Clima e botânica provam conexão paleogeográfica entre Ibéria e Estados Unidos

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 Um estudo comprovou “pela primeira vez”, com base em dados paleoclimáticos e paleobotânicos, que há cerca de 300 milhões de anos havia uma “conexão geográfica” entre os Estados Unidos e a Península Ibérica, revelou o coautor português.

 Em declarações à Lusa, Pedro Correia, o paleontólogo e naturalista do Instituto de Ciências da Terra da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), explicou que o estudo, feito em coautoria com Brendan Murphy, professor da Universidade St. Francis Xavier, no Canadá, e publicado este mês na revista “Scientific Reports”, prova, “pela primeira vez”, que no supercontinente Pangeia, os Apalaches (cordilheira montanhosa nos EUA) e a Ibéria estavam conectados.

 “A Ibéria e os Apalaches estavam relativamente muito próximos na parte interior do Pangeia”, afirmou o investigador, adiantando que os dados recolhidos mostram que a Ibéria “estava completamente ligada a Nova Iorque e Boston”.

 Segundo Pedro Correia, o estudo, que estava a ser desenvolvido há mais de 10 anos, resulta da combinação de dados paleoclimáticos, paleoambientais e paleobotânicos.

 “Os dados paleoclimáticos permitiram concluir que a zona da América do Norte e a Ibéria partilhavam o mesmo ambiente, um ambiente seco e árido, o que favoreceu a troca de flora entre as duas massas terrestres primitivas”, referiu.

 Um dos factores que permitiu chegar a esta conclusão foi a descoberta, através de escavações, de uma planta fóssil “muito rara” (a ‘Lesleya’) em São Pedro da Cova, em Gondomar.

 “Esta planta só existe nos Estados Unidos da América (EUA) em ambientes secos e áridos (…). É uma espécie que teve de emigrar dos EUA e isso aconteceu porque como as duas massas terrestres partilhavam o mesmo tipo de ambiente, houve a dispersão e migração de um tipo de flora”, disse.

 A descoberta desta planta fóssil na zona da Bacia do Douro permitiu ainda, segundo o investigador, descobrir o “momento exacto” da elevação das cadeias montanhosas dos Apalaches e Ibéricos (designados Varíscos).

 “O facto de termos descoberto este tipo de flora em Portugal sugere que conseguimos determinar o momento exacto da elevação das cadeias montanhosas da Apalache e da Ibéria, por volta dos 300-303 milhões de anos. Porque se as cadeias montanhosas funcionaram como barreira física, como é possível haver troca de floras e fauna?”, reiterou.

 À Lusa, Pedro Correia adiantou que o estudo, que está a ser “citado por vários investigadores à escala mundial”, permite assim corroborar a teoria sobre o supercontinente proposta em 1912 por Alfred Wegener e, de igual modo, contrariar a teoria de Irving, em 1977.

 “O nosso trabalho veio dar luz a várias questões, essencialmente, porque não se sabia bem onde ficava a Ibéria no supercontinente Pangeia, e agora já há uma combinação de dados sobre isso. Aliás, este é um trabalho extremamente importante para a comunidade académica”, concluiu.

 Além do paleontólogo Pedro Correia, participou neste estudo Brendan Murphy, investigador e professor da Universidade St. Francis Xavier, Nova Escócia (Canadá).