Conferência Pensar Global regista intervenções do público com ideias e propostas visando o futuro

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Conferência Pensar Global regista intervenções do público com ideias e propostas visando o futuro

Na conferência “Comunidades – Pensar Global”, que se realizou na manhã de anteontem, sábado, na sala Oleander no Sandton Sun, a Mesa que presidiu aos trabalhos incluiu a encarregada de Negócios da Embaixada de Portugal na África do Sul, dra. Gabriela Soares de Albergaria, a secretária regional da Cultura, Turismo e Transportes da Região Autónoma da Madeira, dra. Conceição Estudante, e o director do Centro das Comunidades Madeirenses, Gonçalo Nuno dos Santos, que apresentou os elementos da Mesa.

  Na sua intervenção, a dra. Conceição Estudante sublinhou que “o mais importante para o futuro é pensar a Comunidade com as novas gerações à nossa volta. Por isso estou aqui para ouvir as vossas sugestões, as vossas propostas. Agradeço que cada pessoa que fale indique no início o seu nome. Iremos anotar as vossas intervenções e fazer uma resenha para, no final, referir as ideias que exijam reflexão para futura implementação”.

PRODUTOS TÓXICOS DA BANCA PORTUGUESA

  A primeira intervenção foi do advogado José Nascimento que focou o problema grave da banca portuguesa que está a levar os emigrantes a retirarem dinheiro dos bancos portugueses na sequência de situações lesivas que têm sido levantadas pela comunicação social.
  Referiu-se ao facto de, por exemplo, entre os seus “clientes – que autorizaram a mencionar os nomes e as res-pectivas quantias – está Pedro Serrão Gomes, analfabeto, homem simples e humilde, que não foi esclarecido pela directora do BCP Millenium, Natércia Gonçalves, que o induziu a colocar as suas poupanças de uma vida inteira, aproximadamente 300.000 euros, num produto tóxico, sem ter sido avisado do risco que estava a correr. No fi-nal, o BCP Millenium informou-o de que não só tinha perdido os 300.000 euros como ainda devida 1 milhão de euros, quando Pedro Serrão Gomes nunca pediu qualquer empréstimo nem sequer entregou qualquer garantia”.
  Outro caso – adiantou o advogado – foi de um estrangeiro, cidadão arménio, a quem o Banco Espírito Santo informou que com um fax tinham sido transferidos da sua con-ta 200.000 dólares para a Tailândia. O homem de negócios arménio por causa do desaparecimento do dinheiro não pôde concretizar um investimento que pretendia fazer no Canadá. Por insistência, tanto do lesado como por pressão do dr. José Nascimento, o dinheiro foi reposto dois anos depois, mas sem juros.
  O dr. José Nascimento solicitou ao “Século” a divulgação do seu conselho jurídico “a pessoas que estejam em situação semelhante é não instituir qualquer acção jurídica a não ser que se esteja na fase de prescrição – 3 anos a partir da data do desaparecimento do dinheiro. Porque uma vez accionada a acção judicial, a banca através das suas equipas de advogados sacodem a água do capote invocando que o assunto seja resolvido pelo Tribunal”.
  É preferível exercer pressão sobre a banca através da comunicação social, expondo os factos, exigindo a res-ponsabilização do banco prevaricador. Outro caso é de um dos seus clientes que, com um fax, viu serem retirados 50.000 euros da sua conta, que foram transferidos para a China.
  Ainda outra situação factual passou-se com a Caixa Ge-ral de Depósitos quando um cliente solicitou a transferência de 64.000 euros da sua conta para outro banco. As instruções iniciais dadas pelo cliente da CGD estavam correctas, mas com acções dilatórias como a exigência de documentos extras, essa simples transferência demorou quase três meses.
  O dr. José Nascimento referiu ainda “coitada da banca portuguesa que fez investimentos nos produtos tóxicos da Islândia, Grécia e do primeiro banco norte-americano a declarar falência, o Lehman Brothers”.
  Que seja do seu conhecimento, o único banco português
que não está envolvido em situações semelhantes é o BANIF/Grupo Financeiro. Esclareceu publicamente que não tem qualquer relacionamento com a Direcção do Ba-nif e não tem conta nesse banco para que ali esteja a be-neficiar a instituição relativamente aos outros bancos portugueses.

