Brexit não deve afectar relações entre Portugal e o Reino Unido

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A saída do Reino Unido da União Europeia não deve comprometer as relações bilaterais com Portugal, defendeu na quarta-feira em Londres o Presidente da República, no início de uma visita oficial de trabalho.

 Num almoço com potenciais investidores em Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa saudou a longa aliança histórica entre os dois países, que remonta ao século XIV, a qual defende que deve permanecer próxima no futuro.

 "O mundo muda, a Europa muda, mas as nossas relações bilaterais não mudam", afirmou.

 O Reino Unido anunciou que irá iniciar o processo de saída da União Europeia após o resultado do referendo de 23 de junho, no qual 52% dos eleitores votaram a favor da saída britânica da UE.

 No almoço estavam cerca de uma dezena de representantes de bancos e instituições financeiras, convidados pelo recém-indigitado Lord Mayor, Andrew Parmley, que representa a City of London, a área onde estão concentradas as sedes dos grandes bancos e instituições financeiras britânicos e internacionais.

 Agradecendo a oportunidade para o encontro com potenciais investidores, na qual esteve acompanhado pelo minis-tro das Finanças, Mário Centeno, o Presidente salientou o interesse em desenvolver as áreas das finanças, comércio, educação e transportes.

 "Eu e o governo português estamos profundamente empenhados nesta ambição nacional de captar investimento estrangeiro directo essencial para manter crescimento, em-pregos e desenvolvimento social e económico", afirmou, antes do almoço.

 À tarde, Marcelo Rebelo de Sousa reuniu-se com Theresa May na residência oficial dos primeiros-ministros britânicos, no número 10 de Downing Street, e depois encontrou-se com representantes de associações da comunidade portuguesa no Reino Unido.

 Na quinta-feira, o Presidente visitou a artista Paula Rego no seu estúdio de trabalho antes de um encontro pessoal no Palácio de Buckingham com a Rainha Isabel II.

 

* Marcelo admite que Brexit deu “interesse adicional” a viagem a Londres

 

 O referendo que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia deu um "interesse adicional" à visita do Chefe de Estado português a Londres, a qual foi desmarcada duas vezes, revelou o Presidente da República.

 A visita de Marcelo Rebelo de Sousa ao Reino Unido, que se realizou quarta-feira e quinta-feira, estava no plano das primeiras visitas de cumprimentos após a sua eleição em janeiro deste ano, juntamente com Espanha e a Santa Sé, em homenagem ao mais antigo aliado de Portugal.

 Porém, a primeira data indicada seria no dia seguinte à posse, o que foi descartado, e a outra para logo após o referendo do dia 23 de junho, cancelada devido ao resultado inesperado, quando 52% dos eleitores votaram a favor da saída britânica da UE.

 "Esta é a terceira marcação, mas correspondente à mesma ideia: é uma visita em homenagem às relações históricas entre os dois países, que hoje tem outro interesse porque entretanto muita coisa mu-dou", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas.

"O interesse adicional é a posição do Reino Unido na próxima negociação com a União Europeia onde Portugal está. Nós certamente saberemos conciliar as duas realidades: estar na Europa convictamente e querer uma UE forte e ao mesmo tempo que-rer manter uma aliança que durou tanto tempo, mas que está viva", vincou.

 Num balanço da visita, o Chefe de Estado referiu que quis deixar uma mensagem de tranquilidade aos portugueses que estão há menos tempo no país e que estão preocupados com a possibilidade de não ser permitida a sua permanência no país após o Brexit.

"Não há razão para alarme", enfatizou, acrescentando que as relações entre os dois países vão continuar fortes.

 "O importante é que isso sobreviva e ao mesmo tempo a Europa se reforce. Esta é que é a conjugação virtuosa que vai constituir o grande desafio diplomático dos próximos anos", acrescentou, em declarações aos jornalistas após uma visita ao ateliê de trabalho da pintora Paula Rego.

 O último compromisso do programa foi um encontro pessoal no Palácio de Buc-kingham com a Rainha Isabel II, fechado aos jornalistas e à maioria da comitiva que acompanhou o Chefe de Estado.

 Marcelo Rebelo de Sousa antecipou o interesse em conversar com uma rainha da qual esteve perto, primeiro enquanto criança na primeira fila no desfile de carruagens junto ao Terreiro do Paço, em 1957, e depois como vice-líder do PSD, em 1985, quando integrou um grupo restrito de 30 portugueses convidados a jantar a bordo do iate real Britannia.

 "O mais interessante é como uma senhora que vê já de uma perspectiva distanciada e que viveu o mundo como era nos anos 1950, quando chegou ao trono, e depois 1960, 1970, 1980, 1990, 2000 e agora, como é que ela vê este mundo, o que ficou e o que mudou. Tem uma perspectiva que pouca gente tem", indicou.

Após o encontro com a monarca, o Presidente dirigiu-se imediatamente para o aeroporto de onde voou para Lisboa, onde ainda no mesmo dia tinha compromissos oficiais.

 

* Direitos adquiridos dos portugueses no Reino Unido não serão afectados – Governo 

 

 Os direitos adquiridos dos portugueses residentes no Reino Unido não serão afectados pela saída do país da União Europeia, garantiu na quinta-feira o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro.

 "Até ao acto da saída, se vier a ocorrer a saída nos termos que se prevê que venha a acontecer, todos aqueles que aqui estavam e que tinham os seus direitos constituídos ficarão automaticamente salvaguardados", disse aos jornalistas.

 O secretário de Estado falava à margem de uma visita a Londres de dois dias do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a qual acompanhou integrando a comitiva, juntamente com a secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Margarida Marques, e o ministro das Finanças, Mário Centeno.

 Em causa está a saída do Reino Unido da União Europeia, conhecida por ‘Brexit’, determinada pelo referendo de 23 de junho e cujo processo negociar de dois anos a primeira-ministra, Theresa May, anunciou que pretende iniciar até ao final de março de 2017.

 Segundo José Luís Carneiro, "qualquer alteração será apenas para aqueles que vierem apenas após o acto de saída do Reino Unido", esperando que esta informação providencie uma "garantia de tranquilidade a todos aqueles que aqui se encontram a traba-lhar".

 O Governo português terá recebido estas garantias da parte de "responsáveis do processo legislativo" britânico nos últimos dias, mostrando a convicção de que "nenhum procedimento será adoptado sem prévia auscultação das autoridades portuguesas".

 A comunidade portuguesa é actualmente uma das comunidades estrangeiras mais numerosas no Reino Unido devido ao fluxo migratório observado nos últimos anos.

 Só em 2015, registaram-se para trabalhar no Reino Unido 32.301 portugueses, mais 6% do que no ano anterior, fluxo que se reflecte na dimensão das remessas de divisas para Portugal: no ano passado totalizaram 254.960 milhões de euros, mais 26% do que em 2014.

Oficialmente, estão inscritos nos consulados portugueses de Londres e Manchester 222.917 nacionais, mas as autoridades portuguesas estimam que a comunidade portuguesa no Reino Unido se aproxime mais do meio milhão de pessoas.