Daniela de Abreu jovem advogada de Joanesburgo, ajuda residentes do Lar da Beneficência

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Daniela de Abreu jovem advogada de Joanesburgo, ajuda residentes do Lar da Beneficência

Daniela de Abreu formou-se recentemente em Direito em Joanesburgo e está a concluir o estágio para poder depois fazer os exames de admissão à Ordem dos Advogados. Fluente em Inglês, Português, Afrikaans e Hebraico, a jovem luso-descendente é apaixonada por Direito. De estatura média e de um tom de pele muito claro, tudo aponta para aparência e comportamento de uma “boneca de porcelana.” Mas, ao falar sobre Direito e as causas que a apaixo-nam, como o futebol e a sua ligação ao Sport Lisboa e Benfica, a energia e força sobressaem claramente desta jovem portuguesa.

 Foi na Pastelaria Princesa em Aspen Hills, no Sul de Joanesburgo, que a jovem jurisperita se encontrou com o Século de Joanesburgo para nos explicar a sua ligação e trabalho na Comunidade portuguesa.

 

 Michael Gillbee – Daniela de Abreu, dê-nos um pouco do seu passado. Onde nasceu? Que escolas é que frequentou?

 Daniela de Abreu – Nasci em Joanesburgo, na Clínica Marymount.

 Frequentei a Highveld Primary e depois, no secundário, o The Hill High. Fiz a Matric em 2010 e depois ingressei na Universidade de Joanesburgo, durante quatro anos, para obter a licenciatura em Direito. Porquê o Direito? [suspira] nem sei bem. Penso que foi uma boa ideia na altura e não tenho razões concretas. Apenas pensei que fosse algo que eu gostasse muito de fazer e – como me é provado diariamente – é algo que gosto muito de fazer.

 MG – Portanto, é uma carreira pela qual optou por gosto?

 DA – Sim, adoro. É um privilégio poder fazer o que gosto todos os dias.

 MG – Está no momento presente a completar os “articles”.

 DA – Sim. São dois anos, estou já com 14 meses do processo feito.

 MG – E, depois de completar os “articles” e de fazer o exame à Ordem dos Advogados, quais é que são os seus planos?

 DA – Depois, com esperança, é exercer Direito na Cidade do Cabo. Mas, ainda faltam dez meses para o fim desta etapa. Quando terminar, depois veremos. Quero exercer advocacia, depois é uma questão de ver onde.

 MG – Estaria aberta a ficar em Joanesburgo?

 DA – Sim. Se encontrar o escritório de advogados certo para mim. Gosto muito da fir-ma de advogados onde estou agora, é pequena. Há ainda muito mais que quero fazer.

 MG – Como por exemplo?

 DA – Adoraria começar e chefiar o meu gabinete de Di-reito da Familia. E de seguir com essa vertente como carreira.

 MG – Direito da Familia é algo em que a Daniela se quer especializar?

 DA – É onde estou neste momento, é neste departamento que trabalho. Faço um pouco de tudo, mas é predominantemente o Direito da Família em que trabalho. É aquilo que sei e gosto muito.

 MG – E porquê essa vertente do Direito?

 DA – Não sei, acredito que são e que é por causa das crianças. Eu sempre disse, que se não fosse advogada seria professora. As crianças não têm uma voz e eu prefiro ser essa voz, ao invés de saber que ficam “presas” em lugares e famílias que as maltratam.

 MG – Que tipo de advogada é? Agressiva? Assertiva? Diplomata?

 DA – [solta gargalhadas] Em tribunal não faço jus ao meu aspecto magro, pele branca e aparência frágil! Não diria que sou uma leoa, mas definitivamente, comigo as aparências iludem em tribunal. Gosto de apanhar os advogados de oposição desprevenidos.

 MG – Sabemos que ajuda no Lar da Rainha Santa Isabel da Sociedade Portuguesa de Beneficência. Porque é que o faz?

 DA – Nós, na nossa firma “Taitz & Skikne”, sentimos que deveríamos estar mais envolvidos e imbuídos do espírito comunitário. E é uma boa organização a Sociedade Portuguesa de Beneficência e sei que têm dificuldades legais. E, como sabemos, os advogados são caros. Assim, decidimos ajudar sempre que necessário e fazer o que for preciso.

