Cimeira inovação em Cabo Verde: Para que haja progresso em África é preciso acabar com as ditaduras

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Cimeira inovação em Cabo Verde: Para que haja progresso em África é preciso acabar com as ditaduras

O Presidente de Cabo Verde defendeu na quinta-feira que é necessário acabar com os conflitos e com os regimes ditatoriais africanos para que o continente apresente progressos, pedindo novas lideranças “mais pragmáticas”.

 Questionado pela agência Lusa, no final da Cimeira sobre Inovação em África, que decorreu desde terça-feira na Cidade da Praia, Jorge Carlos Fonseca sintetizou o que afirmara pouco antes, no encerramento da conferência, salientando que só assim o continente africano poder afirmar “definitivamente” o ideário da democracia.

 Confrontado com a necessidade de acabar com as ditaduras para assegurar o desenvolvimento de África, Jorge Carlos Fonseca foi taxativo: “Sim, para sermos francos”.

 “Não pode haver progresso em África, essa África projectada para daqui a 30 anos, não existirá se não formos capazes de resolver os conflitos. Se não criarmos condições para não haver golpes de Estado” ou “regimes militares”, frisou o presidente cabo-verdiano.

 O continente tem de trabalhar para que “triunfe, em definitivo, o ideário da democracia, da liberdade, dos direitos humanos, da inclusão social, da igualdade do género, para uma África que seja capaz, finalmente, de criar condições para o bem estar económico, social e cultural das pessoas. Os líderes são pagos para isso”, sustentou.

 Questionado também pela Lusa sobre se tem faltado pragmatismo às novas lideranças africanas, Carlos Fonseca afirmou que essa atitude está cada vez mais presente no continente.

“Tem havido agora mais pragmatismo, talvez, do que há uns anos atrás, mas falta trabalhar ainda mais nesse caminho”, disse, aludindo também à necessidade de África evoluir, sobretudo através da inovação, tema da conferência na Cidade da Praia e que reuniu mais de 250 especialistas de 30 países, maioritariamente africanos.

 “A inovação implica transformações nas atitudes, nos produtos industriais, mas também nos próprios modelos de organização económica e social e, quiçá, o próprio Estado. Tem de ser uma atitude permanente de criatividade, de procura, com os menores custos possíveis e com as melhores e mais eficazes so-luções”, sustentou.

 Segundo o presidente cabo-verdiano, quando se discute a inovação em África “para além dos contextos românticos e históricos”, o que interessa é a transformação num continente “competitivo”, num parceiro “incontornável” e em “pé de igualdade” com a Europa e com a América.

 “Tem de se apostar fortemente nas novas tecnologias, no desenvolvimento inovador em áreas como a energia, produção agrícola, em modelos de gestão fundiária, de registos dos quadros legais, para que possa, além dos discursos, das proclamações e das ambições legítimas, em 10, 15, 20 anos, competir com outros continentes”, disse.

 Salientando a evolução significativa na União Africana (UA), que substituiu a Organização da Unidade Africana (OUA), Fonseca, que conheceu a instituição como diretor geral, como secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, como chefe da diplomacia e agora como Presidente de Cabo Verde, reconhece a mudança da estrutura.

 “Basta pensarmos que, hoje, os textos da UA – o projecto de desenvolvimento da ‘Agenda pós-2015’, ou a ‘Agenda 2063’, em que se fala de uma África com um crescimento inclusivo, de direitos humanos, de Estados de Direito, de democracia, de igualdade de género, para ver que África mudou muito. Este discurso não é o de há 30 anos atrás”, frisou, contando, depois, um pequeno episódio passado na cimeira da organização reali-zada a 30 e 31 de Janeiro, em Addis Abeba, na Etiópia.

 “O presidente da Zâmbia (Michael Sata), numa tirada a seu jeito, disse na sua intervenção que se os discursos e os propósitos fossem factores de desenvolvimento, África estaria no primeiro lugar. Foi um discurso crítico, mas de prudência em relação a ex-cessivos optimismos. O que quer dizer que as novas lide-ranças africanas têm de trabalhar muito”, contou.

