Catedral de Notre-Dame vai ser reconstruída depois de atingida por violento incêndio

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O Presidente da França, Emmanuel Macron, lançou uma campanha nacional para a reconstrução da Catedral de Notre-Dame, em Paris, atingida na segunda-feira por um forte incêndio, que teve início na ala onde decorriam obras de conservação do templo.

 Macron apelou aos vários “talentos” do país para que ajudem a reconstruir a catedral.

 O Presidente classificou o incêndio como um “drama terrível” e destacou a importância da catedral para os franceses. “A Notre-Dame de Paris é a nossa história, nossa literatura, é o epicentro de nossa vida”, afirmou. “É a catedral de todos os franceses, mesmo daqueles que nunca aqui vieram.”

 “Há mais de 800, anos soubémos como construir esta catedral e, através dos séculos, soubémos como fazê-la crescer e como melhorá-la. Vamos reconstruí-la, todos juntos”, disse Emmanuel Macron, presidente da França.

 Com doacções milionárias de vários empresários franceses, a campanha de angariação de fundos já ultrapassou um bilião de euros. A ONU e a União Europeia já informaram que ajudarão a França na reconstrução da igreja.

 O fogo foi controlado pelos bombeiros ao fim de 15 horas de chamas intensas. O pináculo, localizado no centro da catedral, ruiu e dois terços do tecto da catedral foram devastados pelas chamas.

  Os bombeiros disseram que o incêndio terá começado no sótão da catedral e admitiram que a situação poderá estar ligada aos trabalhos de reabilitação do edifício, que é o monumento histórico mais visitado da Europa.

 O governo francês informou, porém, que a estrutura do edifício está preservada. A causa do incêndio ainda é desconhecida.

 “O pior foi evitado”, segundo Macron, a fachada e a estrutura principal da catedral de Notre Dame não irão desabar graças ao trabalho dos quase 500 bombeiros envolvidos na operação de combate às chamas, a quem ele agradeceu pela “extrema coragem” e “profissionalismo”. “O pior foi evitado, mesmo que a batalha não tenha sido completamente ganha”, declarou.

 

* Incêndio consumiu dois terços da catedral

 

 O incêndio de grandes proporções que destruiu parte da catedral de Notre Dame, em Paris, foi dado quase totalmente extinto na madrugada deterça-feira. O fogo, que deflagrou na segunda-feira por volta das 18h50 consumiu dois terços do topo do edifício e causou ferimentos graves num bombeiro.

 A torre central e o tecto sucumbiram totalmente às chamas, que chegaram a ameaçar a torre norte. Mas as duas torres do edifício foram poupadas às chamas e a estrutura, o altar, a cruz de Cristo e as relíquias não terão sido destruídos. Os resultados da investigação preliminar dizem que o incêndio foi “acidental”.

 

* Notre-Dame: A catedral iniciada no século XII, acrescentada e alterada ao longo dos séculos

 

  A Catedral de Notre-Dame foi edificada em 1163, iniciou a função religiosa em 1182, embora os trabalhos de construção tenham prosseguido até 1345.

 Os primeiros arquitectos foram Pierre de Montreuil e Jean de Chelles, mas a catedral, construída na Île de la Cité, continuou a ser acrescentada e alterada, ao gosto das épocas, ao longo dos séculos, para lá de 1345.

 Em finais do século XVII, no reinado de Luís XIV, o templo foi alvo de alterações substanciais, com a destruição de alguns vitrais e a introdução de elementos da gramática do barroco.

 No contexto da Revolução Francesa (1789), outros elementos da Catedral foram destruídos e alvo de roubos, nomeadamente, os seus tesouros artísticos.

 Em 1844 a Catedral foi restaurada ao gosto da gramática do romantismo, sob a égide dos arquitectos Eugéne Violletle-Duc e Jean-Baptiste Lassus, mas, passados poucos anos, em 1871, foi novamente palco de turbulência social, tendo supostamente sido alvo de um incêndio.

 Em 1965, as escavações realizadas levaram à descoberta de catacumbas romanas, uma catedral merovíngia do século VI e um bairro medieval.

 Em 1991, foi iniciado um projecto de restauro e conservação, com um prazo de dez anos, mas que não tinha sido ainda dado como terminado.

 A catedral inspirou vários artistas plásticos, como Henri Matisse, e também escritores.

Em 1831, Victor Hugo publicou o romance “Notre-Dame de Paris”, em que surge, entre outras personagens, Quasímodo, o corcunda de Notre-Dame, e a cigana Esmeralda, ficção mais tarde adaptada várias vezes ao cinema.

 A primeira adaptação cinematográfica foi em 1923, por Wallace Worslei, e entre outras, destacam-se a de 1939, de William Dieterle, com Charles Laughton, a de 1956, por Jean Delannoy, com Gina Lollobrigida e Anthonny Quinn, e a de 1996, um filme de animação dos Estúdios Disney, e, em 1997 por Peter Medak, com Salma Hayek.

