Deveria haver eleições já, para ver o que o povo angolano quer

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vice-presidente do MPLA

vice-presidente do MPLAO vice-presidente do MPLA, Roberto de Almeida, disse sábado em Luanda, durante a “marcha patriótica” de apoio ao Governo, que, se fosse possível, deveria haver eleições no próximo mês “para ver o que o povo angolano quer”.

 Numa intervenção no Marco Histórico do Cazenga, onde no sábado se juntaram milhares de pessoas numa “marcha patriótica” pela paz, organizada pelo MPLA, Roberto de Almeida lembrou que as elei-ções de 2008, que deram vitória ao partido liderado por José Eduardo dos Santos, foram confirmadas por observadores nacionais e internacionais.
 “Mas se isso não basta, se fosse possível, devíamos realizar eleições no próximo mês para vermos o que verdadeiramente o povo angolano quer”, frisou o vice-presidente do MPLA.

Manifestação anti-governo em luanda

 A manifestação anti-governamental, convocada pela Internet para hoje, segunda-feira em Luanda, vai realizar-se apesar dos discursos “intimidatórios e demagógicos” do MPLA, que “já não pegam”, afirmou um responsável da iniciativa, salientando que muitos angolanos sentem que é preciso pedir “mais liberdade”.

 Dias Chilola, um dos organizadores da manifestação convocada contra o governo de José Eduardo dos Santos disse à Lusa que, apesar das “intimidações” proferidas por vários dirigentes do MPLA ou governantes, as pessoas vão sair às ruas na segunda-feira para se manifestarem de “forma pacífica e em liberdade, porque é um direito democrático”.
 “Não temos números, não estamos a competir com o governo ou com o MPLA, isso não interessa. O que interessa é que isto é um ponto de partida para um movimento que será imparável”, afirmou, acrescentando que por “mais violência que houver ou por mais que [o governo] não esteja de acordo, a vontade de as pessoas se manifestarem vai continuar”.

 Até podem participar “apenas uma, duas ou três pessoas, mas esse sentimento está no coração de muitos angolanos, que sabem que é necessário pedir mais democracia e liberdade para que haja mudança”, vincou Chilola, para que o próprio governo “desperte e os outros partidos políticos e a sociedade civil tenham mais intervenção”, acrescentou.
 Dias Chilola lamentou os discursos proferidos por dirigentes do MPLA e governantes, salientando que estes “já não pegam”.
 “São discursos para meter medo, mas o que já não há agora é medo. Com cada dia que passa, as pessoas vão perdendo o medo, porque com medo não se vai a lado nenhum”, frisou.

 De acordo com Chilola é “bom que o governo comece a pensar noutro discurso, porque chamar ao próprio povo de sabotadores ou dizer que os que se manifestarem vão ser neutralizados, isso já não pega”, referindo-se ao discurso proferido no sábado pelo primeiro secretário provincial de Luanda do MPLA, Bento Bento, no fim de uma marcha pró-governo que juntou dezenas de milhares de pessoas na capital angolana.
 “Isso foi no tempo da guerra. Agora estamos a fazer coisas dentro da legalidade, só que eles vêem a legalidade de uma outra maneira, é um peso e duas medidas, e isso não pode ser”, criticou.

 É também “demagógico” acusar os manifestantes que se quiserem manifestar pacificamente “de quererem a guerra”. “Essas pessoas não gostam de ouvir críticas ou coisas diferentes. Um país democrático é um país em que todas as pessoas podem falar e têm o direito de se manifestar”, frisou.
 O angolano de 45 anos, residente em Lisboa, lembrou que “há certas coisas que andam bem no país outras não”, mas considerou que “isso é normal em democracia”. Mas afirmou ser preciso “que o governo se prepare para que saiba que os angolanos sabem reclamar o direito que lhes cabe”.
 “Queremos viver a democracia, mas também que a democracia chegue a nós. Que as pessoas escolhidas nos expliquem quais os passos que estão a dar no sentido de melhorar essa democracia. E é por isso que vamos marchar”, explicou.
 Dias Chilola também refutou as acusações de que a iniciativa teria ajuda de organizações em países terceiros, salientando que “isso não tem cabimento”.

* Participantes na marcha patriótica manifestam desejo de paz para o país
          
As opiniões de todos quantos participaram sábado em Luanda, na marcha patriótica pela paz, organizada pelo MPLA, convergem quanto ao “sucesso” da mesma, onde compareceram, segundo a organização três milhões de pessoas.
 Milhares de pessoas, entre as quais Ricardo Lourenço, militante do MPLA, há 20 anos, percorreram sábado, todos usando camisolas, bonés e lenços brancos, três quilómetros de estrada, debaixo de sol forte, para “pedir paz para Angola” alegadamente “ameaçada de um plano desestabilizador do país”.

 Ricardo Lourenço, pertencente ao comité municipal do MPLA do município da Samba, chegou de autocarro ao local de concentração às 8:00, como “quase todos os habitantes do município”, para participar da marcha.
 Às 10:00, como previsto, arrancou a marcha organizada em blocos, nomeadamente dos comités de especialidade do MPLA, da organização das mulheres, da juventude e dos nove municípios que compõem Luanda, culminando no Marco Histórico 4 de Fevereiro, no município do Cazenga, onde se assistiu a uma cerimónia político-cultural.

 Em declarações à agência Lusa, este militante do MPLA,  organizador desta marcha, que veio contrapor uma manifestação anti-governamental, marcada via internet, para hoje, segunda-feira em Luanda, disse não haver dúvidas que o objectivo foi alcançado.
 “Foi um mundo de pessoas que participaram dessa marcha, podemos arriscar em dizer que toda a Luanda compareceu, por isso não há dúvidas que o objectivo foi atingido”, garantiu.

 Por sua vez, Antonica Custódio, igualmente militante do partido do município do Cazenga, considerou “um sucesso” os resultados.
 “O número de população foi elevado e ultrapassou as ex-pectativas”, congratulou-se Antonica Custódio, pertencente ao partido desde 1984.
 Para si, não poderia ser diferente o cenário, porque “o que o povo quer é paz, tranquilidade e ver um futuro melhor”.
 “O que vivemos durante tantos anos de guerra, não que-remos voltar a sentir o mesmo. Só quem não perdeu um membro da sua família pode querer ter confusão e destruição novamente”, asseverou.
 Movido pelo mesmo sentimento, que Maurício José, igualmente militante do MPLA do município do Kilamba Kiaxi, disse ter participado apenas do acto político, por se encontrar a trabalhar.

 “Infelizmente trabalho por turno e não fui a tempo de participar da marcha, e saí directo do serviço para aqui, porque este é um acto muito importante para o país. Temos que mostrar a essas pessoas que já não queremos guerra em Angola, que já temos paz e queremos preservá-la”, explicou.
 No Marco Histórico 4 de Fevereiro, estiveram presentes, além de militantes do MPLA, representantes de várias igrejas, membros da sociedade civil de Angola, atendendo, assim, ao apelo feito, na terça-feira, pelo primeiro secretário provincial Luanda do MPLA, Bento Bento.
 Para assegurar a tranquilidade e a segurança dos participantes, a Polícia Nacional angolana destacou dois mil efectivos dos seus vários ra-mos, incluindo um helicóptero que sobrevoou o recinto durante a cerimónia.

Bombeiros e serviço de emergências médicas estiveram também ao dispor no local para acudir situações necessárias, não tendo sido chamadas até ao encerramento do acto político.