Cada vez mais se justifica uma única colectividade que albergue as restantes agremiações portuguesas de Pretória

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 Já lá vai o tempo considerado de “vacas gordas”, em que havendo lugar para todas, se foram formando com entusiasmo em Pretória, agremiações, pela sua designação a representarem regiões e os clubes mais representativos do nosso futebol, tudo na altura para além de bem-vindo, a dar ao associativismo uma maior dimensão da nossa capacidade, e grandeza da comunidade portuguesa.

 Com o deteriorar da situação neste país em anos anteriores, e infelizmente foi aumentando de volume numa área considerada nevrálgica, como é a segurança, vitimando ou traumatizando muitos nossos compatriotas, e os assaltos a negócios e residências a sucederem-se, passou a assustar muita da nossa gente, que considerando-se insegura e temendo o pior, acabou por optar em regressar às origens, passando gradualmente a ser notória a redução, em certos domínios, dos membros da nossa comunidade.

 A partir daí, e habituados que estávamos a casas cheias nas actividades que as nossas colectividades iam regularmente promovendo, passou-se a ver diminuir  cada vez mais essa afluência, agravada com os programas que os canais de televisão  portuguesa passaram a transmitir, nas vinte e quatro horas para todo o mundo, com a maior parte da que por cá ficou, mostrando-se insegura, optar por tranquila, sentada no seu sofá, seguir esses programas televisivos, para mais emitidos na sua língua, benefício este também ao que

consta, tal como há anos aconteceu com a TAP que deixou de voar para Joanesburgo, imposta outro revés, já que quem quiser seguir esses programas, tanto na RTP como na SIC, terá brevemente de puxar pelos cordões à bolsa, para aquisição de outro novo sistema  que internacionalmente lhes permitam seguir essas transmissões.

 Perante esse fenómeno e com a quebra das receitas a tornarem-se insuficientes para o suporte das suas despesas, as nossas agremiações, não obstante as consideradas principais, dotadas de instalações próprias, foram pelas circunstâncias obrigadas a optar por outras soluções para conseguirem sobreviver, virando-se para outras fontes de receita, baseadas em convívios mensais, com patrocinadores para as despesas dessas actividades e algumas nem isso, daí não se sabendo como ainda vão sobrevivendo.

 Ora e como bom de ver, há que tudo fazer para se sobrepor à congénere em captar membros, e é aí  que gradualmente se começou a notar uma certa guerra fria, e sem  ninguém querer atirar a primeira pedra, e se a atirava era com a mão escondida, optou-se pelo alheamento de uns para com as actividades dos outros e vice-versa, ao ponto de raramente e contra o que estávamos habituados a notar nas festas que cada um uma ia promovendo, a ausência de directores e de alguns sócios das congéneres opositoras.

 Com o andar dos tempos e essa guerra-fria a manter-se e sem ninguém para a reprimir, estando-se nas tintas para as suas consequências, tudo permitindo e a pouco e pouco deixando correr o marfim, até que lentamente e embalado pelo comodismo se deixar enquadrar nesse sistema, uma vez não estar para se chatear, dado que para muitos desde que vá tendo a porta aberta para entrar, beber uns copos e jogar umas cartas é quanto baste.

 E é por isso, sempre a pensar em fazer o menos possível, que ao contrário de outrora se faziam campanhas para encabeçar e formar direcções, hoje para não serem pressionados a integrar executivos, pois a acontecer teriam forçosamente, contra a sua vontade, de fazer alguma coisa, já nem sequer aparecem em assembleias gerais, e os poucos que vão aparecendo quando lhes é pedido para encabeçar ou fazer parte de qualquer órgão directivo, se desculparem com mil e um  argumentos para não aceitarem o cargo, prontificando-se por outro lado a ajudar no que for preciso, alegação que com o andar dos tempos nos levaram a classifica-la de “lenga-lenga”, em que como nós já poucos acre-ditam por considera-la de desculpa do mau pagador.

