Comendador José Valentim, uma vida de trabalho em prol da Indústria e da Comunidade na África do Sul

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José António dos Santos Valentim começou desde cedo na vida a trabalhar e conta inúmeras vitórias. Natural da Lourinhã, saíu jovem para África onde possui décadas de trabalho, primeiro em Moçambique e depois na África do Sul.  É tanto do continente africano como de Portugal. Com uma paixão pela metalomecânica e a trabalhar desde os 11 anos de idade na profissão, desde sempre projectou inovações e máquinas. Um dos fundadores da Escola do Lusito, mecenas de várias instituições comunitárias, como católico e português, é marcado pelo bem-fazer. Fundou uma das maiores empresas de metalomecânica da África do Sul e hoje, com 74 anos de idade, continua tão activo como no início, a levantar-se às 5h00, a trabalhar mais do que 12 horas por dia e a dedicar tempo à Comunidade portuguesa e à família. O Século de Joanesburgo foi saber junto deste luso condecorado pelo Estado português, com a comenda da Ordem de Mérito, o que é que o continua a motivar e a impelir.

Michael Gillbee – Dê-nos um pouco do seu histo-rial, do seu percurso de vida. Onde é que nasceu?

  Comendador José Valentim – Nasci na Lourinhã em 1945. Cheguei a Moçambique a 26 de Maio de 1965. Em Moçambique, estive nove anos e, portanto, fiz ser-viço militar em Moçambique e encontro-me na África do Sul, onde cheguei a 14 de Setembro de 1974, vítima da descolonização. Chegado cá, fui para Vanderbijlpark, trabalhar na VICOR.

  MG –  O que era a VICOR?

  ComJV – A VICOR era uma associada da ISCOR, uma fábrica de engenharia pesada e lá estive cerca de 18 meses. Depois de ter tido a autorização de residência concedida pelas autoridades sul-africanas, mudei-me para Joanesburgo. Vim trabalhar para veículos das forças militares. Era na altura, o que é hoje a DENEL. O meu trabalho, durante alguns anos, era fazer um canhão por dia.

  MG – A sua formação profissional qual é?

  ComJV – Eu tenho a Escola Industrial de Lourenço Marques. Já tinha frequentado em Peniche a Escola Industrial de Peniche, mas tive de deixar na altura. Mas quando cheguei a Lourenço Marques frequentei a Escola Industrial. Sou militar de Moçambique.

  MG – Porque é que emigrou?

  ComJV – Eu julgo que tinha uma necessidade de me expandir. Havia uma necessidade familiar, eu já tinha interrompido os estudos por falta de dinheiro e, portanto, só havia uma solução: para a minha irmã continuar a estudar tinha que haver dinheiro porque não havia escola de ensino oficial secundário na Lourinhã. Era o colégio e tinha de ser pago. Havia falta de dinheiro.

  O meu pai deixou a minha mãe com três filhos e, portanto, digo sempre, nasci rico mas quiseram as circunstâncias da vida que tive que enfrentar as agruras de outra forma.

  Havia uma necessidade familiar e até mesmo pessoal, porque eu sentia mesmo com a idade que tinha, novo, já era dos melhores vencimentos na Lourinhã como operário e sentia que havia coisas melhores e que tinha de sair.

  MG – Mas na Lourinhã trabalhava onde?

  ComJV – Também na metalomecânica.

  MG – Portanto, a sua arte foi sempre essa?

  ComJV – Sempre! Comecei a trabalhar aos 11 anos .

  MG – E o que é que o apaixonou na metalo-mecânica? O que é o que o fez ingressar na indústria?

  ComJV – Eu próprio sentia essa atracção, não sei se era na altura os macacos azuis, estamos a falar agora 60 anos depois. Tinha começado a revolução industrial em Portugal e nós somos de uma zona rural e as opções eram ou comércio ou agricultura. E a mim apaixonava-me sempre, quando via qualquer coisa dentro da metalomecânica que eu achava que era a minha atracção. Aí comecei a trabalhar bastante cedo.

  Frequentei a escola à noite, em Peniche, mas era muito longe e as intempéries de Inverno aliadas a vários outros factores, como disse, levaram a que deixasse. Só depois quando cheguei a Lourenço Marques é que prossegui os estudos.

