Denise Gil foi a melhor aluna de Química da África do Sul no ano lectivo 2018/2019

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 Denise Simões Gil, 18 anos, a estudar Ciências Actuariais na Universidade de Pretória é uma portuguesa de sucesso em tão jovem idade. Nascida em Sintra, Portugal, emigrou com os pais para a África do Sul aos cinco anos de idade e fixou-se na cidade de Brits. Com os avós paternos de São Martinho de Castelo Branco e os avós maternos de Vila Franca de Xira e Figueiró dos Vinhos, é uma luso-sul-africana de raízes portugueses bem profundas.

 Na Mountain Cambridge School, em Hartbeespoort, foi “head girl” no último ano do secundário bem como “Dux Scholar”.

 Nesse último ano completou oito exames IGCSE onde obteve oito distinções, a última das quais a Português. Recebeu a distinção como melhor aluna de Química do país e o Século de Joanesburgo foi saber junto desta jovem portuguesa o que a motiva e como obtém tanto sucesso.

Michael Gillbee – Dê-nos um pouco do seu historial, onde nasceu? Porque veio para a África do Sul?

 Denise Gil – Eu nasci em Portugal, mais especificamente em Sintra. Quando eu tinha cinco anos de idade, os meus pais tiveram oportunidade de emprego aqui na África do Sul e por isso emigrámos. Os meus pais são portugueses, mas nascido na África do Sul. Os meus avós, quer maternos, quer paternos, nasceram em Portugal.

 MG – E vieram directamente para Brits?

 DG – Sim, logo para Brits.

 MG – E o que fazem os seus pais?

 DG – O meu pai é programador informático, com a sua própria empresa. A minha mãe trabalha no retalho.

 Viemos para Brits e foi onde cresci. Mas fui para a escola em Hartbeespoort, na “Mountain Cambridge School” e só mudei para uma escola Cambridge em 2009. Decidimos que eu permanecesse na escola e foi uma excelente decisão.

 Os meus pais sempre me encorajaram a trabalhar arduamente e a ter bons resultados na escola. E foi isso mesmo que fiz, trabalhei arduamente e sempre tive muito sucesso. Sempre tentei atingir os patamares mais altos e conseguir obter os melhores resultados. O meu trabalho árduo sempre me recompensou!

 MG – Mas tinha tempo para amigos e para se divertir ou foi só sempre a estudar?

 DG – Bem, eu não saía muito enquanto andava na escola, mas Brits é uma cidade pe-quena também não há muito para fazer. Trabalhei e estudei muito, mas tinha amigas e amigos, mas era diversão na altura das férias. Se tínhamos testes ou trabalhos a fazer, eu preferia preparar-me convenientemente. Certificar-me que obtinha boas notas.

 MG – Como é que se sente ao ser a melhor aluna na África do Sul em Química?

 DG – Obviamente orgulhosa, mas não foi algo que estava a apontar conseguir. Não era um objectivo, por assim dizer. Por isso, fiquei muito surpreendida.

 MG – Como é que aconteceu? Explique-nos por favor.

 DG – Os exames do Cambridge, quando se chega ao ensino secundário, fazemos testes IGCSE (Internacional General Certificate of Secundary Education). No Reino Unido é o liceu deles. Depois fazemos os exames de A-levels. A escola que frequentei era muito pequena e eu fui a primeira aluna a fazer os A-levels, porque obtive notas muito boas nos IGCSE. E o currículo é idêntico ao de Inglaterra.

 Fiz os exames AS de Mate-mática, Inglês, Fisica e Quimica. A Matemática é algo que eu sempre gostei, tenho uma paixão pela Matemática, daí ter escolhido o curso de Ciências Actuariais.

 Sempre fiz o meu melhor a Matemática por gostar tanto da disciplina. A Física e a Química sempre tive que me esforçar um bocado mais porque não me era tão natural ou tão intuitivo como a Matemática.

 Tive um professor brilhante a Química, fiz os meus exames e obtive as distinções, fiquei muito feliz por isso. Isto foi em Junho do ano passado quando fiz os exames. Por isso, quando descobri que há umas semanas, a distinção era também a nível nacional, obtive as notas mais altas de toda a África do Sul, foi uma surpresa enorme para mim. Senti-me muito orgulhosa porque trabalhei muito, mas como disse não esperava de todo a Química obter essa distinção em toda a África do Sul!

 MG – E a Matemática?

 DG – A Matemática consegui também uma distinção.

 MG – Quantas distinções é que obteve?

 DG – Nos A-levels obtive três distinções em três exames. No nível AS obtive três distinções em quatro exames. Fa-lhei a Inglês porque era mes-mo muito difícil, no nível de Cambridge.

 Nos exames IGCSE obtive oito distinções em oito exames.

 MG – E o que é que a fez querer estudar na Universidade de Pretória? Não quereria ter voltado a Portugal para estudar lá?

 DG – Analisámos várias opções, eu e os meus pais, considerámos Portugal, o Reino Unido. É a coisa boa da escola com o currículo de ensino de Cambridge, podemos estudar em qualquer parte do Mundo. É reconhecido internacionalmente. Mas na altura não estava bem certa do que queria estudar, mas depois optei por Ciências Actuariais…

 MG – Que outras opções é que tinha em mente?

 DG – Matemática Aplicada, Matemática de Ciências Com-putacionais, algo com números, gosto mesmo muito de números.

 MG – E o que é que gostaria de fazer na vida, como tra-balho? Gostaria de trabalhar para a NASA? Para a Banca? Seguros?

