“Enquanto não forem julgados os assassinos de Sá Carneiro, não há nada para celebrar”, conta português que viveu em Luanda o 25 de Abril de 1974

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O português José Luís da Silva, 75 anos, vivia em Luanda em 25 de Abril de 1974 quando, em Portugal, estava em curso a “Revolução dos Cravos”, um golpe de Estado liderado por um grupo de oficiais militares esquerdistas que teve como motivo essencial a resolução da questão colonial portuguesa.

Em entrevista ao Século Online, José Luís da Silva conta ter testemunhado um “verdadeiro descalabro” e violações de direitos humanos, na capital angolana, “instigados” por oficiais militares portugueses num processo de descolonização, que em Angola foi o mais longo dos iniciados nas colónias portuguesas, devido às riquezas e potencialidades económicas do país.

Neste testemunho, após 46 anos, José Luís da Silva, recorda que a descolonização portuguesa concedeu o controlo dos territórios às forças que mais se identificavam com o poder de Lisboa, a esquerda revolucionária, sem se salvaguardar o bem estar das populações, sendo por isso altura de as novas gerações saberem “toda a verdade” sobre os interesses que se moveram em torno deste processo.

As “teses” descolonizadoras movidas pelo MFA (Movimento das Forças Armadas), a organização que os oficiais militares portugueses da Escala Activa, oriundos da Academia Militar, criaram durante a guerra colonial para contestar o regime, nomeadamente na questão das antiguidades que consideravam ser um grave prejuízo para a carreira dos militares profissionais, abriu um período confuso e conflituoso que, segundo José Luís da Silva, atirou para a miséria milhares de famílias portuguesas com casas e negócios construídos durante várias vidas no Ultramar.

E adianta: “Enquanto não forem levados à Justiça os assassinos de Francisco de Sá Carneiro [ex-primeiro ministro no mandato presidencial do general António Ramalho Eanes], e prestada homenagem às mães de Portugal, não há nada para celebrar”.

O Século Online – O que significa para si esta data que, em Portugal passou a ser conhecida pela causa da Liberdade?

José Luís da Silva – Se foi pela causa da liberdade ou não foi, isso ainda deixa muitas interrogações por aquilo que se pode contemplar hoje. A Liberdade não é só a mudança do regime, a liberdade é quando todos têm pão em cima da mesa, quando todos têm voz, quando todos podem falar e serem ouvidos.

O Século Online – Onde estava em 25 de Abril de 1974?

José Luís da Silva – Vivia em Luanda, nessa altura.

O Século Online – E como é que recebeu a notícia da revolução em Portugal?

José Luís da Silva – Com alguma apreensão logo de início, porque uma revolução naquela altura só poderia ser uma revolução de inspiração comunista e foi exactamente o atrevimento comunista que levou a Revolução dos Cravos para a frente. Ninguém tenha dúvidas a esse respeito. Portanto, foi como muita apreensão e depois, é claro, os distúrbios que se começaram a contemplar na cidade de Luanda e para o interior [do país], devido a essa revolução, mas também muito instigados por oficiais do Exército Português.

O Século Online – Considera que Portugal foi “vítima de uma traição”, como considerou o General António de Spínola, em 1978, no livro ‘País Sem Rumo’ sobre o processo revolucionário no período que decorreu entre o 28 de Setembro e o 11 de Março e na fase anarco-populista que se seguiu e culminou no verão quente de 1975?