 Em face de tudo isso, as nossas colectividades, salvo raras excepções, se é que ainda as há por aí, chegaram a uma encruzilhada de difícil solução, que como temos presenciado, se não lhes deitarem a mão meia dúzia de carolas, daqueles que antes quebrar do que torcer, o amor à causa lhes dá força para continuar, e a afeição à casa que ajudou a construir, e com carinho participou no seu progresso, contribuindo por vezes, sabe-se lá monetariamente com quanto, ao ponto de por vezes sacrificar a actividade profissional e o próprio lazer junto do agregado familiar, para continuar a ver de pé e intocável um património, para si abençoado, recebendo como recompensa a esses sacrifícios dos outros que pouco ou nada fazem, com insinuações de “se lá está é porque nisso tem interesse; se lá continua é porque ainda não mamou o suficiente”, a par de alcunhados de velhos do Restelo que não querem deixar o tacho, etc. etc.

 Mas como essas injúrias e classificações vêm de longe, já poucos lhe dão ouvidos, limitando-se com um sorriso a encolher os ombros e não dar grande importância a essas versões, acabando por tudo ir caindo no marasmo, daí se chegar à triste realidade, ou todas elas se juntam debaixo de um só tecto, no mesmo complexo, onde tenham um aposento para as suas reuniões e realizarem as suas festas no mesmo salão, e com isto tentar reduzir as suas despesas e tentar captar mais afluência aos seus eventos, já que a acontecer dita o dever moral de se ajudarem uns aos outros, em suma apenas uma que sirva os interesses da comunidade, ou a seu tempo, diremos não muito distantes ir tudo por água a baixo.

 Isto de hoje se fazerem festas e convívios, onde comparado com outros tempos de casas cheias, aparece agora meia dúzia de gatos pingados, sempre as mesmas caras, com as mesmas pessoas a ajudar, terá forçosamente, como em todas as coisas, devido a saturação, os seus dias contados, facilmente se adivinhando o que poderá acontecer, quando os poucos sacrificados, considerados pilares de resistência, ainda por cima criticados, resolverem afastar-se ou a elas deixarem de dar o seu assíduo contributo.

 Para se tentar pôr côbro a essa situação, ainda se chegou a fazer em tempos uma reunião com a presença de todos os clubes de Pretória, isto a 13 de Setembro de 2007, na ACPP, com o comendador Jaime Margarido na função de moderador e a oferecer os seus préstimos sempre que para tal lhe fosse pedido, parecendo cair em saco roto todos os factores que como pessoa idónea e experiente em associativismo ali apontou, tendentes a melhorar a situação, antes pelo contrário tudo parecendo depois daí tudo se ter agravado, bem demonstrativo não haver vontade de alguns em dar um passo, ou até mesmo a mão à palmatória, para se tentar de uma vez por todas acabar com esse impasse, em certos casos provocado por rivalidade, que foi minando e corroendo o sistema, em vez de se enveredar no bom caminho do entendimento.

 Picuinhas, rixas, mal-entendidos e atritos, cada qual lutando a todo o custo puxar a brasa à sua sardinha, o que parece um mal generalizado no português, sempre houve e dificilmente ninguém poderá corrigir, só que quanto a nós e despidos de qualquer tendência em facciosismo, ou favoritismo, tudo se agravou a partir da altura em que o vice-cônsul Mário Silva deixou, pelo facto de ter passado, a seu pedido, à situação de aposentado e passar a viver em Portugal, de chefiar os serviços consulares.

 Como já tive a oportunidade de o referir no passado, Mário Silva era um homem que cho-rava quando via a comunidade sofrer, e se mostrava radiante quando a via feliz. Contra todos os defeitos que lhe possam apontar, tinha o condão de saber apaziguar, e estando sempre em cima do acontecimento, quantas vezes ao aperceber-se de algo não correr bem na comunidade, de fulano estar em litígio com sicrano, especialmente quando envolvesse personalidades ligadas ao associativismo, e estivessem em jogo ou pudesse vir a ser lesada qualquer colectividade da sua área consular, neste caso específico as de Pretória, lá estava ele  a interferir, tanto pessoalmente com as partes em conflito, frente a frente na sua presença para a reconciliação, como em palco apelando e aconselhando constantemente à união na comunidade, necessitando para isso da tolerância de uns para com os outros, e na verdade é que essa postura, diga-se a todos os títulos louvável, lá foi levando a água ao seu moinho, de modo a tudo correr da melhor maneira, durante os largos anos em que foi responsável pela secção consular da nossa embaixada, na capital sul-africana.

