Com as dificuldades que os tempos nos vão impondo até o movimento associativo se vai ressentindo

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Com as dificuldades que os tempos nos vão impondo até o movimento associativo se vai ressentindo

Já o dissemos e voltamos a repetir, ter passado o tempo considerado de “vacas gordas”, em que havendo lugar para todas, se foram formando, com entusiasmo, em Pretória, colectividades, pela sua designação a representarem regiões e clubes mais representativos do nosso futebol, tudo na altura para além de bem-vindo, a dar com isso ao associativismo uma maior dimensão da nossa capacidade realizadora, a par da grandeza da nossa comunidade.

 Sem se adivinhar o futuro, porque esse só a Deus pertence, já que nesses tempos tudo era fácil, simples e rápido quando se metiam mãos à obra para as construir, e as enchentes em aderência às actividades que cada uma ia promovendo a sucederem-se, a verdade é que com o passar dos anos tudo foi mudando, e hoje infelizmente é tudo bem diferente, passando-se do optimismo de então, ao pessimismo do presente, de modo a entrar-se numa encruzi-lhada de futuro incerto para a sobrevivência da maior parte delas.

 Além dos tempos irem mudando as mentalidades,

outros factores contribuírem para o degradar da situação, como principal a insegurança que a partir de certa altura se começou a fazer sentir neste país, com a criminalidade a aumentar, vitimando muitos dos nossos compatriotas – fenómeno esse que infelizmente vai alastrando assustadoramente por todo o mundo, e nesse aspecto Portugal não foge à regra -, passando com isso a assustar muita da nossa gente, que considerando-se insegura e temendo o pior, parte dela acabou por optar pelo regresso definitivo às origens, passando com isso a ser notória a redução em todos os domínios, dos membros da nossa e outras comunidades, já que não foi só a portuguesa a ressentir-se dessa instabilidade, e certamente a tomar idêntica deci-são.

 A partir de então, e habituados que estávamos a salões cheios nos nossos clubes, passou-se a ver diminuir cada vez mais essa afluência, agravada por um lado, com os programas que a televisão portuguesa passou a transmitir em canal internacional nas vinte e quatro horas para todo o mundo, com a maior parte da que ficou por cá, a mais idosa a optar por tranquila, sentada no sofá, seguir esses programas televisivos, emitidos na sua língua pela RTP e a SIC, fugindo com isso ao barulho, para muitos insuportável das músicas, que com o desaparecimento dos conjuntos, foram substituídos por discotecas, enquanto a mais jovem, face às diversões que para as suas idades vão encontrando um pouco por todo o lado, aliado como alegam, continuar a ver os mais idosos a dirigir os destinos dessas nossas casas, e com isso quanto a si, a programar actividades que consideram inadequadas ao seu estilo e pre-ferência, desculpa que diga-se não corresponde inteiramente à verdade, dado quem as vem dirigindo tudo ter feito para a todos agradar.

 A nosso ver o problema para muitos é que até já a riqueza da língua de Camões pouco ou nada lhes diz, e com isso, salvo algumas excepções, a desinteressarem-se por completo de as frequentar, como infelizmente se tem verificado e não o ambiente em si, por-que como até em discursos os próprios directores, como temos constatado, fazem ques-tão de os dirigir, na sua maior parte em inglês, para assim os mais novos tentarem compreender, menos se justificando portanto essa desculpa.

 Perante esse fenómeno, e com a quebra de receitas a tornarem-se insuficientes para o suporte das despesas, es-sas nossas agremiações, especialmente as dotadas de instalações próprias, tiveram de optar por outras soluções e arranjar outras fontes de receita, para com isso conse-guirem sobreviver sem grandes sobressaltos, a ACPP com o seu restaurante a funcionar diariamente, aluguer do salão nobre para festas de casamentos, passagens de modelos e outros eventos, do pavilhão de desportos para certas competições desportivas, a par da cedência de certas dependências desse seu grande património, à Casa do Benfica, ao Sporting Clube de Pretória e à Liga da Mulher Portuguesa, onde essas três continuam a ter instaladas as suas sedes sociais;

 A Casa do Porto, fundada a 21 de Março de 1971 em casa de Sílvio Reis, já falecido, seguindo-se a passagem em sete anos por modestas instalações, de uma antiga igreja na Grand Street, perpendicular à Potgieter Street, vindo depois a fixar-se na sede social que construiu em Buitekant Street, de Pretoria West, inaugurada a 26 de Maio de 1979, com a designação de Porto Futebol Clube de Pretória/Casa do Porto, onde se manteve até fins de 2015, pelo que por alto sabemos, ter vendido essas magníficas ins-talações à “The Favours Cathedral Church”, a quem nestes últimos anos alugara o amplo salão para os seus cultos – daí e com o salão constantemente ocupado a sua última festa ter sido a dedicada ao dia do atleta em 27 de Novembro de 2010, com a presença de Filomena Pinto da Costa -, e pelos vistos se estão a ultimar os preparativos para a transferência dessa propriedade.

 Sabemos entretanto, isto pelo que se diz nos bastidores, ser intenção da comissão constituída por dez elementos, entre antigos e actuais directores, assim como antigos sócios daquela Casa do Porto para venda da propriedade, proceder depois à construção de nova sede noutro local de Pretoria, o que a consumar-se estará fora de hipótese, como alguém chegou a alvitrar, ligar-se à ACPP – Associação da Comunidade Portuguesa de Pretoria, pela sua designação aberta a todos os portugueses, e clubes da comunidade que se lhes queiram juntar, onde já estão instaladas a Casa do Benfica, o Sporting Clube de Pretória e a Liga da Mulher Portuguesa, e pela sua imponência preparada para poder ceder aposentos a outras agremiações lusas citadinas que o desejarem, com as facilidades de no seu salão nobre, qualquer delas poder fazer as suas festas.