 O desafio de sair da Lourinhã. Eu tinha quase a certeza que tinha de haver sítios melhores para expansão pessoal, porque eu achava com 16, 17 anos de idade, basicamente já tinha chegado ao fim do Mundo. E dentro desse desafio, o meu tio incentivou-me a ir para Moçambique.

  MG – Já lá tinha pessoas de família?

  ComJV – Ele era chefe de Polícia, mas quando foi a Portugal num período de férias graciosas, que eram férias durante seis meses, chegou lá – na altura chamavam a Metrópole – com umas máquinas de costura que se tinham partido durante a viagem. Eu fui o homem que lhe reparei aquilo e então, ele basicamente convidou-me. Porque se eu não tivesse ido para Moçambique, tinha ido para França. Porque já lá tinha família, tinha lá primos, da parte dos meus pais e cheguei a ter tudo pago e pronto para ir para a França. Mas a atracção africana foi mais forte!

  MG – Como é que era Portugal na altura?

  ComJV – Havia a separação social, não só do antigo regime, mas era nítida a diferença entre pobres e ricos. Não havia racismo, mas havia separação social. E essa separação social, embaraçava-me! Porque eu, por exemplo, desde miúdo que jogava muito bem o bilhar, tanto livre como snooker e cheguei a uma altura, que para eu jogar com as pessoas que sabiam jogar, eram os ricos e era difícil de frequentar os cafés que essas pessoas frequentavam. Portanto, também me magoava.

  Quando voltei a Portugal pela primeira vez, em 1979, o dono do café – onde ele não me deixou entrar quando foi na inauguração – foi-me convidar para eu ir lá.

  Claro, a situação de Portugal na altura, ao respeito pela cultura, mas na altura estava na moda ou ir para a França ou o Ultramar. Eu escolhi o Ultramar.

  MG – Quando chegou a Lourenço Marques, quais eram as diferenças mais marcantes para a Metrópole? O que é que o marcou mais?

  ComJV – Eu vim encontrar em Lourenço Marques – e continuo a dizer hoje – a melhor cidade e a melhor terra do Mundo! A diferença social não era tão grande, embora houvesse a parte social, mas não tão demarcada, nunca senti ou fui parte de qualquer movimento de diferença racial ou a social. A primeira vez que fui confrontado com a parte racial já foi quando visitei a África do Sul, em 1967, e me apercebi efectivamente o que era o Apartheid e o racismo. Em Moçambique e em Lourenço Marques, isso não existia!

  Dediquei-me, arranjei trabalho, trabalhei numa das maiores empresas de metalomecânica que era a Maquinag. Fiz a minha vida militar, que foi quase quatro anos.

  MG – Enquanto isso, estava a estudar ao mesmo tempo?

  ComJV – Sim. Estudava à noite e mesmo durante a vida militar, estive nove meses em Nampula, continuei sempre a estudar.

  Quando chegou o 25 de Abril, preparava-me já para entrar no Instituto. [suspira] Mas quis a vida que isso não acontecesse. Mesmo durante o percurso militar, houve duas situações que se depararam, uma foi a fotografia, dediquei-me a ela.

  Comecei em Nampula, por necessidade do Batalhão das Forças Armadas precisava de alguém que traba-lhasse naquela área. E acabou por me ser benéfico, porque dentro das Companhias que vinham da Metrópole, havia a necessidade de fazer fotografias, lembranças, cartões de Natal e isso também ginasticava a minha capacidade de realização e de fazer coisas diferentes. E portanto, foi muito bom. Isso também me ajudou, de certo modo, quando depois voltei para Lou-renço Marques, a ser dispensado do serviço militar du-rante o dia porque não só continuava com a fotografia para o Quartel-General como eu era da Maquinag e era a empresa que encarroçava os veículos militares, as Berliets e os Unimogs, que eram usados em Moçambique. Havia uma necessidade crescente devido ao movimento militar de dar assistência a esse tipo de viatura. E então, por proposta da companhia onde trabalhava, o Quartel-General aceitou que passasse a fazer parte da vida civil, mas requisitado para fazer os veículos militares.

  Em Nampula também tive oportunidade e desenvolvi um veículo rebenta minas. O primeiro na altura que foi posto, porque quando as minas anticarro passaram a ser de linguete, elas rebentavam não no primeiro rodado, mas podiam rebentar no terceiro ou no quarto conforme tivesse sido posto lá o linguete. E, então eu fiz um atrelado, mas colocado à frente do veículo onde, quando rebentava, só substituía aquele rodado e o veículo continuava à frente da coluna. Eu tive essa oportunidade.

