Comunidade Portuguesa de Pretória já teve o seu grupo de teatro amador

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Comunidade Portuguesa de Pretória já teve o seu grupo de teatro amador

Em tempos que as camadas consideradas hoje de meia-idade na nossa comunidade, a maior parte já pais de filhos, uns mal se devem lembrar e outros provavelmente desconhecem, Pretória teve o seu grupo de teatro amador e levou à cena, em diversos pontos do então Transvaal, hoje Gauteng, e áreas limítrofes, peças de assinalado êxito, que quem as viveu certamente recorda com saudade. 

 Foi seu ensaiador Avelino Pereira da Silva, nascido a 10 de Dezembro de 1939 em Pe-droso-Vila Nova de Gaia, que procedente da terra da sua naturalidade, com passagem de alguns meses por Moçambique, se radicou em Pretória no ano de 1964, onde em mui-tos anos e antes de regressar a Portugal, exerceu a sua ac-tividade por conta própria na construção civil.

No diálogo em tempos com ele travado pelo nosso correspondente em Pretória, Avelino Pereira da Silva descreveu o seu envolvimento nesta área cultural nos seguintes termos:  “nos meus tempos de infância e antes de pensar em emigrar, integrei o Teatro Recreativo de Tabosa-Pedroso, ao tempo em sector cultural agregado à FNAT, no qual cheguei a de-sempenhar as funções de “ponto”, tarefa bastante difícil e que requer  o máximo de concentração, nascendo daí a minha paixão pelo teatro.

 Em Pretória, se a minha me-mória não me atraiçoa (e a verificar-se antecipadamente as minhas desculpas aos leito-res), prosseguiu o nosso interlocutor, juntamente com meu primo Manuel Alves da Silva, também um apaixonado por este passatempo cultural, resolvemos formar um grupo de amadores para fazer algo em arte dramática em prol da nossa comunidade.

 Com a participação de Fernando Souto, Manuel Mendes, José Kruger, Justino da Silva, Rodrigo da Costa, Joaquim da Cruz, Armando Sarilho, Vidal Fragoso, Virgínia Couto e Celestino Silva, foi em 1969 fundado o Grupo Dramático de Pretória, com os ensaios iniciados numa das dependências da propriedade Mendes Court, em Pretoria West, da peça “Julgamento de um crime” e da comédia “A mosca branca”, que viriam a ser apresentados pela primeira vez em público em fins desse mesmo ano na Casa de Teatro Peter Van der Walt, no Show Grounds da capital sul-africana”.

Recordou ainda que “com os mesmos componentes foi em seguida ensaiado e exibido nesse mesmo local o drama brasileiro intitulado “A Filha do Cabinda”, sendo grande a aceitação do público nos primeiros espectáculos, ao ponto de esgotarem por completo as respectivas lotações, não obstante saberem tratar-se de artistas puramente amadores, mas estar em causa a consciência, a responsabilidade e o entusiasmo em representar, de todos os seus intervenientes.

 

* Convite  do Padre Esteves

 

 

Para nossa surpresa, a servir de encorajamento aos nossos objectivos, sinal de que ví-nhamos agradando ao público e estávamos no bom cami-nho, eis que aparece o re-verendo Padre Esteves, (que mais tarde viria a falecer), a formular o convite ao nosso Grupo Dramático para colaborar com a igreja católica de Santa Maria, da qual era então o seu pároco, com vista à angariação de fundos destinados ao salão paroquial, que aquele sacerdote já nessa altura achava premente construir.

 Foi com vivo interesse e entusiasmo que todos aderimos a tal sugestão lembrou com alguma comoção e saudade Avelino Pereira da Silva, passando a partir de então os ensaios a ter lugar no antigo salão, onde as actividades religiosas da paróquia tiveram o seu início, em tempos demolido para, nesse preciso local, ser construído o Colégio de Nossa Senhora da Conceição, e de comum acordo a partir daí passaram a actuar com o nome de Grupo Dramático de Santa Maria de Pretória.

 Dado que o objectivo das receitas se destinavam à beneficência e obras da igreja, tivemos a adesão de várias pessoas para colaborarem com o nosso grupo cénico, tais como: António Araújo, Fernando Marques, Joaquim Maia, J. Neves, Jorge Oliveira, J. S. Camarinha, José Manuel Oliveira, José C. Cortez, Aretino Oliveira, Dário da Costa, Da-niel Oliveira, Rosa Maia, Benilde Costa, Amélia Marques, Conceição Maia, Mário Abran-tes e as irmãs Rita e Dina da Silva.