José Luís da Silva – Eu penso que isto tem de ser visto de outra maneira. Por exemplo, eu não celebro o 25 de Abril por uma razão muito simples: é motivo para não celebrar enquanto não forem levados à Justiça, por exemplo, os assassinos de Sá Carneiro, não celebrarei enquanto não for prestada uma homenagem às mães de Portugal, mais precisamente aquelas que perderam os seu filhos que de uma forma heróica e valente morreram a lutar pelo seu país, pela sua pátria. Isto foi um golpe de Estado que, na minha óptica, das conversas que tive com oficiais do exército já depois do 25 de Abril, foi um golpe de Estado realizado por militares que não eram nada dignos da farda que envergavam, mais precisamente por um grupo cujas promessas seriam todas mutiladas deixando um rasto de desilusão e até de miséria. Foi um golpe impulsionado pelas invejas de oficiais do quadro permanente do Exército que discordavam das promoções e das antiguidades relativamente aos oficiais milicianos que também contribuíram muito para essa revolução devido ao descontentamento desses oficiais. E claro, foi um golpe ou uma golpada, surgida sobretudo de pressões exercidas por interesses ocidentais muito bem camuflados, foi uma luta promovida por desertores muito bem acomodados no exílio, muito empenhados em que Portugal ultrapassasse o problema colonial para depois se proceder à entrega, de forma inglória, traiçoeira e repugnante daquilo que foi chamado o Ultramar português e enquanto não entregavam sem saber o que entregavam aos amigalhaços, os amigos das segundas pátrias, sem saber o que recebiam, atraiçoaram as suas gentes de Angola, Moçambique, da Guiné e Portugal. Foi uma traição transversal a estes países todos porque a maneira como se fez a descolonização, na minha opinião, não protegeu nem os de lá e nem os de cá, foi realmente um verdadeiro descalabro que deveria ser investigado muito bem por pessoas que queiram saber a verdade. Não é só falar de um lado da história, que foram os capitães de Abril que fizeram isto e aquilo e aquele outro…, mas o que é que está por detrás disto tudo? Que interesses é que motivaram esta revolução toda?. E porque é que não foram salvaguardados os interesses dos povos de Angola e de Moçambique, refiro-me aos nativos, aos nascidos nesses países? E é preciso ver que nascidos em Angola e Moçambique eram portugueses de cor branca.

O Século Online – Como foi a fase do “descalabro” em Angola?

José Luís da Silva – Todos nós sabemos que a situação se foi agravando e acabou por descambar numa autêntica guerra civil e mesmo até andar-se nas ruas de Luanda foi problemático, eram os assaltos, o lixo, as doenças, a cólera porque havia já uma desorganização “organizada”, já não se sabia quem era quem, o que fazer, e tudo era racista, tudo era colonialista, que era a única coisa que sabiam dizer, e vi gente que não devia ter feito o que fez, a instigarem pessoas negras a insultarem os brancos, foi isto que vi junto à messe dos oficiais da Força Área, em Luanda. E vi também, na messe de sargentos, na avenida dos Combatentes em Luanda, e vi muito bem, em cima de motas com pessoas negras como passageiros, a dizer o que é que eles deveriam dizer, a insultar os brancos e os militares, e eu fui uma dessas pessoas que foi insultada.

O Século Online – Isso aconteceu em 25 Abril de 1974?

José Luís da Silva – Isto foi logo a seguir à revolução de 1974, logo a seguir uns dias depois.

O Século Online – Em Angola, porque é que os oficiais Rosa Coutinho e Pezarat Correia entregaram aquele território ao MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola] colocando as estruturas civis e militares ao serviço daquele movimento africano, como escreveu o General Spínola?

José Luís da Silva – O almirante vermelho, Rosa Coutinho – sabíamos muito bem as intenções dele até pelos laços familiares porque era casado com uma irmã do professor Agostinho Neto, fez todo o possível para entregar tudo ao MPLA. E quando foram para falar com ele, pessoas de Angola, nascidas em Angola, que se aproximaram do Palácio, o Sr. Almirante Rosa Coutinho saiu a correr pelas traseiras do Palácio, foi lá para os lados do Poço do Bispo e só depois é que alguém do Exército que sabia onde estava ou estavam com ele, é que o trouxeram de volta ao Palácio. Até nisso não quis enfrentar as pessoas.

O Século Online – Quer isso dizer que o golpe militar dos capitães de Abril não foi uma forma de justificar a derrota militar nas ex-colónias, como é contada?

José Luís da Silva – Mas não houve nenhuma derrota militar que eu saiba. Não houve nenhuma derrota por várias razões. Para já, militarmente não fomos derrotados, o exército português não foi derrotado no Ultramar. Tenham a santa paciência, quem disser isso, mente descaradamente. O que aconteceu, soube-se mais tarde, porque se tivesse sido naquela ocasião as coisas talvez tivessem sido feitas de outra maneira, os generais estavam a ganhar tempo com a guerra para se encontrar um solução, não sei até que ponto é que isso corresponde à verdade, mas que nós não perdemos essa guerra, não perdemos. Acabamos por perdê-la porque a retaguarda nos atraiçoou.

O Século Online – O General Spínola escreveu, em 1978, também no livro ‘País Sem Rumo’, que em Moçambique, com a complacência do Alto-Comissário Victor Crespo, desenvolveu-se uma campanha de intimidação imediatamente seguida por uma onda de perseguições, de que resultaram a chacina e a fuga desordenada de milhares de portugueses. Isso também aconteceu em Angola?

