Crise atinge mais os jovens emigrantes portugueses em França

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França

FrançaO impacto da crise económica na comunidade portuguesa em França “é sobretudo entre os novos emigrantes”, mais jovens, afirmou em Paris a economista Cristina Semblano, da Caixa Geral de Depósitos (CGD).

Os efeitos da crise não são uniformes dentro da comunidade portuguesa, salienta a economista, que constata diferenças entre os emigrantes mais jovens, com padrões de consumo “franceses”, e a primeira geração dos portugueses, “historicamente habituada às privações e com uma capacidade de poupança enorme”.
 Cristina Semblano, responsável de Estudos e Planeamento da CGD em França, sublinha que a comunidade portuguesa tem, no entanto, características que lhe permitiram encaixar melhor a crise.

 Prova disso é que, em 2009, a CGD “registou um aumento sensível tanto de captação de poupança como de distribuição de crédito, um paradoxo num ano que foi considerado o mais recessivo em França desde a Segunda Guerra Mundial” e em que a banca francesa diminuiu os créditos às empresas e ao consumo.
 Uma explicação para isso é “a colaboração estreita da CGD com os seus clientes”, nota Cristina Semblano. Outro fator é a pequena dimensão da maioria dos clientes empresa da Caixa em França, ou seja, de unidades que têm mais capacidade de adaptação.
 Cristina Semblano, ressalvando “não falar em nome da CGD mas como economista”, identifica diferentes “franjas” vulneráveis da comunidade portuguesa: os “novos emigrantes” do trabalho precário e os jovens quadros “em busca de uma saída”.

 “Há um surto constante de emigração portuguesa para França. Chegam todos os dias para trabalhar na construção civil”, diz a economista.
 Este grupo tem “uma grande vulnerabilidade inerente ao setor, que sofreu muito com a crise, mas também outra, que é virem para trabalho temporário, o primeiro a ser afetado pela supressão de empregos”.

 Sobre estes “novos emigrantes”, Cristina Semblano nota que “foram uma camada invisível durante muitos anos” em Portugal, que identificava, entre outros fatores da sua modernização, o facto de ter passado a ser “um país de imigração e não de emigração”.
 No entanto, “este surto constante não é de hoje, é de pelo menos há uma década, para o Luxemburgo, Mónaco, França, Inglaterra”, diz Cristina Semblano.

 A fragilidade dos novos emigrantes portugueses é que “aliam a falta de qualificação à falta do domínio da língua e que, numa época de crise internacional, vêm para um país onde há uma crise de emprego”, sublinha.
 Outra franja é dos jovens quadros portugueses, “muitas vezes detentores de cursos superiores, mas que estão a trabalhar na Europa em empregos precários”.
 Cristina Sembalno identifica jovens “que já tiveram um pri-meiro emprego, que têm prestações de crédito à habitação, por exemplo, e que vêm cá para fora para poder pagá-las”.

“Os estratos mais idosos da população (portuguesa) também sofrem com a crise, mas têm fatores de amortecimento”, prossegue.
 “Se aliarmos os hábitos de privação, os padrões de consumo diferentes e a grande capacidade de aforro, faz-nos dizer que os efeitos da crise relativamente a essa população são menores”, conclui Cristina Semblano, recordando, porém, “que há situações difíceis”.