Emigrante há 50 anos destaca sentimento de pertença dos portugueses nos Estados Unidos

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Ana Isabel emigrou para Moçambique e foi refugiada na África do Sul-

  A dirigente associativa Ana Isabel emigrou para Moçambique e foi refugiada na África do Sul, mas foram precisos vários anos e envolvimento com a comunidade portuguesa nos Estados Unidos para ter o sentimento de pertença e identidade.

  Passados mais de 40 anos na América, a portuguesa continua a manter laços fortes na comunidade e é presidente da organização Rhode Island Day of Portugal, que promove eventos para celebração da herança lusa, como um torneio de golfe que angariou quase 10 mil dólares (cerca de 8.150 euros) em Outubro.

  Quando Ana Isabel dos Reis-Couto, saída de Portugal desde os cinco anos de idade, chegou aos Estados Unidos com os pais e irmãos, o processo de adaptação demorou, mas os clubes portugueses, rancho folclórico e associações permitiram-lhe explorar a identidade e cultura portuguesa.

  “Envolvi-me na comunidade portuguesa e para mim foi uma ligação onde [senti] ah, agora, eu aqui pertenço”, disse à agência Lusa.

  O acompanhamento de outros emigrantes foi vital para a integração na sociedade americana, que mantinha estigmas contra outras nações: “Senti que todos nós estávamos a passar mais ou menos a mesma coisa”.

  A portuguesa, nascida em Forno Telheiro, no concelho de Celorico da Beira, Guarda, explicou: “Quando conto a história, há muita gente que não compreende e diz ‘ó, acho que estás a dizer uma lenda’. Não eu lembro-me perfeitamente de tudo, tudo, tudo”.

  O pai era militar em África, numa altura em que as colónias portuguesas “estavam a progredir e a desenvolver-se” e Moçambique era vista como a terra mais promissora pela família, já que na aldeia “não havia muito dinheiro e ainda havia aquelas coisas antigas da PIDE”, disse Ana Isabel.

  Também era um momento em que as viagens para África eram feitas de barco e duravam cerca de uma semana e meia até Moçambique.

  Ana Isabel, que tinha cinco anos na altura, lembrou à Lusa, entre risos, que a viagem de barco para Moçambique “foi um bocadinho difícil, porque não se podia ir para nenhum lado”.

  “Eu até fugi à minha mãe, andaram à minha procura, pensavam que tinha saltado do barco para o mar. Lembro-me de a minha mãe fechar-me e dizer ‘já não sais daqui, ficas aqui até chegarmos a Moçambique’”, recordou Ana Isabel.

  Lourenço Marques, actual Maputo, foi a casa de Ana Isabel dos cinco até aos 11 anos de idade, uma parte da vida que a portuguesa valoriza como uma “experiência fenomenal, que ensinou muito” e que nunca ia querer mudar.

  Entre a Guerra de Independência Moçambicana e a posterior Guerra Civil, a família tornou-se refugiada na África do Sul.

  “Deixámos tudo, deixámos casa, roupa, deixámos tudo e levámos só uma ou duas malas”, recordou, acrescentando: “Os meus pais com quatro filhos (…) Fomos para a África do Sul como refugiados”.

  Entre 1974 e 1978 a família viveu numa localidade perto de Joanesburgo.

  O inglês, língua falada na África do Sul, mas que os pais não conheciam, deu mais sentimento de responsabilidade: “Consoante aprendia o inglês, eu era a intérprete, os ouvidos, o falar dos meus pais. Eu ia com eles e traduzia até eles conseguirem aprender inglês”, disse Ana Isabel.

  Por ser a mais velha dos quatro filhos, Ana Isabel teve de crescer rápido e apoiar os pais: “Acho que não tive adolescência (…). Eu tinha que ir [com os pais] para realizar a vida deles”.

  “Tenho que agradecer o sacrifício, a coragem e a tenacidade dos meus pais. Os seus exemplos e valores de vida formaram na maioria quem sou hoje”, afirmou.

  Foi através do consulado na África do Sul que um tio que já estava na América encontrou a família e conseguiu enviar uma carta de chamada.

  Aos 15 anos, deixando as fortes amizades que a família formou em África, Ana Isabel entrou no primeiro voo da sua vida, para os Estados Unidos, onde passou por fases difíceis até se adaptar e desfrutar da nova morada.

  “Primeiro quando cheguei aos Estados Unidos fiquei desiludida, porque na África do Sul e em todos os países, a América era onde havia (…) as estradas de ouro, havia tudo do melhor”, dis-se.

  “Achei que não era aquilo que me tinham pintado”, considerou a portuguesa, que sentiu a diferença no sistema escolar, mas que também sentiu a discriminação dos americanos contra outras nacionalidades.

  Com o tempo, a família foi acolhida na comunidade de imigrantes e envolveu-se em clubes portugueses, Ana Isabel entrou num grupo de rancho folclórico e continuou os estudos.

  Aos 18 anos, a família visitou Portugal pela primeira vez depois de ter saído, onde Ana Isabel conheceu os avós e ficou “encantada”.

  “Adoro sempre aprender e continuar a cultivar o meu ser com educação, viajar para compreender outras culturas, e acima de tudo dar valor e gostar de ser portuguesa”, acrescentou Ana Isabel, casada com um luso-americano nascido na ilha de São Miguel, Açores, com quem tem dois filhos.

  Depois de 40 anos nos Estados Unidos, Ana Isabel, concluiu: “Vivo num país de liberdade, onde tudo é possível, onde qualquer sonho pode ser realizado, mas onde temos de trabalhar por isso. Nada é frutuoso sem trabalhar, sem puxar, e lutar por esse sonho ou meta”.

Elena Lentza, da Agência Lusa