De equipamento de hospital, ginástica a equipamento de de pista nos aeroportos Tony Pestana já desenhou e fez quase tudo

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 Muitas vezes questiona-mo-nos de onde é que vem o material que utilizamos todos os dias. Cadeiras de escritório, mesas, camas de hospital a equipamento utilizado nos aeroportos. Na África do Sul há décadas, António Pestana é uma dessas fontes de bens que utilizamos no quotidiano sem pensarmos de onde vêm.

 Desenhou à mão as primeiras escadas telescópicas para acesso aos aviões na África do Sul e literalmente inventou uma roda de borracha maciça feita de duas metades.

 O Século sentou-se com Tony Pestana, um homem calmo e de poucas palavras, para conversar sobre o seu trabalho na África do Sul.

 Michael Gillbee – Dê-nos um pouco do seu historial.

 António Pestana – Bem, eu nasci em Santa Luzia, Funchal. Andei na Escola Primária até à quarta classe e depois no Liceu até ao terceiro ano. Com 12 anos de idade, os meus pais emigraram para a África do Sul e eu vim com eles, primeiro para a Cidade do Cabo e mais tarde para Joanesburgo.

 MG – Em que ano é que veio para a África do Sul?

 AP – 1950.

 MG – Foi na altura das maiores levas de emigração em que as pessoas saiam de Portugal para ir para a Venezuela ou para a África do Sul.

 AP – Exactamente. Conforme se tinham pessoas de família nesses lugares, era natural que iam ter com um tio ou com um pai.

 MG – E o Tony tinha cá família já ou não?

 AP – Eu já tinha família, uma avó na Cidade do Cabo, o meu avô é que começou o “Dock Caffé”. E isso também faz parte da história e assim por correspondência entre os meus pais e eles, viemos para a África do Sul.

 O meu pai foi trabalhar para a Scaw Metals, como serralheiro mecânico que era o seu ofício no Funchal e assim fomos para a escola aqui e aqui estou. A escola fila em Joanesburgo.

 MG – E a sua carreia profissional como é que começou?

 AP – O meu pai já conhecia algumas coisas. Comecei a trabalhar na empresa Latin Engineering, cinco anos com o meu amigo Manny dos Santos. E depois fui trabalhar para uma equipa suíça, Nova Engineering.

 MG – Portanto, quando começou a sua carreira profissional, foi sempre dentro do ramo da metalomecânica?

 AP – Sempre, sempre.

 MG – Trabalhou nas máqui-nas, como desenhador, o que é que fazia?

 AP – Naquele tempo tinha que se fazer tudo. Eu estudava durante a noite no Technical College para o desenho e para o curso de engenharia mecânica que foram cinco anos. Em prática nas máquinas, em moldes, nos tornos, nas fresas, nas máquinas rectificadoras e na secção do desenho também.

 MG – Concluiu o curso e quando é que fundou a sua própria empresa?

 AP – Fundei a minha fábrica, Tempo Engineering, que foi vendida há uns poucos de anos. Só guardámos a secção do Airport Equipment. Isso foi em 1968.

 Primeiro estive em Booysens Reserve, de lá crescemos de uma maneira exponencial e comprei então o prédio ao lado do Joy Manufacturing em Steeldale. Comprei o prédio chamado Tempo House.

 MG – O que é que o levou a abrir a sua própria empresa?

 AP – Uma visão diferente. Eu via um nicho de mercado e várias oportunidades que ninguém estava a explorar. E para ter tudo, era melhor ter eu. Por exemplo, a minha empresa tinha uma secção de desenho, uma secção de fabrico de ferramentas e de moldes, uma secção separada de fabricação, laboratório de materiais e secção de desenho. Naquele tempo tudo diferenciado para melhorar e facilitar o processo de fabrico.

 MG – Tinha feito várias coisas. Descreva-nos o que fez.

 AP – Fiz equipamentos de ginástica, as barras paralelas, barras duplas e outros equipamentos de ginástica.

 Fui o primeiro a fornecer a Parklane Clinic, fiz as camas de hospital, mesas de operação, tudo o que era tubular e que era preciso dentro de uma clínica.

 Para a empresa Siemens, de baixa voltagem aos de mais alta voltagem, cheguei a fazer mil motores por mês.

 MG – Nessa altura a África do Sul estava sob sanções internacionais. Era portanto difícil arranjar equipamento e coisas de fora.

 AP – Era muito difícil. Era preciso fazer cá. As escolas precisavam do material. Nós, a África do Sul, estávamos a tentar entrar nos Jogos Olímpicos e tínhamos que ter equipamento adequado para trei-nar e competir. Dei resposta a uma grande necessidade.

