Doutora portuguesa trabalha em investigação científica em hospital de Joanesburgo

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Marta Nunes, portuguesa oriunda da cidade da Guarda, emigrou para a África do Sul em 2009 e começou a trabalhar em investigação nesse ano. A realizar pesquisa científica na área da HIV/SIDA em mulheres grávidas e recém-nascidos, desenvolve também pesquisa de vacinação em várias doenças como a malária. Estuda os resultados em crianças cujas mães levaram medicação anti-virus da SIDA e os efeitos nos sistemas imunitários dessas crianças durante e pós-gestação. Os problemas de desenvolvimento enquanto estão a crescer e outro tipo de sequelas causadas pela medicação.

 O Século de Joanesburgo descobriu esta investigadora e quis saber mais sobre o seu trabalho, dado que uma das entidades que financia o seu laboratório é a Bill & Melinda Gates Foundation com quem se encontra regularmente.

 Desde os Estados Unidos da América, França e África do Sul, a contar com Portugal, Marta já trabalhou nos centros de pesquisa mais conceituados do planeta e  trabalhos seus já foram publicados em várias revistas de renome cientifico.

 No seu gabinete no Bara-gwanath Hospital, a Drª Nunes recebeu o Século e foi isto que nos revelou…

  Michael Gillbee – Onde é que nasceu, de onde é que a Marta Nunes vem?

 Marta Nunes – Nasci na cidade da Guarda, Portugal. Estudei lá até completar o liceu. Fui para a Universidade de Coimbra para estudar Bioquímica. No último ano do curso, fui fazer Erasmus para a Noruega onde vivi um ano. Foi essa experiência que me deu o “bichinho” de viver no estrangeiro. Quando voltei para Portugal, procurei outras possibilidades de viver no estrangeiro.

 Trabalhei no Instituto Gulbenkian da Ciência, num projecto de bactérias lácticas. Recorri para um programa de doutoramento em Biologia e Medicina da Gulbenkian. Eram programas muito atraentes em que tínhamos cientistas do Mundo inteiro a dar-nos aulas e depois, nos quatros anos de tese, íamos para o estrangeiro se quiséssemos. Eu, vivi o meu segundo ano em Oeiras e depois fui fazer a minha tese para Nova Iorque para a Cornell Medical College. Fiz o meu doutoramento em Neurobiologia, em células estaminais. Estudamos se o cérebro humano, adulto, tinha células que se podiam dividir. Estas células estaminais, que se conseguem isolar, dão origem a qualquer tipo de células cerebrais, chamávamos células progenitoras que depois, dependendo do meio de cultura em que as colocamos, dão origem a neurónios e outras células.

 Vivi quatro anos em Nova Iorque.

 MG – Depois, regressou a Portugal?

 MN – Não, não. Depois fui a Portugal defender a tese de doutoramento à Universidade de Medicina de Lisboa. O meu supervisor nacional era o Dr. Lobo Antunes, o meu orientador de tese.

 Fiz um pós-doutoramento em Paris em Malária. Porque sempre quis vir para África.

 MG – Foi onde? No Instituto Pasteur?

 MN – Sim, exactamente. Vivi cinco anos em Paris a trabalhar no Instituo Pasteur a es-tudar o parasita da Malária.

 No seguimento do meu dou-toramento, foi investigação básica. Apesar de ser ligado à saúde, mas continuava a ser bastante básica. Tinha o parasita numa placa de Petri em cultura.

 O pós-doutoramento correu muito bem. Vi que queria cada vez sair do laboratório, investigação mas não tão básica dentro de portas.

 Procurei várias opções, o meu namorado na altura recebeu uma oferta de trabalho em Joanesburgo. Estávamos os dois em Paris e decidimos vir para a África do Sul.

 Eu agora estou a trabalhar em Epidemiologia, estudamos como é que as doenças se alastram e transmitem.

 Fui então para Portugal trabalhar com um grupo de Epidemiologia, no Instituto Gulbenkian da Ciência e depois vim para a África do Sul trabalhar nesta unidade.

 MG – E como é que surgiu esta oportunidade? Foi recrutada?

 MN – Não. Enquanto ainda em Portugal, contactei várias instituições de investigação aqui em Joanesburgo, vim visitar durante 2008 a cidade e nessas visitas entrevistei com várias entidades. Mudei-me para aqui em Março de 2009 e estou nesta unidade desde essa altura.

