Depois do Carnaval

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Depois do Carnaval

O Carnaval chegou mais cedo à África do Sul. Teve o seu ponto alto na passada quinta-feira em pleno Parlamento, na Cidade do Cabo, com a participação de uma trupe de “honoráveis” mascarados, com “cachet” garantido e pago pelos dinheiros públicos.

  A trupe contestatária, depois retirada da casa da democracia por forças policiais, até pode ter fundamentadas razões para os seus protestos – se entre os seus dirigentes não haja também quem sofra dos males da corrupção – mas, não deixar que outros falem, faz com que quem pro-testa perca a razão. Tratou-se de um “Carnaval” muito pouco democrático, de parte a parte.

  Está passado. Vamos ao pós-Carnaval e ao significado que esse período encerra em termos da solidariedade humana.

  Com feriado ou sem feriado, conforme o país em que a festa tem ou não foros de cartaz privilegiado, amanhã, terça-fei-ra, é Dia de Carnaval. Depois, ao longo de quarenta e quatro dias, tantos quantos vão decorrer a partir de quarta-feira – designada no calendário litúrgico por Quarta-Feira de Cinzas – até ao momento da Missa da Ceia do Senhor, celebra-se a Quaresma. Estamos, pois, neste ciclo temporal que é o ano da rotação terrestre, a poucas semanas de viver e recordar um dos períodos mais marcan-tes do mistério de Cristo na vida da Igreja. A Páscoa do Senhor é, em relação ao Ano Litúrgico, o seu ponto culminante e, também, núcleo vital da leitura que pode ser feita à vida terrena de Jesus, como mensagem deixada aos ho-mens no sentido de criarem um mundo civilizacionalmente melhor.

  Como mistério dos mistérios – conforme é referida nas Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico -, a Páscoa é a síntese de todos os acontecimentos da vida histórica de Jesus Cristo. Nela, a Igreja celebra e actualiza a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus, realizada na vida terrena pelo Seu Filho, especialmente no mistério pascal, pelo qual, morrendo e ressuscitando, destruíu o conceito finito da vida e restaurou a esperança nos direitos humanos e nos valores morais por que se deve pautar a existência de cada um de nós.

  Este grande sacramento da esperança humana, a Ressurreição – garante da verdadeira justiça na avaliação do comportamento de cada homem e de cada mulher – tem na Quaresma o seu tempo de preparação.

  Só a Ressurreição pode repôr a verdade e a justiça daquilo que foi o comportamento dos homens e das mulheres na sua vida terrena. Só os mecanismos divinos podem premiar os bons e compensar os injustiçados no seu percurso por este mundo.

  Até lá, pela caridade, nos redimamos e nos credibilizemos.

  Nesse sentido, debrucemo-nos por instantes sobre os grandes problemas sociais e reflictamos na forma de comparticipar na sua solução, individual ou colectivamente. Façamo-lo, ajudando o pobre que se encontra ao nosso lado ou encaminhando o produto da nossa renúncia quaresmal para qualquer instituição de solidariedade social que mereça o nosso apoio e seja credível, tendo em atenção que os oportunistas não merecem a nossa generosidade.

  Lembremo-nos que, com a crise eco-nómica global que está instalada, a si-tuação de fome agravou-se em quase todos os países, transformando-se o número crescente de pobres num drama enorme para a humanidade. Por isso a Igreja, que cada vez mais se projecta no campo social, convida nesta época do ano os seus fiéis a uma reflexão sobre o que cada um pode fazer para aliviar esse mal, gerador de conflitos e de violência nas sociedades.

  Diz o povo que a fome é má conselheira e, por isso, Jesus, já no seu tempo, pedia aos seus discípulos que vivessem e difundissem a caridade, o mandamento novo que passou a representar um magistral resumo do Decálogo divino, confiado a Moisés no Monte Sinai.

  O Redentor sempre revelou uma singular paixão por aqueles que vivem em dificuldade. Por isso, a Igreja nos convida, durante o tempo quaresmal, a olhar com mais atenção os rostos carregados de sofrimento, rostos que testemunham o desafio das pobrezas do nosso tempo. Nalguns a pobreza física, traduzida numa magreza forçada, noutros a pobreza de espírito.

  Mas, tal como os apóstolos em Betsaída, que repararam que só tinham cinco pães e dois peixes para satisfazer o pedido de Jesus para que acudissem aos pobres – “Dai-lhes vós mesmos de co-mer” -, também os discípulos de hoje, aqueles homens e mulheres de coração mais aberto, não dispõem de meios suficientes para valer eficazmente a milhões e milhões de pessoas famintas ou mal nutridas que lutam pela sobrevivência.

  Que fazer então? Deixar as coisas co-mo estão, rendendo-nos à incapacidade de resolver o problema? É esta a pergunta para a qual, nesta quadra de reflexão, a Igreja deseja chamar a atenção de cada um, quando a terra, na verdade,  ainda está dotada dos recursos necessários para alimentar a humanidade inteira. Mas como a terra não pertence à Igreja mas aos Estados, assim, de mera preocupação religiosa, a questão passa a assumir um carácter político-social.

  Basta olhar para a situação em que se encontram alguns países de África, que já foram celeiros  e onde hoje os seus povos engrossam a lista de carenciados.

  Na realidade, tem faltado inteligência aos governantes deste mundo para optimizarem os recursos e as potencialidades agrícolas, respeitando o ambiente e os ritmos da natureza.

  Entretanto, multidões de gente mal nu-trida, compostas por crianças, mulheres, anciãos, migrantes, deslocados, desempregados e refugiados dirigem o seu grito de dor ao resto da humanidade, implorando o quadro da sua miséria, na esperança de serem ouvidas.

  Perante esta situação, como não tornar atentos os nossos ouvidos e mais generosos os nossos corações, começando por pôr à disposição dos mais necessitados aqueles cinco pães e dois peixes como fizeram, a pedido de Jesus, os apóstolos em Betsaída?

  Assumamos esse apostolado até que o problema da justiça social se resolva. Deus retribuirá, proporcionando geralmente a cada benfeitor a capacidade de multiplicar o que tenha dado aos mais pobres. Ao confiar na generosidade dos doadores, a Igreja reconhece que o ges-to requer certamente renúncias, mas sempre com ganhos espirituais, que pressupõem uma conversão do comportamento consumista e uma maior interioridade.

  Em ambiente de reflexão quaresmal, que se vai prolongar pelas próximas semanas, façamos multiplicar aqueles poucos pães e peixes nas mãos dos homens e mulheres de boa vontade e ganhemos o coração dos pobres para um Mundo Melhor. Contribuamos validamente para fazer frente aos vários géneros de fome e vivamos de forma autêntica o providencial período da Quaresma, tempo de reconversão e de reconciliação.

R. VARELA AFONSO