 Eu sempre vi o que era necessário fazer e que ninguém estava a fazer.

 MG – Podemos dizer que o Tony andou sempre à frente do seu tempo?

 AP – Acho que sim, é difícil… não há ninguém a copiar-nos, mas por outro lado é melhor também. Traz as suas vantagens. Era bom para o meu carácter de pessoa, sempre me trouxe satisfação este tipo de trabalho.

 MG – Surgiu mais tarde, a oportunidade de fazer equipamentos para aeroportos. Como é que lhe apareceu a oportunidade?

 AP – Não me procuraram, mas eu estive sempre atento ao “Tender Board” ou seja a entidade dos concursos públicos aqui na África do Sul e eles é que dizem o que é preciso, digamos. E estava sempre a aparecer equipamento para aeroportos.

 Eu fui ter com o “Tender Board” e submetia os dese-nhos, levava amostras e ficava sempre do agrado do “Ten-der Boar”.

 A partir daí comecei a fazer o equipamento para os aeroportos. Fiz também uma roda especial, de borracha maciça a duas metades que ainda hoje é usada em todos os aeroportos em África e na África do Sul. Ao ser mais baixa, possibilitou o transporte de mais carga nos aeroportos. Ainda a fazemos hoje, centenas delas.

 Fazemos também os tapetes rolantes para as cargas, os carrinhos de transporte para as bagagens, as escadas te-lescópicas.

 É difícil definir todo o equipamento, porque vêm sempre pedidos novos.

 O equipamento de terra, fazemo-lo todo completo.

 Também restauramos os autocarros de transporte de passageiros, portanto tudo o que é equipamento de terra, construído de raiz.

 Acrescentar a essa lista, aqueles tubos enormes, com que os tractores puxam e empurram os aviões. Fazemos para o Boeing 747, 777 e vários outros aviões de grandes dimensões.

 MG – Fornece portanto só Joanesburgo?

 AP – Não, não. Todos os aeroportos na África do Sul e até muitos em África, como no Zimbabwé, Zâmbia, Moçambique. Desde 1968 até hoje.

 MG – Apesar de emigrante muito jovem, sempre foi orgulhosamente português e sempre ligado à Comunidade portuguesa?

 AP – Isso é uma boa pergunta e podia ter muito mais coi-sas se me naturalizasse sul-africano. Mas nunca quis.

 Eu acho que se um burro nasceu numa cavalaria, não é cavalo é sempre burro!

 Nós somos o que somos e eu não quero trocar de maneira nenhuma. Sempre português!

 E muitas vezes com problemas, tinha e devia pedir a nacionalidade sul-africana. Talvez tivesse mais facilidade nos negócios, mas eu ia atrás do que é bom e de produzir o que é necessário e ao melhor preço. Nacionalidade não conta para nada nisso.

 MG – O apartheid para si não fazia sentido. Nas suas empresas, sempre advogou “pessoa certa para o trabalho certo”?

 AP – Exactamente, nem cor nem religião. Nunca fiz distinções de ninguém, em nada.

 MG – Mas sofreu consequências disso?

 AP – Em muitas coisas sofri, quando os inspectores entravam na fábrica, paravam logo esta ou aquela máquina e diziam “este homem não tem direito de trabalhar aqui porque é de outra cor”.

 Eu dizia que sim, abanava com a cabeça que sim e quando eles saiam da porta, eu punha o homem novamente na máquina a trabalhar. Porque dentro da minha fábrica mando eu!

 MG – É dos primeiros compadres da Academia-Mãe do Bacalhau. Ajudou a promover a ginástica na União Portuguesa, entre outras coisas. O que é o levou a es-tar sempre ligado à Comuni-dade portuguesa?

 AP – Quando vim para a África do Sul, os meus pais sempre acompanharam a Associação da Colónia Portuguesa, naquele tempo. E ali, vivia-se os fins-de-semana e tinham-se muitos amigos como o compadre Paulo Santos e Latino Carocho, que eram amigos de casa dos meus pais. A minha irmã casou com o Viriato Carocho, de Águeda.

 A cultura portuguesa, sempre me puxou mais. Fiz sempre questão de não perder o Português e tenho muito orgulho de dizer que o nosso Portugal, a nossa Portugalidade atinge diversas vertentes que ainda não vi noutros povos. Somos talvez completos, universais.

 Estamos por todo o Mundo e gosto dessa diversidade. Não trocava as minhas Quinas por nada! Quero que ponham a bandeira de Portugal por cima do meu caixão no dia que eu morrer.

 MG – O seu trajecto foi sempre em ascendente. Pouco tempo depois de fundar a sua empresa, a Tempo Engineering, fez trabalho para a Siemens.