  MG – Mas o comendador Valentim projectou?

  ComJV: Projectei e contruí. Em 1967. E fui proposto para ir ser galardoado em Lisboa, no 10 de Junho, mas preferi ir a Portugal de férias. [graceja e ri] Portanto, esta comenda que chegou veio com quarenta e tal anos de atraso!

  MG – Desde sempre, a sua vida foi ligada a esta indústria?

  ComJV – [sorri e afirma com satisfação] Sim!

  MG – E quando é que surge a Nasa Engineering?

  ComJV – A Nasa foi estabelecida em 1981, mas antes de fundar a Nasa tentei quatro vezes estabelecer-me na África do Sul. Ah, também importa referir que mesmo ainda em Moçambique, em paralelo ao meu em-prego, tinha uma pequena oficina onde fazia, quando me estabeleci a primeira vez em 1969, decapantes de ar usados na doca seca em Lourenço Marques na reparação de navios. E prensas hidráulicas para a fabricação de mosaicos e azulejos feitos em Moçambique, eu fazia as prensas para isso.

  Quando cheguei aqui, fui para Vanderbijl como disse, depois estabeleci-me quatro vezes antes da Nasa. Com sócios e as coisas não sortiram por diversas razões.

  Na Nasa, foi também com um sócio, mas já tinha aprendido e desenvolvido, não só a montar e a operar e a programar as primeiras máquinas CNC (Computerised Numerical Control) na África do Sul. E que depois passei a dar aulas e instrução a aprendizes.

  MG – As máquinas foram feitas cá?

  ComJV – São máquinas que eram de origem americana, mas montadas na Escócia. E depois a montagem final e aprendizagem aqui. Aprendi com dois engenheiros que vieram da Escócia, deram-me formação e depois passei a formar outros.

  MG – A Nasa faz material para a indústria mineira e peças variadas. Explique-nos o que é que a Nasa faz nos mais de 2800 componentes?

  ComJV – São para a indústria mineira, desde martelos pneumáticos manuais, até aos que são de grande perfuração montados em máquinas. Temos nesta altura, nove tipos diferentes de máquinas.

  Martelos mecânicos, fazemos treze diferentes martelos de prospecção de profundidade e de prospecção de água de diferentes medidas. E fazemos mais cinco máquinas hidráulicas de perfuração. Na parte industrial fazemos caixas redutoras e outros produtos dirigidos à indústria.

  MG – O seus martelos e máquinas são desenhos patenteados por si?

  ComJV – Nem todos, não. Alguns são prosseguimento dos que eu já fazia anteriormente e depois a maior parte. Os treze diferentes são desenhados por mim e são meus, produção minha. Mas nesta altura não ven-do ao mercado porque estou associado à parte comercial a uma companhia. Tenho algumas ferramentas patenteadas, tenho. Tenho uma ainda quando era de Moçambique. A máquina em si tem outros utensílios e acessórios que consoante a aplicação, são usados. Se for por exemplo menagem a céu aberto, é um tipo de aplicação, se for dentro da mina, depende se a mina é mecanizada ou trabalho manual. Trabalho manual há situações, em há só 800 a 900 milímetros de altura, só cabe um homem de cada vez e pode-se estender por muitos metros e vão atrás do filão do minério. Quando a mina é mecanizada o minério é retirado em quantidade industrial no seu todo.

  MG – E dos 2800 componentes, que mais é que faz?

  ComJV – Sim, quando eu digo 2800 componentes diferentes, nem todos eles são coisas exclusivas, muitos deles são componentes montados em máquinas diferentes. Por exemplo, uma das máquinas tem 800 componentes. É uma marca montada e vendida em quatro ou cinco formatos para diferentes aplicações. E para servir essa aplicação, precisa desses números de componentes. Na maioria dos casos, a nossa companhia é metalomecânica de alta precisão. A definição é mesmo essa! Porque, por exemplo, para lhe dar uma ideia em 65% do nosso trabalho a tolerância máxima é de 7 micrómetros. O que quer dizer, para as pessoas que não estão habituadas à indústria, [pega numa folha A4] enquanto o seu papel de escrever pode ter 30 micrómetros, a nossa tolerância é cinco, seis vezes menor. Depois, relativamente a máquinas compradas há 15 ou há 20 anos, fazer peças suplentes que sirvam hoje. É a continuidade, é a perfeição. Há um ditado em Inglês que diz “bem na primeira vez e todas as vezes bem”. E esse é o nosso lema.

