Em festa com os Santos Populares

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Em festa com os Santos Populares

Hoje, 13 de Junho, é Dia de Santo António, feriado municipal em Lisboa e em muitos outros concelhos de Portugal que têm o grande orador frade franciscano como seu padroeiro.

  Por lá a noite já foi de festa, com o espectacular e colorido desfile das marchas e os convívios centrados na sardinha assada e nos bailaricos junto aos improvisados altares de bairro, e por cá não se perca de vista o interesse que tem, para a afirmação cultural da nossa comunidade, a celebração das tradições populares e o apoio que elas continuam a merecer por parte de instituições associativas e religiosas.

  Saídos da terra natal há dezenas de anos, os emigrantes portugueses mantêm bem longe das origens as celebrações das festas vividas nas suas aldeias, vilas e cidades, não só como pretexto de aglutinação e convívio mas também como forma de dar satisfação ao bem-estar espiritual, o verdadeiro motor para ultrapassar as dificuldades e vencer os desafios do dia-a-dia.

  Também por aqui se festeja a época dos Santos Populares à portuguesa, com cerimónias religiosas nas igrejas da comunidade e arraiais com gastronomia e folclore nos seus adros e salões paroquiais. Pelo caminho, por já não haver tempo para tanto trabalho, já se perderam as marchas populares, que chegaram a desfilar nos recintos dos clubes, engalanados com arcos e balões iluminados à luz das velas. E igualmente os casamentos de Santo António, que por uma vez se realizaram na Igreja que em Joanesburgo tem o Santo por patrono, repetindo o espírito que o mesmo evento tem em Lisboa: possibillitar, com o apoio de um leque de empresas patrocinadoras, a festa de matrimónio a casais com maiores dificuldades económicas.

  Mas como é que a designação de casamenteiro surge associada a Santo António, que teve o nome de Fernando por nascimento?

  Figura popular da Igreja, Santo António – o único português dos três Santos Populares – enfrentou em Pádua, cidade italiana onde viveu parte da sua vida e onde veio a falecer a 13 de Junho de 1231, um governante tirano, de nome Erzelino, que mandara publicar um decreto se-gundo o qual as pessoas deveriam levar idêntico dote para o casamento. Assim, rico casaria com rico e pobre casaria com pobre.

  Porque se casava mais com a “carteira” e menos com o coração, a população da cidade revoltou-se e Santo António enfrentou o ditador na praça pública. Tal foi a força da sua argumentação que Erzelino se viu obrigado a revogar o contestado decreto.

  Santo António foi levado em triunfo pelo povo e desde então aclamado como o “santo casamenteiro”.

  Santo António, que nasceu em Lisboa a 13 de Setembro de 1195, viveu 36 anos. Onze meses após a sua morte foi canonizado pelo Papa Gregório IX. Em 1934, foi declarado Padroeiro de Lisboa e, em 1946, o Papa Pio XII proclamou Santo António como “Doutor da Igreja”.

  Filho de Martinho de Bulhões e Teresa Taveira, de famílias ilustres, recebeu o nome de Fernando no baptismo na Sé de Lisboa. Aos 15 anos, entrou no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, tendo depois pedido para ser transferido para o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde conviveu com os frades Franciscanos do Convento de Santo António dos Olivais, que ali se hospedavam antes de partirem para a costa africana. Foi em Coimbra que fez os cursos de Filosofia e Teologia e foi ordenado padre.

  Andou em missão evangelizadora por Marrocos, onde adoeceu. No regresso a Portugal, o barco foi levado pelos ventos para Itália. Desembarcou na Sicília e dirigiu-se para Assis, onde se encontrou pela primeira vez com São Francisco. Participou, então, num Capítulo Geral da Ordem, que começou a 20 de maio de 1221.

  Não demorou para se revelar como excelente orador e pregador. Em setembro de 1221, fazendo o sermão em Forli, na ordenação sacerdotal de franciscanos e dominicanos, surpreendeu o Provincial e todos os que participaram na cerimónia.

  Como consequência, o Provincial encarregou-o da acção apostólica contra os hereges na região da Romanha, no norte da Itália, onde se tornou um extraordinário pregador popular.

  Em Rimini, os hereges continuavam a impedir o povo de ir aos seus sermões. Foi então que António apelou para o milagre. Confiante que ele surgiria, foi à costa do Adriático e começou a pregar aos peixes, que acorreram em cardumes, mostrando a cabeça fora da água. A notícia deste milagre invadiu a cidade, entu-siasmou o povo e os hereges ficaram envergonhados.

  Após alguns anos de frade itinerante, foi no-meado por carta por São Francisco, o primeiro Leitor de Teologia da Ordem. Mas, este ma-gistério de teologia para os franciscanos de Bolonha demorou pouco porque o Papa mobilizou todos os pregadores dominicanos e franciscanos para combater a heresia albigense em França.

  Por isso, o padre António passou três anos leccionando, pregando e fazendo milagres no sul de França – Montpellier, Toulouse, Lê Puy, Arles e Limoges. Como naquela altura ocupava o cargo de custódio do Convento de Limoges, deslocou-se a Assis para participar no Capítulo Geral da Ordem, convocado por Frei Elias, a 30 de Maio de 1227. Nesse Capítulo foi eleito Provincial da Romanha, cargo que ocupou com êxito até 1230. Em 1229, foi morar com os seus irmãos franciscanos, perto de Pádua, no convento de Arcella, em Camposampiero.

  Nesse lugar sossegado e tranquilo, dedicou-se, a pedido do Cardeal de Óstia, a escrever os sermões das festas dos grandes santos e de todos os domingos do ano. Viria ali a falecer numa sexta-feira, 13 de Junho de 1231, vítima de uma hidropisia maligna.

  Se Lisboa, a que se associam mais 13 conce-lhos de Portugal – Aljustrel, Alvaiázere, Amares, Cascais, Estarreja, Ferreira do Zêzere, Proença-a-Nova, Reguengos de Monsaraz, Vale de Cambra, Vila Nova da Barquinha, Vila Nova de Famalicão, Vila Real e Vila Verde – têm Santo António naturalmente como Patrono, recordando-o hoje com os seus feriados municipais, já o Porto escolheu como seu Santo protector São João, associando as fogueiras à sua festa po-pular, celebrada também com feriado municipal a 24 de Junho.

  E porquê as fogueiras e a festa de as saltar?

Trata-se de uma herança bíblica. João Baptista era filho de Isabel, prima de Maria – a mãe de Jesus – e de Zacarias, um sacerdote do Tem-plo. As primas Isabel e Maria ficaram grávidas na mesma época e combinaram que o sinal que avisaria quem primeiro fosse mãe seria uma fogueira. Assim foi feito e quando Isabel deu à luz João Baptista, logo foi acesa uma fogueira.

  Recorde-se, ainda, que João Baptista come-çou a pregar muito cedo, no deserto da Judeia e nas margens do rio Jordão, baptizando todos aqueles que o seguiam com água – sinal de pureza – inclusive o próprio Cristo.

  Junho é o mês dos Santos Populares e o ciclo de celebrações encerra a 29 de Junho, data do martírio em Roma, sob as ordens do Imperador Nero, dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, os fundadores da Roma cristã, celebrados igualmente com grande solenidade no calen-dário litúrgico.

  São histórias da História, a contar aos nossos filhos e netos, para que não se esqueçam as tradições e aquilo que as fundamenta.

R. VARELA AFONSO