 Sobre a cimeira da Cidade da Praia, Fonseca salientou a necessidade de haver seguimento e de avaliar o impacto no arquipélago e fora dele, defendendo que se devem também manter as redes de contacto criadas com a parti-cipação de mais de 250 especialistas de 30 países, maioritariamente africanos.

 

* Três estadistas africanos avisam que inovação no continente só chegará com democracia total

 

 Os presidentes de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, e do Ruanda, Paul Kagamé, e o ex-chefe do Estado de Moçambique Joaquim Chissano consideraram que a democratização total em África é essencial para a inovação no continente e “africanização” do mundo.

 Esta ideia foi defendida pelos três estadistas, durante uma “sessão especial” de quase três horas enquadrada na Cimeira sobre Inovação em África, intitulada “Liderando a Inovação: Conversas com Presidentes”, na Cidade da Praia.

 As apostas na inovação e transformação em África, nas melhores práticas na criação de políticas de investigação, na educação e no empreendedorismo e ainda formas de apoiar a criatividade foram, em síntese, os temas abordados por Fonseca, Kagamé e Chissano, que foram unânimes de que há ainda muito a fazer.

 Apesar de África ser o continente que mais tem crescido em termos económicos e populacionais, as melhorias “não têm sido ainda suficientes” face aos “elevados índices de miséria” que persistem, a par de conflitos, insegurança e de regimes em que a liberdade e a democracia são restringidas, entre outros obstáculos, precisou Fonseca.

 O compromisso entre o sector público e privado deve também prevalecer nos Estados africanos, acrescentou o Presidente cabo-verdiano, salientando que a Agenda Pós-2015 para África deve ser encarada de frente pelo continente, que terá de apostar nas novas tecnologias para se desenvolver e recuperar o atraso.

 Lembrando a “ambiciosa” e ainda longínqua “Agenda 2063”, que os chefes de estado e de governo africanos devem aprovar na cimeira de Julho deste ano, Fonseca defendeu que cabe às novas lideranças de África “fazer ropturas e abrir novos caminhos” para que, nesse ano, o continente possa estar em posição de “africanizar” o mundo.

 Kagamé, por seu lado, começou por questionar se África tem já as políticas certas para impulsionar a inovação, lembrando que o conhecimento, criatividade e a utilização das novas tecnologias são ainda incipientes no continente e são poucos os países que estão a modernizar-se, Ruanda incluído.

 O Chefe do Estado ruandês lembrou a experiência no país que governa desde 2000, e numa altura em que passam 20 anos sobre o fim do genocídio ruandês, para indicar que a inovação tem sido uma constante, mesmo que, para tal, tenha, nalguns casos, abdicado das novas tecnologias para dar lugar à sabedoria ancestral.

 “Inovámos, por exemplo, na Justiça. Em 19 anos, o Tribunal Penal Internacional para o Ruanda julgou 60 casos e gastou 2.000 milhões de dólares (1.540 milhões de euros). Nós, face à necessária reconciliação, recorremos à justiça tradicional e, ao longo desses 19 anos, criámos 52.000 tribunais populares, julgámos dois milhões de casos e gastámos metade”, disse, entre outros exemplos, Kagamé.

 Por sua vez, Chissano recuou no tempo e defendeu que a inovação sempre esteve presente no continente africano, faltando-lhe apenas os meios pós-independência para ir mais longe no desenvolvimento, responsabilizando a “Guerra Fria” pela precarização dos regimes.

 “Os movimentos de libertação africanos foram uma inovação, combater a colonização foi uma inovação, o PAIGC, a Frelimo são inovações. Mas os países africanos ricos acabaram por ficar para trás no desenvolvimento. A Nigéria, Gabão, Guiné Equatorial e Congo, todos com imensos recursos naturais, não souberam aproveitar a oportunidade”, salientou o antigo presidente moçambicano.

A agricultura em África, onde labora a maioria dos africanos, acrescentou, é um sector que deve contar com uma aposta forte na inovação, independentemente dos condicionalismos como, por exemplo, os 50 milhões de hectares de terra que estão atualmente a ser negociados com investidores estrangeiros, perdendo-se recursos soberanos: a terra e a água”, alertou o antigo Presidente moçambicano.