  MG – A Nasa sempre esteve no mesmo local?

  ComJV: Não. Comecei em Germiston, em 49 metros quadrados. [mostra o gabinete com os braços] 7 metros por 7! Ainda tenho aqui a primeira máquina computorizada com que comecei. Interessante que, algumas pessoas que têm estas empresas de “engineering”, não começaram com máquinas computorizadas. Eu comecei em 1981 e claro que me chamaram louco e que não ia aguentar seis meses. Já vão fazer agora 38 anos em Setembro.

  MG – 49 metros quadrados não dão para nada! Como é que trabalhava?

  ComJV – Para meter a máquina lá dentro tive de partir a parede. Depois fazer a porta! Comecei com um sócio, o homem foi para Portugal, depois tive outro rapaz como sócio, durante nove anos, que também quis ir para Portugal. E eu acabei por nesta altura, continuar só.

  Com esta nova situação do BEE, temos que compartilhar e respeitar as leis na África do Sul. Tem havido um compromisso de 26%, que agora terá que passar para 51% na nova legislatura. Mas estamos a estudar isso!

  MG – E dessa altura de 1981 para agora, como é que se deu a expansão?

  ComJV – Foi sempre gradual. Comecei com 49 metros quadrados com um empregado, depois com dois. Para lhe dar uma ideia, nos primeiros 18 meses tive de mudar três vezes de instalações. A expansão foi rápida e ao fim de 18 meses comprei uma oficina mais pequena, mudei para Driehoek onde estive sete anos, já com 600 metros quadrados e depois vim para aqui, em Alrode, onde estou há 29 anos.

  MG – E qual é a área total da fábrica?

  ComJV – Nesta altura temos 10 mil metros quadrados.

  MG – E quantas máquinas é que tem?

  ComJV: [suspira e pensa] Tenho mais de cinquenta máquinas. Quarenta delas computorizadas.

  MG – A Nasa faz trabalho na África do Sul e para onde mais?

  ComJV – Sim, temos a expansão para África, Zimbabwe, Zâmbia, Tanzânia, focos principais em África. Depois um pouco para Moçambique. Temos também na América do Sul, o Peru e na América do Norte é o Canadá para onde exportamos para a indústria mineira.   Nalguns dos casos, as máquinas são diferentes das máquinas aqui na África do Sul. O conceito de menagem é diferente, o próprio processo de minagem  é diferente. Não necessariamente mais leves, mais diferentes com outra dinâmica.

  Ultimamente estamos a ser assediados pelo sector mineiro para criar máquinas maiores para aquilo a que eles chamam de minagem mecanizada ou computorizada. É possível, já se faz hoje, há já algumas companhias a fazê-lo, mas há na África do Sul uma componente importante, que é o desemprego e para a qual essa situação não vem ajudar.

  O governo pede constantemente que se empreguem mais pessoas e as minas pedem que se mecanize. Portanto, há aqui um contrasenso. E eu penso que irá durar mais oito anos a chegar a esse ponto. Porquê? Porque uma mina para ser mecanizada tem de ser desenhada desde o primeiro momento assim.

   As minas que existem, há 30, 40 anos, foram desenhadas para a máquina manual que é mais pequena que o homem. Há alguns projectos já na África do Sul, nomeadamente o crómio a céu aberto, na Província do Limpopo e há o carvão em Mpumalanga, mas são projectos diferentes. Nós, Nasa, as máquinas são mais aplicados na indústria mineira de platina e ouro, mas mais na platina.

  MG – Portanto, Rustenburg?

  ComJV – Sim, Rustenburg, Thabazimbi e o filão que vai da África do Sul ao Zimbabwe, a que chamam o Dyke Reef, é o filão mais rico de platina do Mundo.

  MG – Está na África do Sul desde 1974. Como é que tem visto a transição da sua indústria?

