Cuidar de idosos e deficientes não é para todos

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Cuidar de idosos e deficientes não é para todos

Já em tempos o referimos e voltamos a repeti-lo, porque não nos cansamos de trazer a público casos como os que infelizmente vão acontecendo, na maior parte das vezes praticados no silêncio, e pelo seu significado não deixam de ser repugnantes, e pela sua natureza merecem e devem ser denunciados, se é que ainda vamos a tempo de evitar alguns que nesse aspecto possam vir a ocorrer.

 Hoje, um velho é para muitos, especialmente na maioria dos jovens, sinónimo de rabugice, retrato de ignorância e personificação de reumatismo, esquecendo-se que no amanhã estarão em igualdade de circunstâncias, a enfrentar esse fenómeno – coisa que modifica os corpos, diminui os sentidos e incapacidade, o poder de acção – como se o idoso fosse rabugento por prazer, ignorante por natureza e reumático por tradição, para além de ser rotulado de moralista de feira, ou de propagandista de ideias que cheiram a naftalina.

 Ao contrário o idoso, ao notar que com o avançar da idade, a vida declinar e a consciência de um fim próximo, e fazer em termos comparativos, o vacilar entre um passado risonho e um provir tenebroso e incerto, entre a saudade do que foi e o medo do que há-de ser, imaginando em reflexão, de olhos fechado muitas ve-zes essa silhueta curvada e trôpega, recordando no seu cismar interrogativo, a lágrima furtiva e o simulacro de um  sorriso fingindo uma esperança que já não existe.

 O peso da idade obriga a que se chegue a andar pelo mundo, de mão em mão, sina de alguns que não têm outro destino senão o rodopiarem em torno de si mesmos, ou ao re-dor de outros, como se a sina assumida não fosse o destino que lhes dirige a própria vida.

 Todos sem excepção andamos por aí rodopiando atrás de alguém, assumindo situações que por vezes não são as melhores, usando de privilégios não válidos a essas mesmas situações, jorrando palavreado por vezes incógnito por desconhecer a origem do frasear sem nexo, quando o nexo subsiste por caridade de privilégio.

 Lutamos ingenuamente contra obstáculos que existem mais passivos de nos causarem mazelas, vamos em frente como se fosse o ruir de um sonambulismo pincelado a tinta negra, pulando de arrelias quando o sonho não se realiza de acordo com  as directrizes dirigem o bom  senso existente em cada um de nós.

 Somos, em suma, um pedaço de nada que anda girando sem acontecer nada, pedaços de carne e espírito à procura de uma meta nunca acontecida porque não temos força suficiente para encarar a finalização a que nos julgamos com direito, divagando quantas vezes em pensamentos absurdos e deambulando imparáveis por estranhas situações que não são nossas, que são de todos e não são de ninguém, nascem e morrem  como por encanto, navegando em mar revolto, oriundo de raízes no nosso lado português, e não o sendo se desconhecem as origens, empurrando o navegador para um destino incerto.

 Chegando ao ponto de com a vida moderna passar a ser um estorvo para os próprios filhos e netos, especialmente daqueles que sobrepõem os interesses pessoais aos deveres morais, o idoso é por força dessas circunstâncias atirado para um estilo de vida adverso ao que imaginaria, acabando por ir parar a instituições de solidariedade social que lhes proporcione na sua fase terminal, um carinho que talvez não lhe fosse dispensado no seu próprio seio familiar, daí tirarmos o chapéu em sinal de respectiva vénia, a quem em lares de terceira idade se dedica a essa nobre missão.

 Se há quem mereça uma remuneração mais compatível com as suas funções, ou ser recompensado por essas atribuições, e ao contrário, talvez porque não é apreciado o seu real valor pelo que fazem, ignorando-se por vezes as suas qualidades em dedicação e vocação à caridade, são as pessoas que exercem a sua actividade em lares de terceira idade tomando conta de idosos, ou instituições que pela sua natureza albergam deficientes, tratando de seres humanos que não tiveram culpa de vir ao mundo, e cuja falta de faculdades os impede fazer uma vida normal, e por força das circunstâncias dependerem de pessoas que os ajudem em toda a sua vida.

 Quanto a nós, essas pessoas deveriam em certos casos ser pagas a peso de ouro, já que se sujeitam a enfrentar situações, que certamente muitos dos que por cima ainda as criticam, classificando-as injustamente de desumanas, quando se estivessem no seu lugar, talvez nunca por nunca, mesmo tratando-se de progenitores, estariam   dispostas a passar por elas, nem sequer ter paciência para aturar as suas rabugices, agravadas com o avançar da idade, como relacionadas com isso infelizmente tantos casos vão acontecendo no dia-a-dia por esse mundo fora.

