Depois de muitos anos a operar em instalações alugadas, representação consular de Pretória vai mudar-se finalmente para a Embaixada

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Há cem anos já havia representação consular portuguesa na cidade de Pretória, exercida na altura e com funções equivalentes a vice-cônsul de Portugal, por Victor P. Louis de Wagenaere.

 Nesse âmbito, não era apenas o nosso o único país a delegar a representação a individualidades sul-africanas, já que segundo referências a esse respeito, publicada na imprensa local, a seguir ao jantar oferecido pelo “Consular Corps of Pretoria”, na noite de 24 de Maio de 1904, no Nigel House Hotel, da capital sul-africana, de despedida ao cônsul alemão, Mr. Biermann, marcaram presença nesse convívio, Mr. Profitt pelos Estados Unidos da América; Mr. Feer pela França; Mr. Baron de Morpurgo pela Itália; Mr. Van de Sand Bakhuijesen pela Holanda; e Mr. Wagenaere por Portugal, pertencendo à Bélgica, a maior representatividade, já que além de Mr. Goor, estavam ali também o vice-cônsul Baron Ernst, e o agente consular Mr.Tilanus por esse país.

 Sem sabermos ao certo a data em que Mr. Wagenaere deixou esse cargo, o que provavelmente só terá acontecido a partir da resignação em 1946, data em que tais funções passaram a ser exercidas por Vasco de Seabra Palmeirim, passando a partir daí a ser emitidos passaportes a portugueses residentes nesta área consular para, com a classificação de “passaporte de viagem”, então válidos apenas para um ano, se poderem deslocar a Moçambique, aqui e por ser mais próximo, com mais regularidade, ou qualquer outro país vizinho no continente africano.

 Com os serviços consulares a funcionarem nessa altura em edifício antigo, no Church Square, eram ali requeridos e elaborados os mais variados documentos, sendo posteriormente submetidos à apreciação e despacho do responsável pelo Consulado de Joanesburgo, que mediante concordância procedia à respectiva assinatura.

 Com a resignação do cargo por parte de Vasco Palmeirim, ao aceitar proposta de emprego em Moçambique com melhores condições, para onde depois foi viver, voltou Pretória a enfrentar novas dificuldades, a partir daí até mais acentuadas, uma vez que não havendo ninguém à frente dessa repartição, tinham os interessados que se deslocar propositadamente a Joanesburgo para tratar de qualquer documento, que por vezes e na maioria dos casos, por não ficarem prontos no mesmo dia, o que lhe causava bastante transtorno, terem de lá voltar para os recolher.

 Para por côbro a essa situação, resolveu uma comissão constituída pelos irmãos José e António Braz, Manuel Fortes e Luís Correia (todos já falecidos), avistar-se com o cônsul-geral de Joanesburgo, para o pôr ao corrente das dificulda-des que se enfrentavam e que careciam de rápida solução, sendo ali aconselhados a submeter essa sua pretensão ao então embaixador de Portugal na África do Sul, general Abranches Pinto, o que fizeram sem perca de tempo e, por intermédio ou interferência desse diplomata, o problema viria a ser solucionado, com a nomeação de António Diogo, homem da inteira confiança daquele general, para chefiar o consulado, que na sua vigência operou no Koedoe Bulding, e mais tarde, por quem o substituiu, no sétimo andar do Van Ercon Building, em Pretorius Street.

 A António Diogo sucedeu Mário Silva, que depois de mais de vinte anos de gerência dessa secção consular, e devido a um incidente ali ocorrido em Janeiro de 1992, em que por não se apurar qualquer culpabilidade da sua parte, no motivo que injustamente fora acusado, (mais parecendo um episódio de fotonovela orquestrado por alguém para o apear dessas funções), a ela voltou a assumir esse cargo inerente à sua categoria de vice-cônsul por mais dez anos, ou seja até à sua aposentação, isto depois de ilibado de qualquer culpabilidade nesse caso, mediante as conclusões do inquérito a que procedeu o então cônsul-geral de Joanesburgo, dr. Brito Câmara.