  ComJV – Na África do Sul, nesta altura é sempre de apreensão e de esperança. Porque como eu, com uma vida inteira em África, há sempre a esperança que as coisas se componham. Portanto, temos de ser optimistas, positivos. Tentar fazer alguma coisa para que os nossos filhos sigam na medida do possível ou que se sintam bem.

  Na transição, são coisas completamente diferentes, desde 1974 com os sistemas do antigo governo e a maneira de trabalhar eram completamente diferentes ao que assistimos hoje. Nos últimos 25 anos tem havido uma transição, temos de colaborar com o governo, colaborar com o melhoramento das camadas de população do país, proporcionar trabalho e educação dentro da medida do possível. Sinto-me satisfeito com essa aproximação e com essa colaboração e prestação de serviços à própria África do Sul.

  MG – Com a experiência de vida que tem, o que é que vaticina para o país?

  ComJV: [afirma perentoriamente] Não tenho dúvidas, não tenho dúvidas – e repito – que vai ser um país de futuro e há muito dinheiro para ser ganho. Em todas estas situações, há transição.

  Vemos em Portugal que já passados mais de cinquenta anos e ainda continua em transição, um país dentro da Europa. Portanto em África, com 25 anos de transição não se pode pedir que seja tudo feito de pressa e bem. Essa é a minha visão.

  A África do Sul é um país bem estruturado, ainda hoje temos autoestradas que já faziam parte da estrutura anterior. Transporte de electricidade era mais forte aqui do que alguns países da Europa. Portanto, isso também ajudou a que o país não caísse muito, para que não houvesse uma repetição do Zimbabwe e de Moçambique.

  Eu não tenho dúvidas, temos é que pensar e aceitar que não pode haver uma África do Sul branca. Isso passou! Quem cá estiver tem de se adaptar às novas leis, à nova maneira de estar e até, ao tecido social que agora temos de enfrentar e fazer parte dele.

  MG – Um homem com dupla nacionalidade, mas o Valentim, do que se sabe de si, é orgulhosamente português e sempre fez muito pela Comunidade portuguesa. Porquê?

  ComJV – Eu sou religioso, sou católico. Sou crente. E quando isso acontece, penso que são sinais divinos. Quando cheguei a Vanderbijlpark vindo de Moçambique, passei logo a ajudar o APF em Vanderbijlpark no sector cultural. Ajudava a apresentar filmes e outras situações de cultura.

  Uma das minhas filhas, que nasceu na África do Sul, nasceu em Vanderbijlpark, nasceu com deficiência mental. Essa deficiência forçou-me, porque eu já vinha a Joanesburgo tratar dela quase todas as semanas, a mudar também para Joanesburgo. A oportunidade apareceu, nas consultas no hospital encontrei uma assistente social a drª Valentina Gouveia…

  MG – Uma senhora portuguesa.

  ComJV – Sempre! Com os pais de crianças deficientes mentais, todos portugueses, começou-se primeiro por fazer um comité de fundação do Lusito – Associação de Pais e Amigos de Deficientes Mentais. Desse comité nasceu a fundação do Lusito, do qual eu tive o prazer de ser o primeiro presidente. Formado em 1979, mantive-me nos quadros directivos do Lusito durante 17 anos. Foi em princípio a necessidade pessoal e a necessidade de fazer bem e procurar junto dos outros pais que estavam na mesma situação e que não conseguiam ter apoio. E apoio e ajuda!

  Nesta altura não havia apoio nem do governo sul-africano nem do governo português! Era nulo qualquer que fosse o governo. Havia o hospital, o Children’s Hospital que era em Hillbrow. Era mais especializado, mas não era efectivamente uma ajuda especializada. Isso é que nos fez tentar fazer uma escola.

  Com o governo sul-africano da altura foi muito difícil a implantação da escola, iminentemente portuguesa. Derivado à necessidade contrapunha algumas dificuldades e nós contrapúnhamos a necessidade da língua-mãe. E foi dentro dessa base, também com a ajuda de um advogado judeu da praça de Joanesburgo, Júlio Sastro, que acabou por ser o meu vice-presidente na primeira Direcção do Lusito, que conseguimos esta-belecer a escola. Até porque nós fundamentávamos  até com dados científicos, quando uma criança ainda está dentro do ventre da mãe, que recebia os primeiros movimentos e as primeiras sonoras da mãe, que pensava em Português. Como “água”, o “pão” e dentro dessa base o governo sul-africano e com a força e o conhecimento do advogado, porque ele também fazia parte da escola judaica Sally and Segel e, portanto, ficou oficialmente estabelecida em 1979 a Escola do Lusito, na qual tivemos as primeiras dez crianças. E depois foi sempre a andar! Como toda a Comunidade sabe.

