Emigrante tem colecção de quatro mil objectos da Grande Guerra

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Emigrante tem colecção de quatro mil objectos da Grande Guerra

Entre armas, uniformes, capacetes, cartucheiras e cartas de amor, são cerca de quatro mil os objectos da Primeira Guerra Mundial que Álvaro Simões Rodrigues juntou “em homenagem ao avô e a todos os soldados” que participaram na Grande Guerra.

 O avô, o pescador de bacalhau Álvaro Rodrigues, foi feito prisioneiro pelos alemães em 1917, mas viria a integrar o Corpo Expedicionário Português como soldado auxiliar.

 “O barco de pesca de bacalhau onde ele estava chamava-se Loanda e foi fundeado em 1917 por um submarino alemão ao largo da costa portuguesa", contou o neto, nas vésperas do centenário da chegada à Flandres, a 2 de Fevereiro de 1917, dos pri-meiros soldados do contingente que Portugal enviou para combater em França na I Guerra Mundial.

 "Foi feito prisioneiro e fugiu do barco alemão a nado porque, como era pescador de bacalhau e levava muito ba-calhau para a Noruega, conhecia muito bem a costa francesa. Quando passou ao largo de Dunquerque mandou-se à água, à noite. Foi apanhado pelas tropas inglesas que o levaram para as tropas portuguesas”.

 O avô participou na Batalha de La Lys, a 9 de Abril de 1918, tendo ficado ferido nas pernas por uma granada e sido repatriado em fevereiro de 1919 para Portugal, sem nunca ter recebido um apoio para veteranos de guerra.

 A ferida acompanhou-o toda a vida e em 1965 foi amputado de ambas as pernas, acabando por morrer a 31 de De-zembro de 1965, sem que o neto se pudesse despedir por ter fugido da ditadura para França, em 1964.

 “Fiz a minha coleção pelo meu avô, um homem de quem eu gostava muito, que era muito especial. O meu museu é uma homenagem ao meu avô e a todos os combatentes que se bateram nesta guerra, seja soldado alemão, inglês, francês ou português porque todos tinham mãe, pai, mulher, filhos e morreram todos por culpa de alguns políticos”, lançou.

 O interesse pela história do avô nas trincheiras francesas nasceu em 1963, na “última vez” que esteve com ele, aos 17 anos, quando o avô lhe contou a história que até aí tinha guardado em silêncio.

 “Fui com ele ao monumento aos mortos da Grande Guerra a Lisboa e foi aí que ele me falou da guerra dele, porque nunca falava disso. Para ele, aquilo era um passado. Nunca me tinha falado da guerra dele. Ele tinha uma lembrança alemã na gaveta: um revólver alemão. Quando ele morreu, eu estava cá em França e não pude ir a Portugal para recuperar a arma, mas, em França, consegui arranjar uma igual e gravei o nome do meu avô”, contou.

 A arma com o nome do avô foi a primeira da colecção do neto e hoje a sua casa, em Châteauneuf-sur-Cher, a cerca de 250 km de Paris, transformou-se num “museu” onde Álvaro Simões Rodrigues quer expor o espólio no centenário da Batalha de La Lys, a 9 de Abril de 2018.

 “Tenho um museu com mais de quatro mil peças, 170 metros quadrados e o espaço não chega. Acho que aqui em França, mesmo na Europa, sou um dos maiores coleccionadores sobre o material português. Tenho peças de todas as tropas que se bateram na frente. Tenho, desde o pincel da barba, à metralhadora e de material português tenho armas, roupas, selas de cavalaria, capacetes”, descreveu.

 Este ano, Álvaro pretende criar uma petição para angariar fundos junto dos portugueses que vivem em França para reparar as lápides do cemitério de Richebourg-L’Avoué, um cemitério militar português da Primeira Guerra Mundial, 230 quilómetros a norte de Paris, onde foram enterrados 1.831 soldados lusos, incluindo três familiares seus, nomeadamente António Gonçalves Curado, o primeiro soldado do Corpo Expedicionário Português morto em combate a 4 de Abril de 1917.

 “O meu avô disse-me que tinha pessoas da família enterradas cá. Havia o Brigas Alfredo que esteve na Infantaria número 12, soldado número 18.424; o Manuel Rodrigues Carola, soldado 16.626 da Infantaria 9 e o António Gonçalves Curado, soldado da Infantaria, que foi transladado para Portugal”, descreveu.

 No ano passado, a 11 de Junho, aquando da visita ao cemitério português pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e pelo primeiro-ministro, António Costa, Álvaro Rodrigues chamou o chefe de Governo e foi mostrar-lhe o estado das lápides de granito, muitas delas apagadas, pedindo-lhe para intervir na reparação.

 De galochas calçadas, visto que o cemitério estava ligeiramente alagado, António Costa seguiu o português pelas filas de lápides e ouviu-o atentamente, afirmando “sim, sim”, em sinal de compreensão do pedido, mas sem avançar se ia ou não tratar do assunto.