 A Casa Social da Madeira além das festas que periodicamente vai levando a efeito, o contrato com a “Union Catering” para certos eventos sociais, na sua maior parte casamentos, que conseguido pelo ex-presidente dessa CSM, Damião de Freitas, ainda se mantém em vigor e provavelmente dará para cobrir a maior parte das despesas mensais.

 Consumada que venha a ter continuidade a Casa do Porto em novas instalações, continuaremos a manter em Pretória, não se sabendo até quando, seis distintas colectividades, ACPP, Casa do Porto, Casa Social da Madeira, Casa do Benfica, Sporting Clube de Pretoria e Club Sport Marítimo, esta última pelo que consta, de num futuro próximo ter de devolver as instalações que ocupa em Hatfield, onde já fizera algumas benfeitorias, aos serviços de “parks e recreations” camarários, isto não incluindo a Academia do Bacalhau, “Os Lusíadas” e a Liga da Mulher Portuguesa, que pela sua designação são consideradas instituições.

 Como dos seis ranchos folclóricos que conhecemos em Pretória, o de Santa Marta, o Santa Maria da Reguenga, o da ACPP, o da Casa do Porto, o da Casa Social da Madeira, e o infantil da Igreja de Santa Maria, só o “bailinho” da CSM se mantém em actividade, isto não falando dos diversos conjuntos musicais, onde apenas sobrevive o “Tona”, dos irmãos Nando e Tony Leitão, não nos admira que devido à redução drástica em assistência aos eventos que vão promovendo, algumas em vez de margem de lucro, a deixarem prejuízo, venham a seu tempo ficar pelo caminho, e dado o entusiasmo e interesse com que eram realizados os seus eventos, dando sempre a entender serem para prosseguir, e nunca desaparecer, certamente confiados em continuidade por parte dos nossos descendentes, e nunca imaginando que as coisas levassem este rumo, ou chegassem a este ponto.

 Enquanto no passado era raro o fim-de-semana que não houvesse actividade festiva em qualquer destas nossas colectividades na capital sul-africana, por vezes até em datas a coincidir com outras congéneres, daí e para evitar que fossem realizadas em simultâneo, e assim cada qual tivesse disponível um sábado ou domingo para o evento planeado no seu clube, fosse criado o calendário de festas publicado anualmente no jornal “O Século de Joanesburgo”, folhetim esse que ainda hoje vigora, do género único no meio associativo português em toda a África do Sul, elaborado no princípio de cada ano, e de acordo com as datas apresentadas pelos líderes das respectivas agremiações, incluindo os eventos religiosas da igreja de Santa Maria dos Portugueses, na actualidade e devido à redução drástica de festejos, já pouco se justificando, apenas continuando a existir por uma questão de colaboração entre os vários directores e manter essa tradição, já que ao contrário do passado são agora raras as diversões semanais e até mensais, promovidas por algumas delas, havendo até quem só raramente faça qualquer festa, e uma delas, a afecta aos leões, com um passado de grandes noites de “Karaok”, atraentes bailes de fantasia, jogo do bingo e a concorrida gincana desportiva, nada fazia prever, que depois de todos esses sucessos, viesse nesse aspecto a ficar inactiva há mais de três anos.

 Tradições como bailes de carnaval, natal da criança, marchas populares, concursos de “marrabenta”, festa da flor e Senhora do Monte, Santa Maria Madalena, eleição de rainhas, dias do pai e da mãe, santos populares (Santo António na ACPP, São João na Casa do Porto, aqui também sendo festejado em vários anos, com grande pom-pa, Santa Eufêmia da Carriça, e o São Pedro na Casa Social da Madeira), para não falar de outras também de grande relevo, deixaram de ser festejados nestes nossos clubes, enquanto o Dia da Mãe só tem sido comemorado ultimamente na ACPP, e os aniversários outrora assinalados por todas com muito brilho, nestes últimos dois anos apenas foram mantidos pela ACPP, Casa do Benfica e a Casa Social da Madeira, enquanto o Marítimo só o assinalou em 2015, parecendo ter aqui também ficado pelo caminho, já que não é disputada desde 2014, a grande corrida anual em atletismo denominada “Meia Maratona”, inserida no calendário oficial da federação sul-africana que em Pretória regula esse desporto pedestre, e em que habitualmente, devido à sua importância, participavam milhares de corredores das diversas na-cionalidades.

Até aqui há apenas a recordar com algum saudosismo, todas essas actividades que cada uma delas ia promovendo, e devido a circunstâncias, na sua maior parte por falta de fundos e colaboração para as manter, foram gradualmente caindo no esquecimento eventos pelo seu significado de grande valor, mas com maior ou menor dificuldade todas vão continuando a sobreviver, pelo menos até aqui, daqui para a frente e com as receitas a tornarem-se por vezes insuficientes para o suporte das despesas, não sabemos que futuro estará reservado a cada uma dessas nossas casas, já que infelizmente por melhor ninguém espere, e com o agravar dos tempos, isto sem ser agoirento, mas sim realista, há que recear o pior.

Vicente Dias