 MG – E aqui, nesta unidade, o que é que faz concretamente?

 MN – Durante estes anos, lidamos com doenças prevenidas por vacinas. Algumas das doenças já têm vacinas, uma parte importante da investigação é ver por exemplo poliomielite, sarampo, gripe, entre outras. Não trabalhamos em curas, mas em prevenção, vacinação.

 Das vacinas, dadas quer a crianças ou a adultos, parte do nosso trabalho é vermos se essas vacinas funcionam tão bem em bebés e adultos HIV positivos comparados com a população que é negativa. Sabemos que o HIV afecta o sistema imunitário e temos que sim, para algumas vacinas os pacientes HIV positivos não respondem tão bem.

 Pesquisamos as dosagens, dar às crianças HIV positivas, prolongar a administração de algumas vacinas depois dos dois anos de idade. Trabalhamos nisso. Investigamos também na área dos bebés, que embora as mães sejam HIV positivas, eles já não o são. Vimos que o seu sistema imunitário é comprometido e não sabemos porquê. Se é por causa das drogas que as mães tomam durante a gestação, se é por causa da exposição ao vírus durante o de-senvolvimento. Trabalhamos também nisso.

 MG – Portanto, a Marta não procura tanto a cura mas trabalha mais na prevenção?

 MN – Sim, é mais na área de prevenção. Fazemos coisas diferentes e por isso é que a nossa unidade é tão interessante.

 MG – E que outra pesquisa faz?

 MN – A vacinação durante a gravidez. A vacina da gripe não está legislada em bebés menores de seis meses, a população mais vulnerável a vírus, a vacina não está a ser administrada e não funciona. Os bebés não respondem à vacina. Fizemos em 2011 um estudo de vacinação durante a gravidez e concluímos isso. 

Dois desses grandes projectos foram financiados pela Bill&Melinda Gates Foundation e o objectivo era ver se vacinarmos as mulheres grávidas, estavamos a proteger não só as mulheres, mas também os bebés?

 MG – E os resultados?

 MN – Os resultados deste estudo, passados cinco anos, ainda estamos a analisar resultados.

 MG – A Marta já foi publicada em alguma revista cientifica?

 MN – Sim. Já publiquei bastantes. Nesta unidade publicamos muito bem. Publiquei em revistas internacionais, a New England Journal of Medicine. Os resultados de vacinar mulheres grávidas, por exemplo, foi um dos estudos que publicámos nessa revista.

 MG – Qual é o factor de impacto?

 MN – Tem um factor de impacto na casa dos 40.7! É a revista médico-cientifica mais prestigiada do Mundo. Para mim foi uma grande alegria publicar ali. Publiquei também no Clinical Infesctious Deseases, no Jama, no Vacine.

 MG – Em relação a Portugal, qual é a ligação profissional que mantem? É financiada por alguma entidade lusa?

 MN – Não. Portanto, quando vim para a África do Sul, o meu primeiro ano foi financiado por Portugal. Uma bolsa de investigação da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Depois fui perdendo a minha ligação cientifica ao país.

 MG – E está aqui autossuficiente?

 MN – Sim. Tenho residência permanente já. As minhas li-gações a Portugal agora resumem-se a família e amigos. A maior parte dos meus amigos são também cientistas, tenho muitos amigos a fazer ciência em Portugal.

 MG – Está ligada a eles, em termos de investigação?

 MN – Não tenho muitos amigos que fazem o mesmo tipo de investigação que eu faço. Tenho grandes amigos na Fundação Champalimaud e vou lá porque é um lugar tão bonito. Continuo a ter muitos amigos na Gulbenkian e sempre que vou a Portugal contacto com eles.

 MG – E aqui na África do Sul a Marta tem alguma interacção com a Comunidade portuguesa?

 MN – Muito pouca, conheço pouca gente.

 MG – Por razões profissionais?

 MN – Basta conhecer uma pessoa que depois nos leva a vários lugares. Eu colaboro com uma unidade no NICD (National Institute for Communicable Diseases) e por acaso lá, há uma portuguesa. Quando cá cheguei era a única portuguesa que eu conhecia. Não se proporcionou ainda.

 MG – Em termos de ciência, quais é que são os próximos projectos?