  MG: E como é que surgiu a ideia de fazer a Lusitolândia?

  ComJV – Bom, a Lusitolândia… primeiro fez-se durante quatro anos seguidos na União Portuguesa e chamava-se Arraial do Lusito. Em que o logotipo era o Zé Povinho com o balão, mas sem o Bordalo Pinheiro [sorri]! A intenção na altura, era angariar fundos para a escola e dar a conhecer à Comunidade portuguesa a existência da escola e as necessidades. Vender a ideia à Comunidade, isso conseguiu-se!

  Quatro anos depois, começou-se a verificar que a União era demasiado pequena para o nosso projecto, porque, entretanto, conseguiu-se dinamizar o festival. Na altura – e ainda hoje – era uma coisa nova na África do Sul, não só para a Comunidade portuguesa, mas para a sociedade toda. O sucesso foi estrondoso e daí a necessidade de contactar uma companhia profissio-nal, o que foi na altura feito pelo presidente Mário Martins e conseguiu-se o empréstimo do Wemmer Pan. Aquilo precisava de outra cultura, outro desenho e foi feita então a chamada Lusitolândia. Onde se pensou que seria muito bom o desenho de um castelo mas o projecto final nunca chegou a ser acabado, que era um castelo completo com ameias, com restaurante em cima e com uma zona de luta medieval.

  Eu, o Américo Silva e o Raúl Martins, deslocámo-nos a Portugal e fizémos a Rota dos Castelos que na altura não faziam em Portugal a Rota como é feita hoje, mas que se sabia que em Vila Flor da Rosa havia um festival muito bonito. Fomos ao Alentejo e a Espanha também e conseguimos trazer a ideia. Primeiro com a temática das ex-colónias portuguesas, que era Portugal, uma avenida era Moçambique com os camarões, outra era avenida Angola com a galinha e as batatas, outra era da Madeira, outra era Timor, outra era Macau e foi assim que nasceu o primeiro tema dos primeiros cinco ano.

  A ideia era, a cada cinco anos mudar a temática para evitar a saturação! Depois mudou-se para outra temática e hoje o Lusito tem outra gente e outra direcção e outro conceito, mas a ideia principal continua lá.

  MG – Tocou num ponto importante, o de ser crente. O Valentim não se limitou a criar uma escola. Também mecenas da Sociedade Portuguesa de Beneficência, da União Portuguesa, antes na APF. É aquela ligação a Portugal que o impele?

  ComJV – [emocionado] Eu guio-me sempre na vida e acho que a minha mãe teve um papel muito importante na minha formação. Para mim foi mãe e pai e portanto, isto de “fazer bem, não olhes a quem” acho que já é hereditário. E ficou comigo. Sou o mais velho da família e ela transmitiu-me esta ideia. E dentro disso fazer bem não me parece nada de extraordinário, é a minha vida normal. Não faço mais porque se calhar não posso ou porque não sei, mas fazer bem é o meu moto diário. Fazer bem no trabalho, fazer bem às pessoas que precisam, fazer bem até quem não precisa, mas não sabe e de uma maneira geral, conglomerar e dar bom-nome a Portugal fora de Portugal. E isso, sempre me guiou. Porque durante estes anos – e passando ao lado da critica – mas durante muitos anos o governo português em relação à África do Sul, a Comunidade portuguesa ficou a “Cinderela” das Comunidades. Menina pobre, mas bonita. E as comissões, quando existiam algumas, comerciais ou políticas ou juntamente, nunca traziam nem força nem pujança de Portugal dentro da África do Sul. Nós nunca chegámos a saber, nem a África do Sul chegou a saber qual era o real valor certo e a pujança da Comunidade portuguesa e de Portugal em si. E essa é uma das partes que me fazia e faz dedicar ao Associativismo, trabalho bem com pessoas, trabalho bem em direcção. Também não tenho a pretensão que toda a gente gosta de mim. É natural que não gostem. Mas tenho a certeza que no fim de tudo, tenho mais pessoas que gostam de mim do que as que não gostam.