 Não se percebe lá muito bem, que pela sua dedicação à comunidade, Mário Silva tenha sido vítima desse incidente, atendendo a que durante os muitos anos em que a serviu, diga-se de forma digna e muito respeitado, entre as muitas provas dadas, a comissão que formou em 1974 e dirigiu na cidade de Pretória para assistência aos refugiados vindos de Moçambique, e em 1975 aos procedentes de Angola, e para facilitar a vida de muitos compatriotas até abriu em 16 de Fevereiro de 1990 em dependências cedidas pela ACPP, o Centro Nocturno de Apoio à Emigração, para ali atender os portugueses que residindo em Pretória e trabalhando fora da cidade, regressavam tarde a casa, sem possibilidades de tratarem dos seus assuntos junto da secção consular dentro das horas normais de atendimento, o mesmo acontecendo com os proprietários de pequenas lojas comerciais, mormente dirigidas pelo marido e mulher, que sem esse benefício teriam de encerrar as mesmas para se deslocarem aos serviços consulares, quando a presença de ambos era ali exigida para determinados assuntos.

 Durante o período em que decorreu esse dito inquérito, e depois de Mário Silva se aposentar, isto em Abril de 2003, quando a secção consular funcionava no Barklay Square, em Sunnyside, e sem ninguém para o substituir na gerência da repartição a tempo inteiro, essa função passou a ser assumida pelos secretários que foram passando pela embaixada, actualmente por Eduardo Rafael.

 Essa repartição designada por “Secção Consular da Embaixada de Portugal, em Pretória”, daí não se compreendendo lá muito bem que em vez de agregada à nossa representação diplomática, continuasse separada a funcionar em instalações alugadas, para mais em tempo de austeridade, ultimamente no rés-do-chão do Groenkloof Forum, em Leipoldt Street, pequena rua perpendicular à George Storrar Drive, (edifício onde no primeiro andar está instalada a Korean Embassy), e Maria Margarida Ferreira Rosas de Oliveira se manteve como chanceler até à sua aposentação, ali continuando em actividade Adelaide Maria Gonçalves Teixeira como assistente administrativa, e as irmãs Maria Alice Moreira da Costa Cardoso e Maria Albertina Moreira da Costa Monsanto como assistentes no atendimento ao público, e pela maneira eficaz com que exercem essas funções, a merecer os elogios que já por algumas vezes ouvimos a seu respeito.

 Anteriormente, voltando às décadas 30/40, eram conhecidos doze portugueses a residir em Pretoria, não se sabendo contudo se esse número correspondia à realidade, ou se estariam registados no consulado local, outros que porventura trabalhassem em machambas ou exercessem actividades em áreas periféricas, e pelas dificuldades de transporte na altura não lhes fosse possível a deslocação assídua à cidade, para convivência com os seus compatriotas.

 Por exemplo, quando em Julho de 1939, o então Presidente da República Portuguesa, marechal António Óscar Fragoso Carmona visitou a África do Sul, viajando de comboio de Lourenço Marques para Pretória, além do referido representante consular, Mr. Wagenaere, que trajava a rigor, aguardavam-no na estação ferroviária da capital sul-africana, os irmãos José e António Braz, Manuel Grilo, João Nunes de Brito, um tal Rosas e outro conhecido por Ribeiro.

 Segundo soubemos no passado, já praticamente todos esses portugueses que nessa altura aqui residiam, devem ter falecido, o marechal Carmona ofereceu nessa altura da sua deslocação à África do Sul, em nome do Governo Português, ao então ministro da defesa sul-africano, Mr. Pirow, um lindo cavalo de raça, devidamente treinado no nosso país pelo oficial de cavalaria que o acompanhou a Pretória, e na demonstração em público dos exercícios que aquele animal podia executar, a deixar admirados quantos presenciaram esse desfile.

 Agora que está a ser anunciada oficialmente para hoje, dia 1 de Outubro, a mudança dessa secção consular para a chancelaria da embaixada, em 599 de Leyds Street – Mu-cleneuk, é caso para felicitar quem ordenou, ou donde partiu essa iniciativa, já que com essa medida se vão poupar os balúrdios que se pagavam em rendas mensais, na ocupação de instalações que nunca foram nossas, e a multiplicar pelos largos anos de aluguer, dariam certamente para se terem edificado alguns prédios, para mais com dependências na chancelaria suficientes para o seu funcionamento, especialmente a partir do ano, e já lá vão muitos, em que ficaram vagos os aposentos onde funcionaram os serviços relacionados com o “Adido de Defesa”, uma medida que quanto a nós só peca por tardia.

 Por outro lado e como importante, passará certamente com o andar dos anos, a ser mais conhecida a nossa embaixada por alguns dos portugueses, especialmente os mais jovens, que não obstante residirem em Pretória, nunca a visitaram, nem tãopouco sabem onde fica, já que para tratar do seu passaporte, bilhete de identidade, procuração ou qualquer outro documento oficial, se dirigem à secção consular, a qual sempre tem operado fora donde devia estar.