 MN – Agora, comecei há duas semanas o estudo dos bebés HIV expostos. Outra parte do trabalho que desenvolvemos aqui, um trabalho de há dois ou três anos, muitos dos bebés hospitalizados aqui por uma doença infecciosa, por vezes nem sabemos qual é que é o agente causador dessa doença. Uma das doenças mais prevalentes nos bebés, são pneumonias. Mas essas pneumonias podem ser causadas por vírus, bactérias e às vezes não sabemos os agentes causadores. Então, parte da investigação é ver quais são as causas das infecções. Isto também tem o intuito de desenvolver novas vacinas.

 MG – O objectivo agora é ficar por cá ou tem ideias em regressar a Portugal?

 MN – [sorri abertamente] Não tenho planos. Por agora estou por cá. A minha unidade de investigação é mesmo muito boa. É reconhecida internacionalmente, os meus colegas são muito bons. Gosto muito de trabalhar aqui.

 Vou aos Estados Unidos a uma reunião para discutir a estratégia a adoptar, como vamos criar uma vacina para um destes vírus que ainda não têm vacinação. Há necessidade, não há?

 MG – A Marta trabalha com um chefe de que gosta e admira muito. Fale-nos dele.

 MN – Ele é sul-africano, Shabir Madhi e quando vim para a África do Sul a nossa unidade era muito pequena. Agora, temos três andares. Mas, no inicio era algo pequeno, em metade do andar onde tínhamos o laboratório, escritórios e uma clinica, tudo no mesmo sitio. Hoje, temos duas clinicas, dois andares de escritórios e um andar só para o laboratório. Nestes anos aqui, eu vi a unidade a crescer.

 MG – E a Marta ajudou a expandir a unidade?

 MN – [sorri envergonhada] Sim, posso dizer que sim! Mas, como estava a dizer, o Dr. Madhi é o director desta unidade, mas é também o director-executivo da NICD. Passa a maior parte do tempo lá mas, sabe exactamente o que se passa aqui.

 MG – Quantos candidatos/ pacientes é que têm?

 MN – Depende do estudo. Por exemplo, o estudo de vacinar as mulheres grávidas, vacinamos duas mil mulheres grávidas HIV negativas e vacinamos HIV positivas mil.

 Temos um estudo que terminou o ano passado, em que recrutámos trinta mil mães e bebés. Portanto, quase todos os bebés que nasciam aqui no Baragwanath, foram recrutados para um estudo aqui da nossa unidade.

 O estudo que começámos recentemente, teremos uma população de duzentas mu-lheres ao todo, 100 HIV positivas e outras tantas negativas.

 MG – O que é que a Marta acha da África do Sul? Tendo em conta todos os preconceitos e estereótipos que vêm da Europa.

 MN – Uma coisa que eu acho de Joanesburgo, é que é uma cidade para se viver não é uma cidade para se visitar. Vir aqui de turista… aqui agora há mais coisas. A primeira vez que aqui vim, não havia nada para fazer. Agora já há muito mais para fazer e ver. Mas continuo a achar que vive-se bem em Joanesburgo, para visitar é que não.

 Gosto muito de aqui estar, é muito diferente da Europa, muito diferente de Nova Ior-que e sinto muita falta da Europa. Vir de carro para o trabalho é algo peculiar daqui.

 MG – Que conselhos é que pode dar aos jovens lusos que estão agora a acabar as licenciaturas e os estudos?

 MN – Eu penso que é como qualquer outra profissão. Devem escolhê-la porque têm paixão e devem fazer o que os motiva. Não venham para a ciência para fazer dinheiro! Os salários não são maus, mas não vêm fazer fortuna! Deve-se gostar mesmo e ter vocação. E, na África do Sul, faz-se muito boa ciência. Não ficaria aqui tanto tempo se visse que a minha carreira se estava a afundar. Faz-se muito boa ciência na África do Sul.

 Um estudante a acabar agora, que queira fazer ciência e esteja motivado para isso, há lugar e há qualidade.

 

 Marta Nunes é tipicamente beirã. Recebe de braços abertos, com um sorriso franco e uma hospitalidade familiar. Simples, sem preconceitos e com uma enorme vontade de aprender e conhecer mais, descreve apaixonadamente a sua investigação e trabalho cientifico. O seu olhar prende o interlocutor não só pela cor, mas pela paixão que transmitem ao falar da sua profissão. Tipicamente portuguesa, de estatura esbelta, residente em Joanesburgo tenciona continuar a desenvolver o seu trabalho na “Nação Árco-Íris” e é mais uma prova dos valiosos contributos lusos neste país.