COLÉGIO DE ALTA QUALIDADE
PARA ENSINO DE PORTUGUÊS

  Zita dos Passos, viúva do conselheiro das Comunidades Portuguesas Manny dos Passos, apresentou o projecto da criação na África do Sul de um colégio para o ensino da Língua e Cultura Portuguesa em termos de excelência, tal como existe o colégio judaico e o colégio alemão.
  A intervenção sobre a escola foi feita por Carlos Capa-zório que informou a Comunidade que se está a procurar identificar um local geograficamente central para o efeito. No final da exposição sobre o projecto escolar, a Reportagem do “Século de Joanesburgo” perguntou a Zita dos Passos (cel 082 927 2242) que nível de propina tinham em vista. Ela respondeu que seria semelhante ao praticado pelos colégios judaico e alemão: 50.000 randes por cada aluno durante o ano lectivo.
  Em seguida, o nosso Jornal abordou o dr. Rui de Azevedo, coordenador do Ensino de Português na África Austral (Suazilândia, Namíbia, Zimbabwé e África do Sul) e representante do Instituto Camões, sedeado em Pretória, que declarou ao nosso Jornal: “já tive uma reunião exploratória sobre o projecto do colégio, assegurando que a Coordenação do Ensino iria conceder as facilidades que estejam dentro das nossas possibilidades, nomeadamente a colocação de professores e o apoio em material di-dáctico e acompanhamento pedagógico”.

SALAS DE AULA NO LUSO ÁFRICA
EM PRIMROSE CONTINUAM NO IMPASSE

  Noémia de Andrade abordou a necessidade de se ex-pandir o ensino da Língua e Cultura Portuguesa às colectividades portuguesas, tendo citado o caso do Luso África Sports & Cultural Association que construiu duas salas de aula no primeiro andar da sua sede. A Coordenação do Ensino de Português disponibilizou a professora Susana Arede para ali ministrar as lições, diligência que teve a intervenção do anterior cônsul-geral de Portugal em Joa-nesburgo, dr. Carlos Pereira Marques. Na ocasião, o pre-sidente da Direcção do Luso África, Tony Lemos, garantiu que o pagamento do salário da professora iria ser feito através de um patrocinador do clube. Após a nomeação, o Luso África solicitou que essa despesa fosse paga pela Coordenação do Ensino, que declinou fazê-lo.
  Ao abordar o dr. Rui de Azevedo, perguntámos-lhe sobre o impasse na escola do Luso África, tendo afirmado peremptoriamente: “a Coordenação do Ensino tem de ter um critério de igualdade para com outras instituições semelhantes ao Luso África. Se desse luz verde ao pagamento do salário da professora não poderia deixar de ter postura semelhante, por exemplo, se o Marítimo de Joanesburgo ou uma colectividade de Pretória solicitasse igual apoio”.

FALTA DE LIDERANÇA DOS
GOVERNANTES PORTUGUESES

  Nelson de Jesus Gonçalves, lusodescendente de raízes madeirenses, criticou também a falta de liderança dos go-vernantes portugueses, que não “fazem a ponte” com as suas comunidades espalhadas pelo mundo, pedindo acção urgente junto da diáspora.
  “Não pedimos dinheiro. Pedimos que criem mecanismos de facilitação, que façam a ponte entre nós, o país de origem e a lusofonia. Porque não se usa o ‘know-how’ de agricultores de sucesso que vivem na África do Sul para por exemplo desenvolverem a agricultura na Madeira, em Portugal continental ou mesmo nos países africanos de língua portuguesa? É essa facilitação, esse reacender de laços que é necessária”, disse o jovem.

CONSTITUIR MECANISMOS OFICIAIS
DE DEFESA CONTRA SITUAÇÕES LESIVAS

  Tony Azeredo, industrial de Artes Gráficas que desenvolve actividades meritórias, nomeadamente a edição de livros em língua portuguesa por autores angolanos e mo-çambicanos radicados na África do Sul, referindo-se à situação lesiva que sofreram emigrantes da África do Sul – a maioria de origem madeirense –  perante comportamento tóxico da banca portuguesa sugeriu que fossem constituídos mecanismos oficiais de defesa, o que se en-tendeu como sendo uma intervenção seja do Governo da Região Autónoma da Madeira seja do Governo Central de Portugal junto do governador do Banco de Portugal.

