De norte a Sul de Portugal milhares saem à rua para festejar o Carnaval

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De norte a Sul de Portugal milhares saem à rua para festejar o Carnaval

De norte a sul do país, milhares de pessoas participam em entrudos ou em corsos de Carnaval que vão dos mais tradicionais às inspirações brasileiras, nos quais a crítica e a sátira social são reis.

 Em Podence, Macedo de Cavaleiros, no distrito de Bragança, o “Entrudo Chocalheiro” enche as ruas de marafonas e caretos, imagens diabólicas e misteriosas, e em Lindoso, Ponte da Barca (Viana do Castelo), os cerca de 170 habitantes mantêm o "Enterro do Pai Velho", o entrudo tradicional daquela aldeia.

 Mais abaixo, no distrito de Aveiro, o Carnaval de Ovar teve no sábado a primeira edição do "Baile de Máscaras", com orquestra ao vivo e fantasia obrigatória, e o es-pectáculo de abertura – "A montanha-russa interactiva" – dirigido pelo compositor britâ-nico Tim Steiner.

 Na Mealhada, o Carnaval Luso-Brasileiro abdica, pela primeira vez em 40 anos, de um actor brasileiro como rei dos corsos e promove um desfile trapalhão aberto a toda a população, poupando "30 a 40%" do orçamento total do evento, estimado em 100 mil euros.

 A edição deste ano do Carnaval de Buarcos – Figueira da Foz será a última promovida pela Câmara Municipal, passando em 2016 a ser organizado por uma comissão de festas.

 Em Cabanas de Viriato, concelho de Carregal do Sal, no distrito de Viseu, forasteiros e cabeçudos vão dançando ao longo de três dias a tradicional “dança dos cús”, ao som da valsa da Filarmónica.

 Em Canas de Senhorim (Nelas, Viseu), os bairros rivais Paço e Rossio mostram nas ruas da vila toda a sua criatividade em desfiles desde ontem, domingo, até terça-feira e em Lazarim (Lamego, Viseu) máscaras carrancudas de madeira, esculpidas por artesãos da aldeia, são nesta época utilizadas por jovens de ambos os sexos, os caretos e as senhorinhas.

 Na Guarda, o ponto alto é o espectáculo do julgamento do galo, denominado "Galo do Entrudo" e a actuação do humorista Herman José.

 Em Leiria, os temas vão da “Folia & Algazarra na Amazónia” de Alcobaça, até ao “Toma Afecto” das Caldas da Rainha, passando pelos “Largarem Barques e Remes da Nazaré.

 Mais de 55 mil pessoas são esperadas em Loures para mais uma edição do Carnaval saloio, que tem o cinema como pano de fundo, de Hollywood a Portugal, e que este ano tem DJ após os desfiles.

 Em Torres Vedras, o tema é o “amor”: deitados numa cama gigante, bonecos representando Passos Coelho e Paulo Portas fazem o “casal perfeito” deste Carnaval, a que se junta António Costa, todos com óculos de três dimensões, a ver outras realidades diferentes das do país.

A chanceler alemã Angela Merkel é também uma das convidadas para os corsos que decorrem entre sábado e terça-feira.

 Em Sines, no distrito de Setúbal, cerca de duas mil pessoas estão inscritas para participar nos desfiles, que decorrem entre domingo e terça-feira, quando duas escolas de samba e mais de 30 grupos foliões desfilam com temas relacionados com a actualidade, passando pela política nacional e a "crítica local".

 Em Loulé (distrito de Faro), o corso tem como tema o desporto e vai ser animado por 800 figurantes, conta com 10 grupos de animação que representam vários clubes e colectividades do concelho, quatro escolas de samba, bai-larinas, cabeludos e banda a tocar em directo.

 No Carnaval da Madeira, este ano subordinado ao tema "Magia da Luz", 1.143 pessoas oriundas de várias instituições participaram sábado no cortejo alegórico que é um dos pontos altos da quadra.

