Corrida ao ouro

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Corrida ao ouro

Corrida ao ouroDesde o início da crise económica que o mundo vive actualmente e que levou o pânico aos mercados financeiros, o ouro já valorizou 500% e o seu preço não pára de subir. A barreira dos 2.000 dólares por onça pode mesmo estar próxima de ser galgada.

  Nos últimos 12 meses, o preço da onça de ouro já aumentou mais de 45% e só nos últimos 30 dias a subida foi superior a 12%. No início de Julho, a sua cotação flutuava em torno dos 1.500 dólares a onça.
  Na passada sexta-feira, o ouro atingiu um novo preço recorde ao ultrapassar os 1.850 dólares por onça na praça de Hong Kong, patamar alcançado na sequência de uma quinta-feira negra para as bolsas mundiais, que registaram quedas a pique.

 Procurado, tanto por governos como por particulares, como refúgio para a preservação de activos, já que tanto a cotação das acções como o valor das moedas permanecem instáveis, o ouro reganhou o seu papel de trampolim para o próximo ciclo económico mundial.

  Até lá – quando os investidores voltarem a reverter o ouro em dinheiro e a procura do metal amarelo começar a cair – há que ultrapassar os actuais receios sobre o futuro da situação económica norte-americana, anular os temores de uma estagnação nos países desenvolvidos e as consequentes repercussões negativas no andamento da economia mundial, assistir-se à revalorização dos fundos de pensões, à subida do valor das acções nas Bolsas, à estabilização das dívidas públicas e à inversão do estado de recessão em nova fase de crescimento económico.

  Quando é que isso irá acontecer? Não se sabe. A convicção é de que a crise está instalada e está para durar.
  Por isso, o ouro ganhou a aposta como aplicação segura e como protecção eficaz para escapar às ameaças inflacionistas e à volatilidade dos mercados.
  É um facto que a procura de ouro no 2º trimestre deste ano foi de 919,8 toneladas equivalendo a 44,5 biliões de dólares, o segundo valor mais alto a nível trimestral de que há registo.

  Os analistas dão para esta tendência as seguintes explicações: o crescimento da procura de ouro para joalharia e investimento sobretudo por parte da Índia e da China, que averbaram crescimentos anualizados de 38% e 25% respectivamente no segundo trimestre; a realocação de investimentos por parte de fundos e investidores para o ouro como activo de refúgio; e os planos de compra de ouro por parte de bancos centrais sobretudo dos países emergentes como política de diversificação das suas reservas.

  Não foi injustificadamente que, perante as incertezas do panorama económico mundial, o governo da India se antecipou e procedeu à compra, em Novembro de 2009, ao Fundo Monetário Internacional de 200 toneladas de ouro, a maior quantidade negociada nos últimos 30 anos. Foi um bom negócio para os indianos, porque desde a transacção o preço aumentou mais do dobro.

 Entretanto, com esta situação, quem ganha mais é a China, que lidera actualmente a lista dos principais países produtores de ouro. Só no primeiro trimestre do ano passado – últimos dados conhecidos -, a produção chinesa de ouro atingiu as 160 toneladas, o que significa, em termos anuais, um aumento de 8,7%.
  Para satisfazer a procura, dado que os próprios chineses estão a investir na compra de barras de ouro, o governo de Pequim autorizou a abertura de novas minas e o aumento de produção nas mais antigas, através da modernização dos equipamentos.

  Quanto à África do Sul, que foi ao longo do século XX e até 2006 o maior produtor mundial de ouro, o país caíu para a quarta posição, a seguir à  Austrália e aos Estados Unidos. Depois das fantásticas 600 toneladas anuais na década de 70, a produção sul-africana caíu substancialmente, devido a problemas laborais e ao esgotamento das reservas na maioria das minas, tendo-se situado nas 205 toneladas em 2009, contra 218 toneladas no ano anterior. Daí que, para equilibrar a produção, estejam a ser recicladas as montanhas a céu aberto de desperdícios oriundos das galerias das minas, acumulados ao longo de décadas em redor de Joanesburgo e que constituíam um dos ex-libris da cidade.

  A África do Sul, que se mantem como o principal produtor mundial de platina, manganês, titânio, crómio, zircónio e vanádio, detem agora pouco mais de 10 por cento da produção mundial de ouro, sendo ainda sua a mina mais profunda do mundo, a do Western Deep, em Gauteng, onde se chega a minerar ouro a mais de 3,6 quilómetros de profundidade.
  Com a fraqueza das Bolsas, penalizadas pelo receio em torno do crescimento da economia global, o ouro acumula ganhos excepcionalmente significativos.
 Ganhos desta dimensão eram impensáveis até há 40 anos, quando vigorava o padrão ouro e o Governo dos Estados Unidos é que determinava o valor de um dólar em onças de ouro.
  No disparar do preço do ouro teve um papel muito importante o então presidente da França, Charles de Gaulle.
  Até 1933, uma onça de ouro valia 20,67 dólares e de 1933 até 1971 passou a valer 35 dólares. Nesse ano, o presidente dos Estados Uni-dos, Richard Nixon, viu-se forçado a acabar com o padrão ouro: primeiro porque o dólar estava sobrevalorizado relativamente a outras moedas e depois porque os países estrangeiros podiam comprar o ouro americano a preços muito baixos.

  Assim, o ouro voltou a oscilar de acordo com o mercado logo que De Gaulle anunciou que pretendia trocar todas as reservas de dólares que a França tinha por ouro norte-americano, e as reservas de ouro dos Estados Unidos caíram drastricamente nessa década.

  Depois, no âmbito das regras do mercado, o valor do ouro subiu em períodos de turbulência política e desceu em períodos de calmaria.
  O ouro subiu seis vezes durante as crises do petróleo, em 1973 e 1975, subiu novamente em 1979 com a revolução que derrubou o Xá do Irão, caíu entre 1980 e 2000 com a extinção do bloco soviético e o fim da guerra fria, e voltou a subir após o ataque de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos.

  Em tempos de incerteza, quando o curso dos indicadores económicos se apresenta imprevisivel, os investidores viram-se para o ouro. Compra-o quem tem dinheiro e vende-o quem está em dificuldades financeiras. Há sempre quem ganhe com as crises…
  Mas, atenção, comprar ouro é uma salvaguarda em caso de crise muito grave, mas é um investimento sem rendimento. Como toda a gente deve saber, os ganhos ou perdas dependem da diferença entre o valor de venda e aquisição definidos pelos mercados.