 É por isso que nos deve merecer toda a admiração, respeito e consideração, quem com paciência e devoção trata com tanto carinho quem já depende de alguém para se poder manobrar e os ajude em todas as tarefas diárias, desde necessidades fisiológicas, banhos, mudar de roupa e inclusive, quando de si a imobilidade se apodera, dar-lhe a própria comida e bebida.na boca.

 Quando um filho chega ao ponto de como infelizmente já aconteceu na nossa própria comunidade, digamos em várias circunstâncias, permitir que quem lhe deu o ser, ou mesmo irmãos carnais, vão para a rua estender a mão à caridade, ou sujeitando-se a fazer companhia aos sem-abrigo, dormindo ao relento em qualquer lugar que os abrigue pelo menos do frio no inverno, e pelo desprezo a que foram votados, a mendigar alguma comida para não ir dormir de barriga vazia, não se importando mais de si, passe meses ou até em certos casos anos sem o visitar, nem se inteirar do seu estado de saúde, fazendo de conta que para si esse familiar deixou praticamente de existir, é na verdade difícil de aceitar.

 E quando esse necessitado está internado em instituição portuguesa, ainda vai tendo quem fale consigo, quem o atenda nas suas pretensões e o aconselhe em várias situações, do mal-o-menos, mas agora aqueles que permanecem em instituições sul-africanas, onde só se fala inglês e africanse, e na maioria dos casos esses nossos idosos não dominarem essas línguas, muitos deles já para aqui vieram de certa idade, não tendo por isso aqui frequentado no mínimo o ensino primário, o seu sofrimento deve ser redobrado, por não se poderem fazer compreender, e certamente por isso em certo ponto deitados à margem, e até quem sabe, por vezes ameaçados de não os aborrecerem, e sabe-se lá com que amargura deixam de se queixar para assim evitar serem molestados.

 Casos como este de fazer ar-repiar, chegou a acontecer com um certo idoso da nossa comunidade, internado num desses lares, em Pretória, talvez devido à sua avançada idade até já deve ter falecido, que quando lhe era preparada uma visita com lanche pelos Lusíadas, manifestava em lamentações as dificuldades que passava, desde o desprezo da própria família, valendo-lhe, para evitar morrer atrás de uma parede, ou prostrado numa valeta, a pequena pensão que pagava nesse modesto lar, isto a juntar a outros casos que chegaram a acontecer, como o de um filho que meteu seu pai no carro e o foi deixar sozinho debaixo de uma ponte a caminho de Witbank, e outro que depois de internar o pai em certo lar de idosos deixou praticamente de o visitar, e quando muito doente o informaram para o vir visitar quanto antes, dado o seu débil estado de saúde apontar estar para breve o seu fim , além de não ligar ao que lhe disseram, ter o desplante de quando depois lhe darem a notícia do seu falecimento, responder, “e agora o que é que vamos fazer ao velho?”.

 Irmãos que deixaram de se visitar em anos sucessivos, diremos até à morte de um deles, em vários anos e até falecer, a sofrer de doença que o impossibilitava de poder trabalhar e angariar os meios para sua subsistência, vendo-se obrigado a recorrer a certa instituição de solidariedade, que lhe atribuiu pelo menos para ajuda dos muitos medi-camentos que tomava diariamente, um donativo mensal, com variadas idas ao hospital quando se sentia mais aflito, e pelo que ia referindo se sentia sozinho e desamparado, considerando esse donativo que anualmente ia sendo substancialmente aumentado em cada ano, como uma bênção para as suas necessidades, isto entre outros variados casos que conhecemos, e para não deixar mais indignados os que repudiam este estado de coisas, evitamos de os referir. 

 Será muito triste e até um peso de consciência, pesadelo que por vezes fica para toda a vida, ver um familiar a pedir perla rua, ou a necessitar de premente auxílio, e quem o poderia ajudar teimar em manter um capricho, que por vezes não passa de orgu-lho pessoal, e não saber perdoar, alheando-se ao infortú-nio, se for o caso, de quem não teve culpa de cair naquela desgraça, esquecendo-se quem assim procede do provérbio muito certo e em voga, “filho és, pai serás, conforme fizeres assim acharás” e outro que diz “não te rias do mal do vizinho, porque o teu vem a caminho”.