 Desde o início de fevereiro até ao final de março, deste ano, mais de 10 igrejas em França foram alvo de ataques ou de pequenos incêndios.

 A Igreja de Saint Sulpice, a segunda maior de Paris, depois de Notre-Dame, foi alvo de um ataque, no passado dia 17 de março, depois de a porta principal, em madeira, ter sido incendiada.

 

* Incêndio deixa marcas no que é a identidade artística europeia

   – especialista

 

 O incêndio na Catedral de Notre-Dame, em Paris, “deixa marcas naquilo que é a identidade artística da civilização europeia”, disse à Lusa o historiador Marco Daniel Duarte, um dos coordenadores do projecto Rota das Catedrais, do Ministério da Cultura.

 “O fogo na Catedral de Notre-Dame deixa marcas naquilo que é a identidade artística da civilização europeia. A Europa tem matrizes que vêm da Grécia e de Roma, mas sabemos que se constrói, fundamentalmente, a partir da Idade Média, e na Idade Média as catedrais são o edifício por excelência da identidade europeia, Notre-Dame simboliza tudo isto”, disse o director do Museu do Santuário de Fátima.

 “Ao arderem aqueles pináculos é toda uma civilização que está a arder, e que se confronta com a sua própria identidade, que neste momento sofre”, disse Marco Daniel Duarte, membro da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa, que afirmou que lhe custa falar perante tanta “devastação”.

 “Toda a cultura da catedral – que significa não apenas a parte religiosa, enquanto sede episcopal, mas também como centro da cidade que se desenvolve à sua volta, a catedral estava na Idade Média no centro da cidade -, é uma grande metáfora daquilo que é a civilização europeia”, afirmou.

 “Para além dos pináculos que vêm abaixo, dos vitrais que se partem, das abóbadas desmoronadas, das gárgulas, há todo um património imaterial que está associado aquilo que estamos a assistir”.

 O investigador referiu ainda que o incêndio põe em causa alguns objectos devocionais, nomeadamente relíquias da “Paixão de Cristo” que são veneradas pelos católicos nesta altura do calendário religioso, nomeadamente uma parte da coroa de espinhos de Jesus Cristo.

 Marco Daniel Duarte é doutorado em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, é académico-correspondente da Academia Portuguesa da História, membro da Associação Portuguesa de Historiadores da Arte e do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, da Universidade de Coimbra

 

MENSAGENS DE PESAR

 

 Entre as primeiras mensagens de pesar e de solidariedade contam-se as dos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, bem como dos chefes de Governo da Alemanha, Angela Merkel, e de Espanha, Pedro Sanchéz.

 O chefe de Estado português, Marcelo Rebelo de Sousa, enviou um “abraço sentido” numa mensagem ao Presidente francês, Emmanuel Macron, em que lamenta o incêndio na Catedral de Notre-Dame de Paris.

 “Caro Presidente Macron, meu Amigo: Uma dor que nos trespassa o olhar e logo nos marca a alma, Paris sempre Paris ferida na sua Catedral em chamas, um símbolo maior do imaginário colectivo a arder, uma tragédia francesa, europeia e mundial”, lê-se na mensagem, divulgada no portal da Presidência da República na Internet.

 Marcelo Rebelo de Sousa despede-se de Macron enviando-lhe “de Lisboa um abraço sentido”.

 O primeiro-ministro, António Costa, transmitiu ao chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, e à presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo, mensagens de solidariedade pelo “terrível incêndio” na Catedral de Notre-Dame.

 “Acabo de transmitir a minha solidariedade ao Presidente da República, Emmanuel Macron, e à presidente da câmara, Anne Hidalgo pelo terrível incêndio na Catedral Notre Dame de Paris. É um pouco da nossa história da Europa que desaparece sob as chamas”, escreveu António Costa na rede social Twitter.

 Jorge Torres Pereira, embaixador de Portugal em França, acompanhou o incêndio na catedral parisiense com “profunda consternação e tristeza”, mas diz que é preciso ter ideia positiva já que a estrutura do monumento foi preservada.

 “Houve, por um lado, um momento de grande choque e agora, de certa maneira, um momento de alívio, já que vimos que a nave central não ficou afectada. É evidente que para um católico há uma dimensão adicional, mas é preciso ter uma ideia positiva de que a catedral de Notre Dame é uma senhora velhinha, que já teve várias intervenções”, disse o embaixador português em declarações à Agência Lusa.

 O diplomata português acompanhou as imagens do incêndio que se propagou segunda-feira na Catedral de Notre Dame com “uma profunda consternação e tristeza”. “É sempre aquele problema de sentirmos que uma parte de nós se está a perder”, reforçou o embaixador Jorge Torres Pereira.

 Quanto à reconstrução, o diplomata afirmou que Portugal e os seus artistas poderão responder ao apelo do Presidente Macron para reunir os especialistas necessários para fazer renascer Notre Dame no seu esplendor. “Há uma expressão do Presidente Macron, sobre os melhores artistas que possamos reunir e que serão chamados a contribuir, e haverá, eventualmente, um contributo nosso”, concluiu o diplomata.