UNIVERSIDADE SENIOR APELA A UM
MAIOR TRABALHO DE VOLUNTARIADO

  A comendadora Manuela Rosa, que fundou a Universi-dade Sénior Boa Esperança solicitou à dra. Conceição Estudante que, apesar das dificuldades financeiras que a Madeira e Portugal continental atravessam, fossem reactivadas as viagens dos desportistas no programa de intercâmbio juvenil, visitan a terra dos seus pais e dos seus avós. Apelou também a um maior trabalho de voluntariado para apoiar o ensino de informática em Joanesburgo e em Pretória, “precisamos de mais voluntários”.

PSICÓLOGO SOLICITA MAIOR INTERVENÇÃO
NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO MODERNOS

  O dr. Tony de Gouveia, médico psicólogo com consultório em Alberton, referiu que está a receber o serviço “Madeira Emigrante” e que gostaria de ver a utilização mais activa em redes sociais da Internet de modo a cobrir as Comunidades Madeirenses da diáspora.

CONSELHEIRO SILVÉRIO SILVA FOCA A
TRIANGULAÇÃO COMUNIDADES-COMUNIDADES,
PORTUGAL-COMUNIDADES E VICE-VERSA

  O comendador Silvério Silva, conselheiro eleito das Comunidades Portuguesas na sua intervenção solicitou que “sejam dadas oportunidades aos jovens, focando a triangulação intercomunidades e Portugal-comunidades e vice-versa. Seria útil que a ligação com Portugal fosse feita, por exemplo por grupos de 6 a 8 jovens para participar em seminários e workshops, o que reforçaria a criação de laços afectivos com a terra natal ou Pátria dos seus pais e avós”.

PESSIMISMO ACTUAL E INCERTEZA NO FUTURO

  Alberto Santo, presidente da Direcção do Club Sport Marítimo de Joanesburgo, na sua intervenção manifestou o medo que os jovens sentem pelo pessimismo actual e incerteza no futuro, tendo referido que está há 9 anos na colectividade e tem três filhos, aos quais deseja que possam vir a beneficiar de uma educação nos valores do ensino e língua portuguesa.

ATRAIR A JUVENTUDE PARA O MOVIMENTO
ASSOCIATIVO PORTUGUÊS NA ÁFRICA DO SUL

  O secretário-geral da Federação das Associações Portuguesas na RSA, comendador José Alfredo Quintal, referiu-se ao número de emigrantes lesados pelos produtos tóxicos na banca portuguesa, anteriormente indicado como 16 pelo Diário de Notícias do Funchal e Século de Joanesburgo. Observou que esse número elevou-se agora para 57. Apelou para uma maior atracção dos jovens para o movimento associativo português na RSA, nomeadamente com equipamentos de cultura e recreio como são os computadores e jogos cibernéticos.

SUGERIDA A CONSTITUIÇÃO DE UMA
COMISSÃO DE  ANÁLISE E IMPLEMENTAÇÃO

  A jovem Ana Maria sugeriu que fossem identificadas as queixas por parte do público e que no final dos trabalhos fosse constituída uma comissão de análise para identificar os problemas e reflectir sobre as oportunidades que possam surgir.

O PREÇO ELEVADO DOS PASSAPORTES

  Vasco Martins, presidente da Assembleia Geral da Casa da Madeira de Joanesburgo, observou na sua intervenção que “os portugueses da África do Sul, que ganham em randes, pagam pelo passaporte, que é um documento de viagem, o mesmo que pagam os portugueses na Europa, que recebem em euros, ou seja cerca de 10 a 11 vezes mais comparativamente ao rand. Solicito que as entidades oficiais se debrucem sobre este assunto de modo a que um maior número de jovens portugueses ou luso-descendentes possa vir a beneficiar da utilização dos passaportes”.

ACTIVAR O INTERCÂMBIO DE JOVENS

  Carlos Câmara, dirigente do PIE/People into Evangelization, em Pretória, observou que todos os anos angariam fundos para levar jovens da África do Sul às Jornadas Mundiais Católicas, como aconteceu na Austrália e na Espanha nos anos mais recentes, com a presença de Sua Santidade o Papa. Apelou às entidades oficiais que façam a revisão proporcional do preço da emissão dos passa-portes pagos em randes compartivamente ao valor dez vezes mais no câmbio do euro.
  O jovem do PIE exortou também os luso-descendentes a participarem nas actividades das nossas associações para que se possa dar continuidade ao património e projecto dos nossos pais e avós, que com tanto suor e sacrifício contruiram na África do Sul.