 Durante o tempo em que o agrupamento se manteve em actividade, prosseguiu Avelino Pereira da Silva, foram leva-das à cena as seguintes comédias e peças teatrais: “A Bandeira Roubada”, a “Viagem do Zé Bom-Dia”, “Casa de Pais”, (esta de es-trondoso sucesso) por se tratar de drama violento e empolgante de Francisco Ventura, baseado no aforismo popular “Filho és, Pai Serás”, “O Vigésimo”, “Menina Feia”, “A Dama da Madrugada”, “As Duas Surdas”, “O Grande Segredo”, “Hotel Moderno” e “Santa Li-berdade”.

Além dos espectáculos apresentados no Teatro Peter Van der Walt, – acrescentou Pereira da Silva – , e nas escolas da Willview Haigh e Burgher Right Primary, onde se concentrava uma grande percentagem de alunos da nossa comunidade de Pretória, efectuamos exibições no Teatro Continental de Regents Park, Convento de La Rochelle, Porto de Troyeville e Casa dos Lisboetas, em Joanesburgo, assim como em Nigel, Springs e Vanderbijlpark.

 Assinala-se também que o núcleo directivo incumbido de organizar os espectáculos, decorar, proceder à armação e cenografia, e ainda ocupar-se da bilheteira, era constituído por José Maria Pacheco, F. Moutinho, Fernando Maia, Jo-ão de Castro, António Oliveira e José C. Almeida.

 Sempre que as cenas envol-viam personagens militares, juiz ou sacerdote, acentuou Pereira da Silva, (pelo brio com que no trajar se apresentava, e alguma vaidade no seu vasto cabelo preto que fazia questão de trazer sempre bem penteado), dai ser conhecido por “Silva pente-adinho”, algo emocionado e a demonstrar saudades desses tempos que para si irão perpetuar vivos na sua memória, os uniformes eram alugados em Joanesburgo, ou em Pre-tória, aqui na Pacto de Silverton, especializadas em roupas de teatro e outras de fantasia para carnaval.

 No itinerário das suas lembranças referiu que “o melhor prémio de recompensa ao esforço, persistência e dedicação de todo o nosso elenco nesses espectáculos, foram as grandes ovações da assistência, com frequentes pedidos de repetição das cenas, não havendo palavras para descrever a alegria que todos sentia-mos, ao notar no decorrer das cenas, o sentir desse maravilhoso público, tanto nos silêncios a que a peça convidava, como nas gargalhas espontâneas, ou inclusive uma lágrima teimosa, consoante o género do episódio que decorria em palco”.

Chegada da televisão, e mais tarde do vídeo provoca declínio

Convidado a pronunciar-se sobre o que motivou o fim do grupo, Avelino Pereira da Silva respondeu-nos com a voz embargada de tristeza:

“É pena que não tivéssemos ido mais longe, como era nosso desejo, mas com a vinda da televisão, e mais tarde a chegada dos vídeos de toda a espécie, começou a notar-se uma quebra gradual de espectadores, a darem a nítida ideia de desinteresse. Sem dúvida que isso se reflectiu no nosso grupo teatral que, embora contrariado, chegou à conclusão que o melhor caminho a seguir seria a paralisação, o que se verificou em 1982”.

Fez uma pausa, como que numa sentida homenagem a todos quantos impulsionaram as iniciativas do agrupamento dramático, e afirmou-nos nessa altura, agora passados tantos anos totalmente fora de hipótese: “se um dia algo justificar que o faça renascer, seria com grande prazer que voltaria aos palcos, porque quem ama o teatro, e adora o contacto directo com o público nestes espectáculos, é como que uma ambição desmedida, que como ele julga ser o sentir de todos quantos consigo trabalharam nesse entretenimento cultural, e a quem aproveitou para, sem distin-ção, endereçar publicamente o seu profundo agradecimento.

 Recorda-se que além do seu envolvimento directo neste grupo de teatro, Avelino Pereira da Silva que pelo pelo fino trato e comportamento exemplar se tornou figura prestigiada na comunidade, foi durante os largos anos que permaneceu em Pretória, um entusiasta no meio associativo na capital sul-africana, integrando em anos sucessivos e alternados diversos cargos, nas várias direcções do seu Porto Futebol Clube de Pretória, enquanto viveu nesta cidade com sua esposa Almira Lopes da Silva, e filhos José Fernando e Rui Manuel, estes que na Universidade da Wits, em Joanesburgo, completaram nesse tempo os seus cursos em arquitectura e electró-nica, todos optando há vários anos por se radicar em Portugal, não custando a acreditar no entanto, todos poderem sentirem saudades da África do Sul, terra difícil de esquecer por quem nela viveu e dei-xou amizades, como deve ser o caso desta família.