 AP – A Siemens é uma grande empresa e tem diversas fábricas e muitas secções por todo o Mundo.

 Primeiro fui para Munique, para a sede. Dali mandaram-me para o México e para outras partes do Mundo, onde estavam na mesma fase de progresso da África do Sul na fabricação de tudo o que é eléctrico e electrónica.

 Mandaram-me para a Argentina, Brasil, muitos lugares deste nosso planeta azul! Aprendi muito. O trabalho foi o leme que me guiou os pés. No Japão, aprendi muita coisa de electrónica também.

 MG – E depois, o que é que o levou a parar?

 AP – Como tudo na Vida, nunca vi um homem rico levar o dinheiro atrás do caixão. E há tempo para tudo.

 Chegou a uma altura que achei por bem dar a outros, mesmo que delegar seja difícil ou mesmo que não façam igual a nós, não compensa a vida do homem.

 Na nossa vida temos sempre que ser livres, no meu ver. Se não, somos prisioneiros do trabalho.

 A minha personalidade não admite ser prisioneiro de nada. Eu tenho que estar livre. Agora, para fazer o que eu quero.

 A firma ou o negócio precisa da pessoa que esteja à frente das coisas, que esteja bem. Trabalhar até cair é um retrocesso, porque temos que dar o lugar aos novos.

 Modificações, evoluções, a pessoa tem que estar a par disso, se está sempre só metido dentro de quatro paredes a trabalhar, não cresce, não aprende mais.

 MG – Procurou sempre evoluir e aprender mais?

 AP – Sempre, sempre. Encontra-se tudo nos livros. Eu sou um ávido leitor, sabendo-se o que se quer, procura-se nos livros certos e encontra-se. A Internet é uma excelente ferramenta, mas atenção, não é tudo. Nada supera um livro.

 MG – Olhando para a sociedade em geral. Valorizam-se outras coisas que não as capacidades para fazer o trabalho. O seu sector da metalomecânica tem sofrido bastante. Como é que olha para o futuro?

 AP – É muito difícil, porque hoje é o racismo ao contrário. Uma pessoa, mesmo sendo português e mais apto para o trabalho, serve só para ensinar e depois de terem o que querem descartam as pessoas.

 Está-se a perder a qualidade da manufactura e atenção, vai-se perder ainda muito mais. Até chegar à hora de alguém precisar de nós outra vez.

 MG – Que futuro vaticina à África do Sul?

 AP – Eu acho que hoje temos que dar continuação aonde estamos, logo emigrar para outro lugar é começar do zero outra vez. Penso que se não há oportunidades, temos que criar as oportunidades.

 MG – Nunca pensou voltar para Portugal?

 AP – Eu volto a Portugal várias vezes ao ano, mas eu quero ter o melhor de dois mundos. Tanto lá como cá.

 Nunca vou deixar de ir a Portugal, mas também não quero deixar a África do Sul.    Levo sempre o que tenho para onde eu vou.

 O futuro na África do Sul é difícil de comparar com outras nações. A África do Sul é rica e nós temos que fazer a nossa oportunidade. Talvez fosse pior quando eu cheguei aqui e comecei a trabalhar, hoje ainda há muitas dificuldades. Todos querem, mas não quer dizer que é para todos.

 MG – E como vê o futuro da nossa Comunidade neste país?

 AP – Isso é uma pergunta muito difícil. Temos que trocar o remo. Antigamente eram os clubes e associações, hoje há outras coisas que puxam as pessoas. Não se pode só ir para os clubes, temos que saber que podemos evoluir.

 A Comunidade tem que guardar a portugalidade no coração e andar com os outros. E depois fazendo alguma coisa e mostrando as nossas qualidades, todos dizem logo “aquele é Português”, por causa da maneira de ser e de trabalhar.

 MG – Para quem está a co-meçar na vida, que conse-lhos é que dá aos jovens da Comunidade portuguesa?

 AP – Eu acho que a pessoa tem que fazer alguma coisa aonde está. E depois dali dizer “eu já fiz isto” e aí é mais fácil ir para qualquer parte do Mundo.

 Não se pode ter só estudos e entrar sem experiência. A pessoa tem que mostrar que merece aquilo que anda à procura!

 Homem de estatura baixa mas que nem por isso deixa de impor enorme respeito. De poucas palavras mas de profunda cultura e conhecimento, António Pestana é sem dúvida um dos casos de sucesso português na África do Sul. Agora, já retirado a tempo inteiro, dá a sua experiência e anos de conhecimento no aconselhamento de projectos, técnicas de fabrico, materiais a utilizar e processos mais eficientes.

 Sempre com um sorriso, Pestana é sem dúvida uma fonte positiva na Comunida-de Portuguesa.