  A minha motivação é sempre ajudar quem precisa e levantar o nome de Portugal cada vez mais alto e melhor! Fico satisfeito, quando tenho reuniões, que saibam que sou Português. Vêem uma fábrica assim, com tudo dedicado à indústria mineira que é tradicionalmente sul-africano, eles olham para mim e perguntam “de onde é que tu vens?”

  O lado de fazer bem está comigo, não faço esforço nenhum, não o faço para impressionar, não o faço por veleidade. Muitas vezes em detrimento da família, mas são opções minhas.

  MG – O Valentim foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem de Mérito. Por impulsionar Portugal. Como é que vê a comenda?

  ComJV – Para mim, certamente que é um orgulho ser comendador. Mas no aspecto geral, não me mudou como pessoa, a minha visão da vida, se houve alguém,  que houve, que achou que eu merecia, me propôs e foi aceite, condecoraram. Aceito com humildade e continuo a minha vida na mesma senda como se não fosse comendador. Não me transforma em nada!

  MG – O Valentim vai muitas vezes a Portugal, a Lourinhã e Portugal em geral, mudou muito. Como é que vê Portugal?

  ComJV – Portugal hoje é diferente do Portugal de antigamente. Claro que, Portugal visto de fora tem outra visão, [emocionado] Portugal em si é uma terra extraordinária.

  Os sucessivos governos, a falta de visão dos governos é um ponto bastante marcante para quem vive do lado de fora. A velocidade de pensamento, de decisão, de execução não é aquilo que talvez Portugal precise. Reconheço que ultimamente há uma série de novos empresários, jovens, que não havia no meu tempo, com quem se pode falar que possuem outra mentalidade. O que é muito bom para Portugal e para todos nós que estamos cá fora, onde o contacto é mais fácil. Portugal está melhor hoje do que estava no meu tempo de juventude, não há dúvida!

  MG – Tem uma existência de África. Continua com vontade de continuar aqui ou tenciona voltar a Portugal?

  ComJV – [pondera] É uma pergunta difícil de responder. Porque eu vejo isto dentro deste prisma: eu tenho duas filhas e é a mesma coisa que me perguntar qual delas é que eu gosto mais? Não tenho uma agenda pré-preparada para regressar a Portugal. Se for forçado por circunstâncias e contra a minha vontade, fá-lo-ei com certeza. Sinto-me bem naquilo que faço, se algum dia deixar de trabalhar, vou mais vezes a Portugal, mais vezes aqui.

  MG – É um homem que se levanta todos os dias às 5h30, com 74 há muitas pessoas que já não fazem o que faz. O que é que o motiva a continuar? Ainda projecta máquinas e peças?

  ComJV – Sempre. Todos os dias. Levanto-me com vontade de fazer mais, melhor e mais de pressa e mais barato. Fazer a peça melhor, mais de pressa e mais barato. É a dinâmica que me leva na vida. Hoje faço peças em 25% do tempo que fazia há 10 anos. As máquinas evoluíram, as ferramentas evoluíram e nós ada-ptámo-nos a isso. Há sempre, todos os dias, coisas novas para fazer e é isso que me motiva levantar-me todos os dias. Sinto-me bem ser útil.

  MG – Para quem está a começar na vida, para quem quer estabelecer-se, que conselhos oferece baseados na sua experiência de vida?

  ComJV – Não há substituição para a honestidade, trabalho e dedicação.  Com estas três coisas as pessoas forçosamente têm que ter sucesso. Não quer dizer que não haja dificuldades, o Mundo hoje com a competição é difícil. Mas, o conselho que dou é sempre esse!

  O comendador José António dos Santos Valentim é tipicamente português, de estatura média, entroncado e elegante, de sorriso franco no olhar e afável. Com um tom de voz suave e uma forma de falar pausada, Valentim é pautado pela calma.

  Orgulhosamente português, mantem bem viva a cultura e a língua ao seu redor. Com um sentido de humor mordaz e um poder de sátira muito grande, uma conversa com o comendador Valentim tem sempre um toque de humor o que não passa despercebido pelo olhar vivo e brilhante, nem a sátira nem a verdade. Uma voz ponderada e calma, é fonte de conhecimento e experiência e um dos faróis da Comunidade portuguesa na África do Sul.