José Luís da Silva – Sim, com certeza. Até porque se pode avaliar pelas fotografias e pela documentação que ainda hoje existe, a corrida para o porto de Luanda, os aviões da TAP, toda a gente que se tentou proteger, porque muita gente, incluindo europeus, não foram só os naturais de Angola, brancos, que se puseram contra europeus e eram instigados por pessoas do foro militar.

O Século Online – Qual foi o episódio que mais o chocou?

José Luís da Silva – Foi ver pessoas que trabalharam uma vida toda, que criaram os seus negócios, tinham muitos empregados, e de um momento para o outro ficaram sem nada, muitas dessas pessoas tinham fazendas, tinham os seus bens, tinham companhias, tinham fábricas, não eram nascidos em Portugal, nasceram em Angola, outros nasceram em Moçambique e na Guiné. E há uma coisa que também é vergonhosa que é os “retornados”. Para se “retornar” é preciso voltar ao lugar de onde se partiu, mas muitos não se podem chamar “retornados”, eles são “refugiados” porque tiveram que sair de Angola ou de Moçambique. Muitas dessas pessoas nunca estiveram em Portugal tão pouco. Há aqui um desfasamento da verdade. A história está a ser completamente deturpada e sabemos porquê, porque não é conveniente toda a verdade e há uma geração dos últimos 40 anos que nunca ninguém lhes contou a verdade e portanto está a ser enganada constantemente, mas um dia esta geração vai acordar e vai pedir contas a quem os andou a enganar este tempo todo.

O Século Online – Porque é que os ideais: “25 de Abril – a Democracia e Liberdade assente nos Direitos do Homem”, não se aplicaram também aos portugueses que residiam no Ultramar?

José Luís da Silva – É uma pergunta que se deve fazer aqueles que se dizem patriotas que, por exemplo, usavam os microfones da Rádio Argel onde através do programa “A Voz da Liberdade” atraiçoavam os homens e mulheres que se batiam nas linhas da frente em teatros de operações diferentes. Hoje são comendadores e estão na Assembleia da República. Esses é que saberão exactamente e devem ter uma resposta para isso. Agora, o que é certo é que os portugueses do Ultramar, os que nasceram no Ultramar e aqueles que lá se encontravam, porque a maioria não era para regressar, e isso nunca foi acautelado, antes pelo contrário, e como se podia realmente falar em Direitos Humanos com pessoas, já integradas no Governo a negociarem a independência das colónias, que diziam como um dos nossos comissários que representava o primeiro ministro português da altura, disse: “Se eles fizerem muitos problemas, atirem-nos ao mar”?

O Século Online – Nesse contexto, o que significou a Revolução dos Cravos para esses milhares de portugueses nas ex-colónias?

José Luís da Silva – Para muitos, ainda hoje, psicologicamente, no mínimo, sofreram essas agruras da descolonização, uma descolonização horrorosa, em que os interesses das pessoas não foram tomados em consideração, nem sequer se interessaram em zelar pelos interesses dos angolanos, moçambicanos, guinienses e nem dos portugueses que viviam nas ex-colónias nessa altura, nada disso foi salvaguardado. O que era preciso era entregar o mais rapidamente possível e foi isso que aconteceu. Toda a gente queria que se ultrapassasse o problema colonial mas eles lá tinham a sua agenda e o resultado é este que nós vemos hoje e que temos nas ex-colónias.

O Século Online – E hoje, 46 anos passados, que consequências do gole militar dos cravos podemos constatar para os milhares de portugueses do Ultramar?

José Luís da Silva – Nada de muito positivo a avaliar pelos dias mais próximos da revolução do 25 de de Abril, onde houve depois casos gritantes de pobreza e miséria de pessoas com as suas casas construídas em Angola e Moçambique, e que tiveram que ir dormir para as ruas de Lisboa. Isto foi degradante, e volto a referir: não foram tidos em conta os interesses dos portugueses e falo de portugueses brancos e negros, hoje há portugueses que são angolanos ou moçambicanos pela via de um decreto, mas estou a falar de portugueses que, enfim, porque aquilo era Portugal e porque nasceram sob a bandeira portuguesa.

O Século Online – Tendo em conta esse contexto, porque é que a data é celebrada tanto pelas formações políticas de esquerda como de direita em Portugal?

José Luís da Silva – Porque há muitas pessoas que não sentem o 25 de Abril da mesma maneira. Como disse, enquanto não se disserem as verdades, porque nem tudo foi mau no tempo da outra senhora, enquanto não for investigado, enquanto não se apurarem responsabilidades sobre o assassinato de [Francisco] de Sá Carneiro, não há nada para celebrar.

 

 

Entrevista de Carlos Henriques [carlos@oseculo.co.za]