Enfermeiros a emigrar aumentaram

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Enfermeiros

O número de enfermeiros que pediu autorização para trabalhar no estrangeiro aumentou quase quatro vezes nos últimos três anos, ultrapassando os 2.300 profissionais, muitos dos quais com “largos anos de experiência”, alertou o bastonário da Ordem.

 Nos primeiros 10 meses do ano, 2.303 profissionais pediram à Ordem do Enfermeiros (OE) a “Declaração das Directivas Comunitárias” para trabalhar no estrangeiro.

 Em 2009, o número de pedidos situou-se nos 609, tendo subido para 1.030 em 2010 e para 1.724 em 2011, refere a Ordem, adiantando que, desde o início do ano, se regista uma média de 11 declarações por dia.

 Em declarações à Lusa, o bastonário disse ver com “muita preocupação” esta va-ga de emigração e já transmitiu esta posição aos ministros da Saúde e da Educação e Ciência.

 Esta preocupação deve-se ao facto de o país ter “necessidade de cuidados de enfermagem, que não estão a ser prestados aos cidadãos”, disse Germano Couto.

 “Há imensas horas de cuidados de enfermagem que os cidadãos não estão a receber. Apenas estão a receber o que é emergente e necessário naquele momento e não o que é necessário em termos de promoção de saúde e prevenção da doença”, sublinhou.

 Também está a mudar o perfil de quem emigra: “Até há bem pouco tempo, eram os jovens recém-licenciados que emigravam, mas agora estamos a deparar-nos com uma realidade diferente”.

 Actualmente, também “enfermeiros com largos anos de experiência, muitos deles já especialistas de enfermagem, estão a procurar novos rumos”.

 “Isso preocupa-me porque os especialistas não são aproveitados em Portugal”, sublinhou.

 Germano Couto adiantou que há enfermeiros especialistas que continuam a exercer cuidados gerais porque as instituições consideram que não são uma mais-valia e não lhes pagam como especialistas.

 Estes profissionais sentem “necessidade de emigrar por-que há países que lhes pa-gam quatro ou cinco vezes mais do que em Portugal”.

 “Portugal não tem uma estratégia, não tem um rumo em termos de recursos humanos na saúde. Ou o Ministério da Saúde acorda de uma vez por todas para esta realidade ou nós, daqui a 10, 15 anos não temos quem cuide de nós”, alertou.

 Para Germano Couto, a tendência é substituir, muitas vezes, mão-de-obra qualificada por “técnicos que não têm qualificação”.

 Deu como “exemplo caricato” a tentativa do Ministério da Saúde de “substituir enfermeiros altamente qualificados em emergência pré-hospitalar por técnicos sem qualquer formação”.

 “Qualquer dia, temos um enfarte do miocárdio na rua e quem nos socorre são pessoas com o nono ano, que fizeram o curso de seis meses de formação de emergência pré-hospitalar e que vão decidir e diagnosticar o que fazer. Isto é completamente irreal, este país não existe”, desabafou.

 Estes técnicos são fundamentais, no âmbito do “seu papel e enquadramento”, mas não estão habilitados para prestar cuidados sem serem supervisionados por um enfermeiro ou um médico.

 Por outro lado, sublinhou, o país está a investir erário público e privado na formação destes profissionais qualificados ao longo de quatro anos e depois deixa-os emigrar para outros países que, sem qualquer investimento da sua formação, estão a usufruir das suas qualificações.

 “Consideramos que isto é paradoxal, um desperdício do dinheiro público, quando Portugal tem necessidades emergentes de cuidados de enfermagem”, disse.

 

* Enfermeiros do Politécnico da Guarda procuram emprego no estrangeiro por  falta de saídas profissionais

 

 Os enfermeiros licenciados na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico da Guarda (IPG) estão a emigrar por não terem alternativas profissionais no país, disse o presidente da instituição.

 “Temos conhecimento, em particular na área da enfermagem, de alguns diplomados que, não conseguindo encontrar emprego em Portugal, estão a emigrar”, declarou Constantino Rei, presidente do IPG.

 O responsável não tem “neste momento” informação que lhe permita dizer “se há uma emigração significativa” noutras áreas de formação, embora reconheça que “a crise atravessa todos os setores” e que “todos os diplomados pelo IPG enfrentam dificuldades em ingressar no mercado de trabalho”.

 Perante a actual situação económica nacional e mundial, mesmo os cursos que ti-nham “elevada empregabilidade”, como os de engenharia civil e topográfica, “estão em forte crise”, indicou.

 O Politécnico da Guarda tem as escolas superiores de Gestão e Tecnologia; de Educação, Comunicação e Desporto; de Saúde; e de Hotelaria e Turismo (que funciona em Seia).

 Para ajudar os alunos diplomados no acesso ao mercado de trabalho, o IPG tem a funcionar, há vários anos, um Gabinete de Estágios e Saídas Profissionais.

 Segundo o dirigente, o gabinete atua junto dos alunos e das empresas na captação de estágios curriculares e na oferta de empregos.

 “Fazemos a ligação entre as empresas e os nossos alunos, disponibilizando e pesquisando ofertas de emprego e encaminhando currículos de alu-nos para empresas, para recrutadores e para bases de dados”, contou Constantino Rei.

 O IPG também aposta no empreendedorismo, salientando o responsável que praticamente todos os cursos têm “disciplinas que visam sensibilizar e formar os alunos na temática do empreendedorismo”.

 Aquele estabelecimento de ensino superior também participa no concurso de empreendedorismo de âmbito nacional denominado Poliempreende e disponibiliza espaços aos finalistas para funcionamento de micro empresas.