Cerâmica portuguesa de Rustenburg chegou a fabricar na época o jarrão mais alto do Mundo

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A arte de bem moldar o barro em peça cujas dimensões constituem recorde mundial, levou na década 90, uma empresa cerâmica portuguesa da África do Sul – a Faiarte Cerâmics – a candidatar-se à inscrição do seu nome no “Guinness Book of Records”.

  O jarrão decorado com motivos egípcios, tinha 5,36 metros de altura, pesava cerca de 700 quilos, levou dez dias a moldar, cinco dias a gravar, quatro dias a pintar, 37 horas a cozer em forno especial, e três dias a arrefecer.

  A ideia da construção desta valiosa peça nasceu, segundo na altura revelou António Faustino, da visita feita por um seu amigo à China, e lhe enviou uma fotografia do museu que ali visitara, segundo a legenda, ao lado da maior peça de cerâmica do mundo, com a altura de 2,55 metros, deixando então António Faustino, que para a arte de moldar o barro nascera em Alcobaça, vila banhada pelos rios Alcoa e Baça, daí derivar o nome da localidade, como é sabido uma terra fértil e de grandes tradições em cerâmica, a pensar a sério em bater esse recorde.

  Com esse objectivo, foram iniciados de imediato contactos com os editores do “Guiness Book of Records” que sem perca de tempo informaram, haver uma peça nos Estados Unidos, com a altura máxima de 2,79 metros, levando então este industrial português a afirmar que isso para a sua cerâmica eram “peanuts”.

  Entretanto e devido ao grande fabrico diário de peças para abastecer o mercado local, só passado um ano voltou a Faiarte a contactar o “Guinness”, recebendo como resposta ter o recorde subido para uma outra peça de 3, 40 metros na Dinamarca, formada por duas secções – um pote com tampa -, desconhecendo-se a medida de cada uma delas.

  Foi então que se começou a desenhar esta peça com 5,36 metros, tomando em conta o equilíbrio do barro, de forma a que durante a cozedura não sofresse deformações, optando-se assim por um modelo de tipo oval, de garganta alongada, com o propósito de conferir resistência a essa peça, projecto esse da autoria de António Faustino, com a colaboração do oleiro brasileiro João Morais, a trabalhar na Faiarte, que viria a trabalhar o barro, pensando-se também na largura máxima da peça, uma vez que ao excederem-se determinados limites, o barro se torna difícil de trabalhar, para mais para uma peça com dimensões faraónicas, em que só os faraós é que tinham projectos destes, com motivos egípcios que todo o mundo conhece e aprecia esses estilos, justificava António Faustino.

  Antes de gravados no jarrão os motivos nele aplicados, foram desenhados em papel por António Faustino e pelo ceramista brasileiro Pedro Noriata, este que depois procedeu às respectivas incisões no barro, ficando a coloração da peça a cargo de Lucília Faustino, mulher do industrial e pintora de reconhecido mérito nesta actividade, em que decidido pela equipa de trabalho as cores a aplicar, o fundo da peça em tom parecido com a do papiro, e as restantes não fugir às pinturas egípcias, daí o jarrão apresentar tons de castanho, amarelos, pretos e azuis, com um fundo envelhecido.

  Segundo António Faustino, – que para a apresentação desse jarrão convidara o então Mayor de Rustenburg, o presidente da Associação de Cerâmicas na África do Sul, e a recente eleita na ocasião Miss South África, Suzette van der Merwe – os gastos aplicados no fabrico desta peça de cerâmica, nessa altura mais alta do mundo, foram estimados em mais de trinta mil randes, sendo sua intenção motivar uma empresa de leilões a proceder à venda dessa gigantesca peça, e a receita reverter a favor de instituições de beneficência, desconhecendo-se se tudo isso viria a acontecer, por entretanto António Faustino, com quem perdemos o contacto, ter decidido pouco depois deste feito regressar definitivamente à sua terra natal, ao que parece para ali se dedicar a esta mesma actividade.

  Com mais esta fabulosa produção artística de grande valor, ficou demonstrada a capacidade de imaginação e produção portuguesa em olaria, uma indústria dedicada ao fabrico de louça para uso doméstico, mesa e cozinha, assim como nos mais diversos artigos decorativos provado, não ficarmos nada atrás dos mais credenciados produtores mundiais neste sector, a par do nome da África do Sul, país onde foi fabricado este enor-me jarrão, ficar como prestigiante também registado no “Guinness Book of Records”, uma empresa que tem por missão classificar qualquer recorde mundial.

  A este feito fica ligado o nome do industrial António Faustino, que natural de Alcobaça, para onde consta ter voltado depois dos anos em que residiu na África do Sul, originada pela descolonização, em que se viu como tantos outros a abandonar Angola.

  Como António Faustino, muitos outros optaram pelo mesmo motivo, dado serem abandonados à sua sorte, a deixar Angola, tal como muitos

outros seus compatriotas, pelas mesmas circunstâncias a sair por essa altura de Moçambique, a maior parte com maior ou menor dificuldade, consoante as suas aptidões aqui singrando, alguns até a quem a vida mais lhe sorriu a alegar ter esse mal acabar por vir por bem.

  Com a debandada em massa das pessoas dessas ex-províncias ultramarinas, acabou por tranquilizar o espírito de quem aqui se radicou pelo clima de paz que aqui encontrou,  beneficiando com isso a África do Sul pelo contributo dos que aqui se fixaram, no  desenvolvimento do país, só que com a chegada agora do “CODVI-19”, a des-truir assustadoramente por todo o mundo as eco-nomias de cada país, não se sabendo com preocupação o que será o fim de tudo isto.

Vicente Dias