 Na terça-feira, o destaque vai para o Cortejo Trapalhão, considerado o que melhor espelha o espírito carnavalesco dos madeirenses e onde a participação é livre.

 Nos Açores, em Angra do Heroísmo, na Terceira, decorreu no domingo a “Tourada dos Estudantes”, em que os estudantes do secundário puderam criticar a sociedade.

 Em Ponta Delgada (São Miguel), a ‘batalha das limas’ leva equipas que se transportam em camiões a atirarem uns aos outros sacos de plástico com água e limas quando se cruzarem, na terça-feira, na Avenida Marginal.

 

* Guiné Equatorial  financia com três milhões de euros Escola de samba

do Rio de Janeiro

 

 A escola de samba Beija-Flor, do Rio de Janeiro, alega, em nota oficial, que o patrocínio da Guiné Equatorial para o Carnaval deste ano tem um propósito somente cultural, reagindo às críticas de apoio do regime ditatorial.

 A Guiné Equatorial apoiou em 10 milhões de reais (três milhões de euros) a marcha da escola, que este ano dedica o seu tema àquele país, governado por uma ditadura, considerada por várias organizações de direitos humanos como uma das mais violentas do continente africano.

O apoio do regime de Teodoro Obiang, alega a Beija-flor, "tem viés estritamente cultural e não aborda o formato de governo do país", que aderiu em 2014 à Comuni-dade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

 No desfile da madrugada de segunda, o embaixador da Guiné Equatorial em Brasília, Benigno-Pedro Matute Tang, irá participar no último carro alegórico da escola e o vice-presidente do país, Teodoro Obiang Mangue (conhecido como Teodorín e filho do Presidente, Teodoro Obiang), é esperado em um camarote na avenida Marquês de Sapucaí, com outras cerca de 40 autoridades do governo.

 A Beija-Flor é a escola de samba favorita do regime, como indica o facto de o Presidente Obiang reservar, des-de há quatro anos, um camarote em frente à agremiação para assistir aos desfiles do Grupo Especial, a elite do Carnaval do Rio de Janeiro.

 Segundo o jornal carioca ‘O Globo’, o ditador costuma ver o espectáculo sentado numa poltrona de couro, especialmente colocada para o efeito. O espaço já foi todo revestido em tecido vermelho e ostentaria até uma foto do presidente. Obiang ainda não confirmou presença este ano.

 Em 2013, a Beija-Flor fez uma apresentação para a elite da Guiné Equatorial numa festa no país africano e as negociações para o patrocínio ao enredo deste ano teriam começado ali.

 No Brasil, a escola de samba – 12 vezes campeã do Carnaval – é ela própria alvo de po-lémicas.

 A agremiação foi criada e sustentada pela família de Anísio Abrahão David, um dos líderes da criminalidade no Rio de Janeiro. Além de controlar jogos ilegais e grupos de extermínio em cidades po-bres em redor da capital, a família já tem ramificações na política e na Justiça.

 O patrocínio “é um dinheiro que traz a interrogação de ter vindo com sangue. A simples dúvida já seria mais do que suficiente para recusar. Mas não é da tradição das escolas, até pela origem da direcção delas, muitos deles ligados ao crime. Você acaba por não poder exigir muito de pessoas como essas, que não vão ter a ética de fiscalizar a origem das verbas", disse ao Globo a juíza Denise Frossard, que, nos anos 1990, se notabilizou por mandar prender os principais líderes criminais no Rio de Janeiro, entre eles o patrono da Beija-Flor.

O patrocínio também foi alvo de críticas de organizações de direitos humanos. A ONG SOS Brasil Racismo, que promove acções de igualdade racial, repudiou o apoio do go-verno da Guiné Equatorial.

 "Nas questões de direitos humanos não há o que titubear, Teodoro Obiang é o ditador mais antigo num país africano e, apesar das riquezas e recursos da Guiné Equatorial, mais da metade de seus habitantes vivem na extrema miséria e sob um regime de terror", refere a organização.