 MG – A firma onde está, é portuguesa? Os sócios são portugueses?

 DA – Não. É apenas de um sócio e que não é português.

 MG – No Lar, fazem tudo pro bono (grátis)?

 DA – [afirma] sim! Tirando algumas despesas legais, co-mo custos acrescidos que a nossa firma tenha que pagar a terceiros, a SPB ou os residentes do Lar pagam e pronto. Mas os custos resumem-se a isso. Escrituras, idas a tribunal, tudo o que envolve os serviços legais não cobramos.

 MG – Especificamente, no Lar, que trabalho é que levam a cabo?

 DA – O mais recente foi uma ordem de despejo de um senhor que estava a residir no Lar, que há cinco meses não pagava e se recusava a pagar. Como tal, o Lar pediu-nos para começarmos o processo da ordem de despejo. E agora, estamos a tratar das contas em atraso dos residentes que podem pagar e que não estão a pagar. Portanto, cobranças.

 MG – É um envolvimento a longo prazo com a SPB?

 DA – Sim. É o plano. É prestar assistência e aconselhamento legal sempre que seja necessário. Vão sempre precisar de algo e é melhor fazerem-se as coisas “a bem” e pelos processos legais certos do que perder tempo, dinheiro e incorrer em enganos.

 MG – O seu escritório lida também com testamentos, partilhas, funerais, certidões de óbito?

 DA – Sim. Não são casos frequentes, mas fazemos quando necessário. É algo raro. A nossa firma faz litígio em todos os campos do Direito, portanto, seja que caso for desde violência doméstica, despejos, heranças, o que for que necessitarem e nos dêem para tratar, nós fazemo-lo.

 MG – O facto de falar Português ajuda no trato com os residentes do Lar, ajuda? Facilita-lhe muito mais a vida?

 DA – Claro que sim! O que fazemos, como trabalhamos, mantemos o cliente ao corrente de tudo. Portanto, todos e quaisquer desenvolvimentos legais, os clientes sejam os residentes do Lar ou a SPB em si, são logo informados e postos a par de tudo. Ajuda muito falar em Português, porque basta fazer um telefonema e explicar tudo.

 MG – Qual é a sua opinião da forma como o Direito é ensinado na África do Sul? E será fácil para si exercer Direito fora do país?

 DA – [suspira] É uma pergunta difícil de responder. Porque, em primeiro lugar, cada país tem as suas leis. Na África do Sul temos um Dereito muito bom, muito próximo da Constituição, que é a melhor do Mundo.

 Para ir para um país como Inglaterra, basta fazer-se um curso de equivalências e um estágio. Já para os Estados Unidos da América, é outro caso. Eles têm a Declaração de Independência, não é uma constituição. É difícil exercer Direito lá, a partir de um país como o nosso aqui. A implementação não é grande coisa, mas a Lei em si é muito boa na África do Sul

 MG – Na Universidade, a sua experiência foi boa? Não hou-ve baixa nos níveis de exigência?

 DA – Sim. Muito boa. Em termos de qualidade, estamos no topo. Muitos dos professores são advogados que estão no activo a exercer Direito. Penso que aí, é o melhor aspecto do curso, porque os professores sabem a prática.

 É muito giro e muito bom ensinar de um livro teórico, mas é preciso dar a parte pratica. Eu estudei durante quatro anos e quando entrei para um escritório de advogados, é completamente diferente das salas de aula. Nunca é igual à teoria dos livros.

 MG – No mercado de trabalho, com o BEE e Acções Afirmativas, a Daniela está a passar ou passou por dificuldades para encontrar um escritório que a aceitasse? Por causa da cor de pele, género?

 DA – É muito difícil, não vou mentir. Quando comecei a procurar por uma firma para fazer o meu estágio e escre-ver os “articles”, foi bastante difícil. As firmas têm um nú-mero de quotas que têm que respeitar, quer de alunos de cor branca, negra, mista, indiana, o que seja… e portanto, é muito difícil sim!

