Como nasceram e para que servem “Os Lusíadas” em Pretória

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 Com os trágicos acontecimentos ocorridos em Moçam-bique no ano de 1974, que mais tarde se estenderam a Angola, e consequente avalanche de compatriotas que procedentes daquelas ex-províncias ultramarinas portuguesas, como então eram designadas, se refugiaram na África do Sul, um grupo de portugueses considerados líderes da comunidade de Pretória, reuniram-se na noite de 7 de Setembro desse mesmo ano, a fim de em conjunto estudarem a maneira mais viável de socorrer todos esses carecidos de auxílio, muitos deles, talvez a maior parte dos que aqui cegavam apenas com a roupa que traziam no corpo.

 Tal reunião foi realizada na residência paroquial da igreja de Santa Maria, em Pretória West, nela participando o vice-cônsul Mário Silva, os comendadores António Braz e Luís Correia, e os industriais António Farinhó, António da Conceição Araújo, António da Silva Domingues, João Garcia e Fernando Lira.

 Manuel Lopes Bernardino, então sacerdote naquela igreja católica portuguesa, após essa reunião, deslocou-se imediatamente para a fronteira de Ressano Garcia, a fim de ali proceder à primeira assistência moral e religiosa aos portugueses que apavorados e considerando-se desprotegidos, face à passividade do então governo português em funções após a revolução dos cravos, deixando-os entre-gues à sua sorte, entravam diariamente em grande núme-ro na África do Sul.

 Com os inúmeros casos aflitivos dessas famílias, a debaterem-se com problemas de toda a ordem, houve necessidade de criar uma instituição para se ocupar dessas dificuldades, daí nascendo “Os Lusíadas”, que depois de em vários anos utilizarem como sede os aposentos contíguos ao escritório do comendador António Braz, em Bosman Street, mudando-se após a sua morte para dependências cedidas pela ACPP, para passados alguns anos se instalarem onde foram criados, na igreja de Santa Maria dos Portugueses, em Pretória West, que com maior ou menor dificuldade, o seu reduzido número de membros a vai mantendo em actividade.

 Com a colaboração de certas colectividades e instituições lusas citadinas, havendo aqui a destacar os donativos concedidos em vários anos pela Academia do Bacalhau de Pretória, com destaque para os sucessivos na gerência do comendador Mário Ferreira, a juntar a algumas individualidades de bom coração que nos apraz registar, e ao jantar de gala que “Os Lusíadas” vão promovendo anualmente em Outubro, no salão nobre da ACPP, o deste ano agendado para o próximo dia 19 do corrente mês, com início pelas 19h00, “Os Lusíadas”, com maior ou menor sacrifício lá vão continuando, e superando certas incompreensões prosseguindo a sua obra me-ritória na comunidad.e, sendo de toda a justiça realçar aqui o incontestável apoio da sua presidente Paula de Castro, no cargo que com grande devoção desempenha desde 2008, uma senhora que certamente muitos conhecem pessoalmente, mas poucos se apercebem da sua grande capacidade de liderança, e dos sacrifícios que essas funções acarretam, a juntar aos seus contributos pessoais, praticamente sempre feitos no anonimato e bem de acordo com a parábola “dá com a mão esquerda com que a direita não saiba”,

 Com os tempos a tornarem-se difíceis, daí cada vez mais pessoas a pedir ajuda, só que com as limitadas disponibilidades financeiras, “Os Lusíadas” só poderem socorrer as mais prementes, ou seja aos velhinhos para ajuda na compra de medicamentos, e aquelas sem recursos para dar aos seus filhos as mínimas refeições diárias, algumas delas terem de se deitar sem nada que lhes aconchegue o estômago, o que deve ser duro aos progenitores aceitar quando se trate de crianças, sem nada para lhes dar, e aqui se tentar evitar, ao que por vezes deparamos com famintos a basculhar na rua os recipientes, conhecidos na gíria portuguesa por tambores do lixo, onde são depositadas todas as sobras de refeições, e outros géneros de mantimentos que não façam falta a muitas famílias, sendo caso para dizer “o que para uns é lixo, para outros poderá ser um luxo”.

 É aqui, nestes casos aflitivos, que “Os Lusíadas” entram em acção, e sem qualquer espécie de subsídio oficial ou fonte de receita, só lhes permitirem socorrer as dificuldades mais prementes, daí certamente criticados por não poderem atender certos pedidos, como os de alguém que ainda dispõe de embora poucos, mas de alguns recursos para ir sobrevivendo.