 DG – Quem estuda Ciências Actuariais normalmente em-prega-se nas empresas de seguros. Podemos trabalhar nos bancos, companhias de investimento e elas medem risco. Não há muitas pessoas a trabalhar nesse ramo aqui no país, há cerca de mil pessoas qualificadas.

 É algo muito interessante. E quero trabalhar nesse campo da Actuária, utilizam a Matemática para avaliar o risco e estabelecer propinas para detentores de apólices. É algo que essencialmente quero fa-zer.

 MG – Porque trabalhou tanto no secundário, o trabalho universitário não lhe é estranho? Não é tão difícil?

 DG – Porque fiz o currículo de Cambridge é mais exigente e preparou-me muito bem para a Universidade. Também estou habituada a este nível de exigência e de trabalho e eu penso “OK, tenho que puxar e tenho que fazer o trabalho”. Portanto o ritmo é-me familiar. Não direi que é fácil, a Universidade é muito trabalho, há alturas em que eu fico com muito stress, mas é normal. Mas não é tão difícil quanto me fizeram ver que seria.

 Estou satisfeita com as minhas notas e os meus resultados até agora no meu curso.

 MG – Como é que é estar emancipada? Já não estar em casa, viver sozinha?

 DG – Tenho o meu quarto na residencial universitária, mas o que é bom é que é uma Comunidade. Não se está completamente sozinha, há sempre pessoas à volta e já fiz bons amigos. É bom ter uma pessoa com quem falar, ir para as aulas e sentar-se ao nosso lado nas aulas.

 Fazemos amigos no campus também. Tem sido duro no sentido de que sou filha única e tenho uma relação muito próxima com os meus pais, sinto muito a falta deles.

 MG – Já tem carta de condução? Tem carro?

 DG – [sorri] Não, ainda não. Bem, tenho um carro mas não tenho carta de condução. Brits é a uma hora de distância.

 MG – Quantos outros alunos portugueses é que conhece?

 DG – Conheço dois outros alunos, um está a tirar o mesmo curso que eu e outro a estudar BCom General. Mas ainda não senti aquele sentimento de Comunidade portuguesa. Já me disseram que há sociedades portuguesas na Universidade, mas ainda não tive oportunidade de me inteirar bem disso.

 MG – Sendo portuguesa, está inserida na Comunidade?

 DG – [pensa] Não, não muito. Muitos dos portugueses na Comunidade são de origem madeirense, o que é natural, dizem sempre que vão às festas, mas a minha família nunca participou muito em eventos. Também porque os meus pais trabalham muito e não sobra muito tempo. Não era algo em que estávamos muito focados, por isso a nossa participação era quase nula. Mas é uma pena.

 MG – Vai com frequência a Portugal?

 DG – Desde que viemos para a África do Sul, voltámos a Portugal três vezes em catorze anos.

 Amo Portugal! Amo como é pequeno e como tal tudo é muito acessível no país. A comida! Vai-se a qualquer restaurante e a comida é maravilhosa, nunca ficamos desiludidos. As praias e toda aquela energia do país.

 Amo Portugal! [coloca a mão no peito] E quando estou lá sinto que estou em casa! Não me sinto sempre muito portuguesa na África do Sul, porque estamos rodeados de sul-africanos, amigos sul-africanos, mas quando estou lá sinto que estou onde pertenço.

 MG – Fala Português em casa?

 DG – Não. Mas falo com os meus avós, porque eles não falam Inglês. Os meus avós maternos estão cá e os meus avós paternos em Portugal.

 MG – E quais é que são os seus objectivos de futuro?

 DG – Bem, vou-me licenciar cá na África do Sul porque a Universidade de Pretória é uma instituição muito boa e está alinhada com o Reino Unido, por isso é uma Universidade muito boa para estudar Ciências Actuariais. Se eu depois quiser ir para o Reino Unido seria uma transição fácil. Portanto, de momento, o meu curso quero fazê-lo aqui. É uma boa profissão quer aqui na África do Sul ou no Reino Unido.

 MG – Tem uma personalidade demarcada e forte?

 DG – Sim, diria que sim. Não cedo a pressões e sei o que quero. Se não quero, não quero. Não vou faltar às aulas nem vou “enlouquecer” com esta nova liberdade.

 MG – Que conselhos dá às gerações posteriores, que entram na Universidade?

 DG – Continuem a trabalhar, mesmo que possa parecer que não vão conseguir o objectivo final. Porque é um processo, tem tudo a ver com o percurso. Continuem a persistir, foquem-se nos problemas para serem resolvidos e se continuarem a não conseguir o que querem, não desistam. Continuem a tentar, porque no fim de contas tem a ver fazer o melhor para nos sentirmos bem. Não é ser melhor do que ninguém, mas fazer as coisas e estar contente com o esforço que fazemos. É o mais satisfatório, mesmo que obtenhamos 70%, se demos o melhor, então temos que sentir orgulho no que fazemos bem e nos resultados conseguidos com o nosso melhor esforço. E não desistir!

 Denise Simões Gil é caracterizada pelos traços tipicamente lusos, os olhos cas-tanhos amendoados, pele morena, cabelo escuro e comprido. De porte físico esbelto, Denise é de estatura alta e elegante e marcada pelo sorriso permanente. De tom de voz suave e muito afável, Denise denota uma inteligência bem acima da média e um conhecimento já bastante profundo.

 Apaixonada pela Matemática e agora a estudar Ciências Actuariais, Denise Gil está na rota para se tornar um dos maiores sucessos da Comunidade Portuguesa e da África do Sul.