 Tive sorte, porque o gabinete onde estou é relativamente pequeno e foi fácil aceitarem-me. Mas as grandes empresas e de advocacia é mais difícil entrar. Especialmente o facto de ser mulher, como disse, eu sou de voz baixa e pensam “ah, é uma mulher…” em particular quando é contra um advogado. Porque possuem a mentalidade de que são melhores do que nós. Surpreendemo-los em tribunal. Não faz sentido ser arrogante, tem que se ter certeza do caso a apresentar em tribunal. Nós sós valemos pela forma como argumentamos e defendemos os nossos clientes e isso, é caso a caso!

 MG – Portanto, nas firmas mais pequenas, será mais fácil de ingressar no mercado de trabalho?

 DA – Sim. E as firmas maiores, os escritórios maiores só costumam aceitar estudantes que sejam Cum Laude [com distinções]. Para além das quotas de alunos que são obrigados a aceitar!

 MG – Planos dpara o futuro?

 DA – Quero trabalhar e exercer advocacia até ao dia de me reformar. Eu sei, há muita gente que diz isso, mas eu não acordo e penso “quem me dera estar a fazer outra coisa”. Eu adoro trabalhar e estar a fazer o que faço.

 Quero exercer advocacia, quero – quem sabe – abrir o meu escritório de advogados. Mas quero ficar com o Direito da Família, proteger as crianças, tratar de divórcios e esse aspecto do Direito. Não quero ser apenas uma advogada famosa que ganha montes de dinheiro…[suspira e pára] quero ajudar pessoas.

 MG – Vem de uma família com fortes valores e exem-plos. Isso ajuda-a na sua carreira? E na tendência que tem para o Direito da Família?

 DA – [sorri]  Sim, sem dúvida que sim! Sempre fui educada a que se podermos fazer bem, fazemos. Se podemos conseguir 100% vamos a isso! Se pudemos ajudar os outros, vamos ajudar! Basta escutar, basta às vezes um abraço. Eu e a minha irmã fomos criadas assim!

 MG – A Daniela fala Português, Inglês, Afrikaans e Hebraico?

 DA – [sorri e ajeita o cabelo] sim. Bem, tenho os meus dias, mas tento sempre aprender mais e evoluir. E ajuda muito na minha profissão. O proprietário do escritório onde trabalho é judeu e tem muitos clientes judeus, falar Hebraico ajuda muito nesse aspecto. Graças à minha mãe, que me ensinou! E ao meu pai que me ensinou Português.

 Em tribunal, fala-se muito Afrikaans e assim é sempre bom porque em qualquer ramo ou aspecto da vida, conseguimos comunicar no mesmo nível dos outros.

 MG – Que conselhos é que pode dar aos jovens da nossa Comunidade?

 DA – Trabalhem duro. A Matric é um ano importante, estudem muito e tirem as melhores notas.

 Na Faculdade, a mesma coi-sa. Trabalhem duro, porque vai facilitar-vos a vida na entrada do mercado. Gostem do que façam, a vida é demasiado curta para perder tempo com o que não gostamos de fazer!

Daniela de Abreu é uma jovem advogada no parapeito do futuro. A meses de fazer os exames requeridos à Ordem dos Advogados na África do Sul, com a sua ambição e metodologia de trabalho, antevê-se para a jovem portuguesa um futuro no Direito que será por certo muito risonho, seja na África do Sul, seja noutro ponto do planeta.

 De um tom de voz muito doce e um brilho intenso no olhar, caracterizam-na também o sorriso aberto e a afabilidade. Os olhos grandes amendoados captam o interlocutor e fazem com que Daniela passe o seu ponto de vista e faça valer a sua opinião mais facilmente.

 Em nada, a sua estatura média e esbelta faz antever uma “fera” em tribunal, pois bate-se e argumenta pelos seus clientes de uma forma que surpreende e apanha desprevenidos os outros advogados.

 Com o trabalho feito em prol da Comunidade Portuguesa, denota uma paixão não só pela jurisprudência e pela Justiça, mas também pelas suas raízes familiares.

 Será, por certo, uma das estrelas brilhantes do País e da Comunidade.