da Organização Não Governamental (ONG) Pro Dignitate – Fundação de Direitos Humanos, desde 1994, e da Fundação Aristides de Sousa Mendes.

  Numa entrevista ao jornal i, Maria Barroso confessou que apesar de todas as "contrariedades, de todos os revezes e de todas as encruzilhadas, valeu a pena ter vivido". "Sinto que estou quase a partir, que se aproxima o momento", acrescentou então.

  Sobre a sua relação com Mário Soares – depois de contar um episódio em que cedeu à vontade dele e não se inscreveu no curso de Direito – afirmou: "Tive sempre a ideia de não fazer nada que o enervasse e o contrariasse, por isso estamos casados há 66 anos. Temos uma relação excelente, que é fruto dessa compreensão".

  Admitiu que não fazer o curso de Direito foi um dos sonhos que deixou para trás por causa do marido.

  "Fora isso, quis acompanhá-lo sempre, mesmo nos momentos mais difíceis", acrescentou.

   Católica desde a infância, admitiu ter-se afastado da religião durante os tempos de Faculdade, uma reaproximação que só voltou a acontecer quando o filho João Soares sofreu um acidente de aviação no sul de Angola.

  "Todas as manhãs chegávamos ao hospital em Pretória e eu perguntava por ele ao médico que chefiava a equipa. Um dia, ele respondeu-me que “estava um bocadinho melhor, mas só um bocadinho, porque continuava muito mal. Peça a Deus. Pedi a Deus. Mas, antes disso, pedira a uma funcionária do colégio, muito minha amiga, para encomendar uma missa pelo João. Senti-me bem nesse novo encontro com a religião", relatou.

   Questionada pelo jornalista sobre como gostaria de ser recordada respondeu: “Uma cidadã modesta, mas amante da liberdade, da solidariedade e do amor. A minha palavra preferida, sem qualquer dúvida (…) o amor!".

  Sobre os momentos difíceis que Maria Barroso viveu em Pretória, durante o internamento hospitar do seu filho João, e o seu reencontro com a fé em Deus, O Século de Joanesburgo reproduz nas páginas seguintes desta edição a entrevista que a antiga primeira dama concedeu há 26 anos, em Dezembro de 1989, em exclusivo ao nosso jornal, publicada com o título: “Nos momentos mais dolorosos invoquei Deus pedindo-lhe socorro e não estou arrependida de o ter feito”.

  De recordar que, por esses dias, a dra. Maria Barroso telefonou ao Padre Miguel de Lemos, da Igreja de Santo António dos Portugueses, em Mayfair, Joanesburgo, a solicitar a celebração de uma missa de acção de graças pelas melhoras do seu filho João.