 As pessoas que não são atendidas nos seus pedidos, por se concluir ainda disporem do mínimo condições de sobrevivência, não fazem ideia o que custa aos Lusíadas a recusa, mas a verdade nua e crua é que de todo não podem, e mesmo para os de reconhecida necessidade que estão a ser ajudados, se as coisas não melhorarem, terão a seu tempo de ser revistas, porque não havendo dinheiro não pode haver ajudas, mesmo para aqueles que a ser reduzido ou cortado o subsídio, será de partir o coração, mas a verdade é que infelizmente se caminha para isso.

 A vontade dos Lusíadas, traduzida em generosidade, daí aceitar a administração do lar de idosos S. Francisco de As-sis, a funcionar na paróquia de Santa Maria, era poder atender todos os pedidos que lhe são feitos e satisfazer todas as necessidades, mas infelizmente os seus fracos recursos não o permitem, a não ser que a comunidade reconsidere e passe a ajudar de maneira mais activa e eficaz o esforço que a instituição vem fazendo e a todos poder passar a ajudar, só assim e em esforço colectivo se poderá aliviar o sofrimento de quem a ela recorre, porque a continuar como até aqui, a que infelizmente por vezes até os próprios familiares das pessoas que estão a ser ajudadas por esta instituição se alheiam ao jantar de gala promovido em Outubro de cada ano, onde são angariados alguns fundos, para não falar de recusas pessoais para integrarem esta organização, a juntar ao afastamento de certos membros, “Os Lusíadas” felizmente com maior ou menor sacrifício lá vão prosseguindo.

 Não julguem os que não são atendidos nos seus pedidos de auxílio, serem ignorados, ou por vingança discriminados, nada disso, mas sim os limitados fundos da instituição não o permitirem, daí só quem de todo nada tem, disso se concluindo na averiguação a cada caso, em obediência ao cariz que originou a criação dos Lusíadas se vai procurando manter, enquanto os reduzidos recursos financeiros o permitirem.

 Se um dia as coisas melhorarem no aspecto financeiro, o que nos parece pouco provável, a não ser que surjam significativas comparticipações oficiais, ou destacados carolas que dotados de espírito humanitário contribuam com alguns donativos, ai as coisas poderão melhorar, porque a nível de colectividades, todas elas a enfrentarem as suas dificuldades, pouco ou nada se poder esperar, a não ser a cedência das suas instalações para a realização de qualquer evento com essa finalidade, porque como ultimamente temos presenciado a afluência às suas festas é infelizmente também cada vez mais reduzida, daí certamente até se verem aflitos para conseguir fundos para o suporte das suas habituais despesas.

 É certo que o necessitado que recorre a auxílio, para si o que importa é ser atendido na sua reivindicação, não se conformando por vezes com desculpas de quem o deveria ajudar, e neste caso “Os Lusíadas” passaram, segundo o parecer das pessoas, e até a exigência nesse sentido da nossa comunidade a ser a instituição a quem poderão re-correr, só que infelizmente pelos motivos acima mencionados não dispõe de recursos para poder atender todos os pedidos, apenas por isso, porque a sua vontade seria socorrer todas as carências, só que infelizmente por enquanto não lhes é possível. 

 É uma missão que não tem preço mas muito digna de quem a abraça, que exige muita dedicação, e sobretudo vocação, coisa que nem todos estão preparados para a enfrentar, pois ao contrário de certos pensamentos, julgando que pertencer aos Lusíadas seria participar com pompa em almoços e jantares na em-baixada e nas nossas colectividades, e ao contrário depa-ram com a realidade, que é trabalhar desinteressadamente a favor de quem mais precisa, e nada receber em troca, já pouco ou nada lhes diz ou interessa, daí os poucos que nos Lusíadas teimam em dedicar algum do seu tempo a favor da nobre causa humanitária, me curvo e tiro o meu chapéu à sua entrega a favor do seu semelhante carecido de auxílio, e com o seu simples contributo, pelo menos ajudar alguém em extremas dificuldades, que à partida parecendo uma insignificância, acaba por ser algo de muito valor, e embora com isso e perante tanta carência que alastra por todo o lado, ajudar a remediar as mais preocupantes, e com essa pequena ajuda, comparada a um grão de areia no deserto, tentar pelo menos contribuir para um mundo melhor.