 Até alguns líderes dos clubes portugueses de Joanesburgo, apercebendo-se do empenho do vice-cônsul, em manter unida a comunidade, sabe-se lá se por vezes com alguma ponta de ciúme, face aos problemas que nesse sector iam ocorrendo na capital do ran-de, chegarem nessa altura a interrogar para os seus homólogos da cidade jacarandá: “O que será das colectividades da capital, um dia que Mário Silva saia de Pretória”, parecendo já prever ou adivinhar o que iria acontecer, palpites em que infelizmente não falharam.

 Agora com a falta desse líder, cabendo aos responsáveis por cada agremiação, tentar solucionar o seu problema, o que infelizmente parece sem fim à vista, a menos que apa-reça alguém com coragem para os reunir, fazendo-lhes ver que cada qual a puxar para seu lado não vamos a lado nenhum, e em consenso cada qual se pronunciar, ou emitir a sua opinião, se conseguir a seu tempo o acordo desejado, na formação de uma única colectividade, o que a confirmar-se seria o ideal, e mesmo assim difícil de estar resolvido o problema, atendendo por um lado ao afastamento dos nossos jovens às nossas agremiações e por outro ao envelhecimento dos que ainda, uma vez por outra, ou melhor dizendo em ocasiões especiais as vão frequentando, muito pouco para se conseguirem receitas que possam superar as despesas tidas como certas, o que na actualidade é o maior quebra-cabeças para quem as dirige.

 No contacto diário, desde há alguns anos com a comunidade, chegamos à conclusão estar a esmagadora maioria de acordo no nome de Associação da Comunidade Portuguesa de Pretória para albergar as restantes, salvo os de fanatismo doentio, dado possuir um património para em todos os sectores poder servir os interesses de cada uma que se lhe venha a juntar, e com isso a melhor solução do que futuramente se pretende no meio associativo, e senão vejamos:

 A ACPP tem no conjunto de instalações do seu património, dois campos de futebol, um pavilhão para o hóquei em patins e futebol de salão, hoje mais conhecido por futsal, um restaurante com bar e casas de banho privativas a funcionar diariamente, um enorme salão onde todos os que se lhe venham a juntar poderão fazer as suas festas, com bar a funcionar nos dias de actividade e modernas casas de banho opostas no corredor às vitrinas dos troféus, uma espaçosa biblioteca, instalações onde já funcionam a Casa do Benfica, a Liga da Mulher Portuguesa e o Sporting Clube de Pretória, este praticamente inactivo mas com emblema fronteiriço a indicá-lo como sede leonina, por conseguinte com tudo necessário para poder albergar e satisfazer

outras que ali se pretendam instalar, daí e olhando à sua grandeza, já ter sido condecorada pelo governo português com as insígnias da Ordem de Mérito.

 Presentemente, além da ACPP, só a Casa Social da Madeira tem a sua sede própria, em Boshckop Road, de Silver Lakes, onde o seu enorme e moderno salão poderá ser avaliado como acto corajoso e arrojado de Damião de Freitas que o desenhou e

construiu quando presidente da colectividade, enquanto o Club Sport Marítimo continua em modestas instalações que foi remodelando junto ao seu campo de futebol, em Hatfield, estando sujeito um dia, findo o período de utilização concedido pelos serviços ca-marários, a ser despojado dessa prerrogativa, já que a Casa do Porto vendeu a sede que possuía em Pretória West para investir no complexo comercial que adquiriu em Nico Smith Street, de Villieria, desta mesma cidade.    

 Não vemos outra alternativa, e vamos até mais longe, mesmo optando-se apenas por uma única colectividade, será quanto a nós como que um balão de oxigénio, porque quando os considerados mais idosos, como atrás referimos aqueles que ainda vão aparecendo e ajudado a contribuir, desaparecerem, tudo nesse aspecto terá os seus dias contados em sobrevivência, porque para os nossos jovens, salvo uma ou outra excepção, infelizmente já pouco ou nada lhes diz o que é português, a começar pela importante língua de Camões, considerada uma das mais importantes do mundo na actualidade.

 Mas estamos em crer, para não dizer certos, que o que neste prisma se passa em Pretória, não será só característico nesta cidade, mas infelizmente igual noutras congéneres da nossa comunidade espalhadas por esta imensa África do Sul, dado o fenómeno ser idêntico ao que todas elas enfrentam na actualidade, e neste contexto certamente vêm lutando, sabe-se lá com que sacrifício, mas superado pela devoção de alguém para as continuar a manter, sendo caso para dizer: “ O futuro o dirá”.  

                                                                         – Vicente Dias –