Companhia de Dança Contemporânea de Évora apresentou “Terra Chã” em Joanesburgo

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Durante os dias 1 e 2 de Março, no “Centre for the Arts” da Universidade de Joanesburgo (UJ), a Companhia de Dança Contemporânea de Évora apresentou a peça “Terra Chã”, da autoria da coreografa e dançarina Nélia Pinheiro.

 Com ela estiveram Gonçalo Andrade, Fábio Blanco, Constança Sierra Couto e Ivanuel Tavares. A coreografa Nélia Pinheiro deu também uma master class ou “work shop” sobre dança entre os dias do espectáculo.

 A sala esteve composta de público em ambos os dias com reacções muito positivas quer do público em geral, quer do luso em particular.

 Os dançarinos e responsáveis pelo “Terra Chã” mostraram-se muito satisfeitos com a organização e realçaram a qualidade do festival Dance Umbrella de Joanesburgo e as condições da sala de espectáculos da UJ.

 O “Terra Chã” começou pelas 20h15 e durou cerca de quarenta e cinco minutos, neste tempo houve forte actividade em palco, este coberto de areia.

 O espectáculo começou com a vídeo projecção de grupos corais alentejanos a interpretarem o Cante e à medida que o vídeo entra na fase final, as luzes, qual cortina, revelam os intérpretes e enceta o bailado. Uma dança um tanto ou quanto confusa a início, dada a expressividade e agressividade dos movimentos dos bailarinos e da dissonância da banda sonora, que conferiu ao principio da peça um tom agreste.

 Com o decorrer do tempo e o desenrolar do enredo da peça, também a dança se transforma numa amálgama de movimentos cada vez mais energéticos mas também mais harmoniosos e em sintonia.

 O “Terra Chã” veio à África do Sul participar no Dance Umbrella e teve o apoio da Embaixada de Portugal em Pretória, do Consulado-Geral de Portugal em Joanesburgo e do Instituto Camões.

 

* O porquê da peça

 

 O Século de Joanesburgo teve a oportunidade de falar com Nélia Pinheiro, coreografa e criadora da peça que esteve em montra na UJ. A fundadora da Companhia de Dança Contemporânea de Évora, que foi criada há 28 anos, confessou-nos que se encantou pela África do Sul, a sua primeira vez no nosso país.

 “É para repetir”, começou por nos dizer, “a organização é fantástica. A Embaixada desenvolveu um trabalho fabuloso e o festival no seu todo, é muito bom!”

 Adiantou-nos também que após um ano de trabalho de criação e concepção da peça e após vários ensaios, a peça “Terra Chã” estará a circular em tourné quer por Portugal quer no estrangeiro durante este ano.

 No imediato, após o regresso a Portugal para a companhia estão agendados espectáculos no mês de Abril, onde irão estrear uma nova peça de dança “Heros Psiquê” e continuar a apresentar o “Terra Chã”, que terá uma digressão europeia em 2017.

 Ao nosso semanário Nélia Pinheiro confessou-se orgulhosa de representar Portugal num festival como o Dance Umbrella de Joanesburgo e “ser recebida desta forma, o público ter gostado tanto do espectáculo e tê-lo sentido, porque sentir é diferente de gostar.”

 Em relação à peça, cujos figurinos foram feitos pelo estilista José António Tenente, a coreografa explicou-nos que “decidi colocar areia no palco e tê-la como palco, porque há várias zonas no Alentejo que estão a tornar-se zonas áridas e que a previsão daqui a dé-cadas é tornarem-se deserto. A peça foi conceptualizada de fora para dentro e fui aprofundando cada vez mais, o que tem o seu lado catártico.

 A areia dá também muito movimento e prolonga-o em termos coreográficos, no espaço. Torna-se mais difícil o movimento e como estamos a representar o Alentejo, que todos sabemos é difícil trabalhar na terra.”

 Nélia Pinheiro declarou-nos que o enredo é uma história de amor proibido, baseada num caso verídico no Alentejo. Um trabalhador apaixonou-se pela filha do dono da quinta e foram proibidos de estar juntos.

 “É uma história de amor, dois seres apaixonados cujas famílias não permitem que estejam juntos, é baseado numa história verídica em que um rapaz se apaixonou pela filha do patrão e foi proibido de a ver. Ele nunca casou e morreu solteiro. É algo que se repete pelos tempos ainda hoje.”

 Daí a representação simbólica do regador de água e da melancia.

 “A água” começa por nos explicar Nélia, “é o que refresca e representa também lágrimas e choro, é no fundo o limpar a alma, é como tirar um peso de coma, apagar o passado e o sofrimento. Ajuda a avançar. E vem representar o alívio e a passagem de momentos difíceis – que tal como a areia – são eles próprios desertos.”

 Em relação à melancia, é segundo a coreografa “o coração que se partiu e o qual se tenta juntar novamente mas, uma vez quebrado, não se consegue. Representa também a solidão do Alentejo, a terra onde se trabalha e o amor pelo qual se sofre”.

 Escolheu a banda sonora porque queria ter Cante mas não queria dançar só Cante e por isso a banda sonora é uma complexa composição de Cante, instrumentos musicais, dissonâncias e harmonias, “no fundo, camadas de som tal como a peça que tem vá-rios momentos”.

 Por fim, confessou-nos que “tenho pena de me ir embora!  Na África do Sul o clima, a comida e pessoas… é tudo fantástico. A organização do festival foi também brilhante, mais uma vez digo.”

 “E quero voltar. É tudo tão especial, é muito bom estar entre pessoas que apreciam a arte”, concluíu Nélia Pinheiro.