Assembleia-Geral Anual da Sociedade Portuguesa de Beneficência

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 Decorreu na quinta-feira, 27 de Junho no salão nobre do Lar Rainha Santa Isabel em Albertskroon, Joanesburgo, a assembleia-geral anual da Sociedade Portuguesa de Beneficência (SPB).

 Numa reunião que durou quatro horas, vários assuntos foram discutidos como a saída de membros do Board of Trustees do Lar, o relatório de contas da SPB, que foi aprovado, e a entrada de novos membros para o Board. Foi também proposto por José Contente, membro cessante do Board, que o comendador José Valentim fosse eleito como sócio honorário da SPB, o que também foi aprovado por maioria.

 Pelas 19 horas, o presidente do Board of Trustees do Lar,  comendador Gilberto Martins, deu as boas vindas a todos os presentes. “Esta noite, vamos apresentar o relatório de contas – o que é muito importante para a Comunidade saber lá fora – e depois sessão aberta a perguntas sobre as contas. Queremos saber sugestões vossas, dos sócios e vamos eleger novos membros para o Board como manda a constituição da SPB”, afirmou o comendador Martins.

 Este pediu aos presentes que se levantassem para que fosse cumprido um minuto de silêncio em memória de todos os residentes do Lar que faleceram entre as assembleias gerais de 2018 e 2019. Cumprido o minuto, Sandra Crawford leu a lista de residentes falecidos.

 Conforme os preceitos da assembleia-geral e da SPB, a agenda foi cumprida por pontos. O seguinte foi a lista de desculpas formais, assinalaram as ausências do comendador José Valentim, Dominic Pais e comendador Ivo de Sousa.

 O comendador Martins verificou, publicamente, que estava reunido quórum de sócios da SPB, com as quotas pagas para que a reunião pudesse ter lugar dentro da legalidade.

 A pedido do comendador Canha, foi acrescentado à agenda um ponto final sob o desígnio de “geral”, para discussão de outros assuntos que não os da agenda daquela assembleia-geral anual.

 O presidente do Board pediu que os restantes membros do board se apresentassem. 

 Em seguida, o presidente do Board fez o seu relatório e numa intervenção muito emocionada falou sobre os problemas não só da SPB e do Lar de Santa Isabel, mas da Comunidade portuguesa na África do Sul em geral.

 “Os números já não são os que eram, a economia e os problemas económicos reflectem-se nos nossos clubes, associações e instituições de bem-fazer. Temos cada vez menos pessoas a dar cada vez menos e temos cada vez mais pessoas a pediar auxílio. Juntos, temos de encontrar uma solução”, declarou o comendador Martins.

 “Tentamos angariar fundos com almoços, jantares, festas, eventos como o nosso Magusto, mas a participação é cada vez mais escassa, infelizmente”, confessou emocionado.

 O presidente do Board falou também no problema do abandono familiar e da indigência, “muitos foram já os portugueses a quem tivémos que pagar o funeral porque foram abandonados e ninguém quis saber deles”.

 O comendador Martins informou a assembleia que saíram no ano passado do Board of Trustees São Quelho, António Rebelo e Chantelle de Sousa, a quem agradeceu o valioso contributo.

 Valioso contributo foi também elogiado o de Isabel Policarpo, antiga presidente da Direcção da SPB, que conse-guiu uma família, Cunha, que doasse dez mil euros cerca de 160 mil randes para a renovação de quartos do Lar. Um feito que foi fortemente louvado pelos presentes no salão.

 Por fim, o comendador Gilberto Martins apelou a ideias para reformular o sistema de trabalho do Lar, tornando-o mais eficiente e rentável. Pediu aos sócios que se tomas-se uma acção para rentabilizar o terreno vago ao lado da Villa Santa Isabel.

 A palavra em seguida foi dada ao presidente do executivo da Beneficência, HenRique Pereira para que fizesse o seu relatório. Na intervenção que fez, Henrique Pereira informou a assembleia que estão no Lar 87 residentes. 24 dos quais estão nos Cuidados Continuados (Frail Care) e 16 utentes nos Cuidados Intermédios (Mid Care). 77% dos utentes do Lar não pagam a  mensalidade na sua totalidade, quando no ano anterior eram 35%. O restante do dinheiro para cobrir as despesas provém de donativos.

 “Continuamos a depender da Comunidade, de patrocinadores e de donativos”, afirmou Pereira.

 O presidente do executivo da SPB informou que há cerca de 32 pessoas do total de 87 residentes que não pagam nada. “Quando dizem lá fora que só os ricos é que podem vir para aqui, é mentira”, afirmou o presidente do executivo.

 Quanto aos colaboradores da instituição, o total de trabalhadores era de 80, agora a funcionar num total de 72 indivíduos. Há 11 pessoas na cozinha, 6 na limpeza, 5 na lavandaria, 4 na manutenção, o restante é pessoal de enfermagem e cuidados de saúde. Há dois turnos de enfermagem, um diurno e outro nocturno para não haver momentos em que os utentes não estejam supervisionados.

 Falou nos donativos mensais e semanais que ajudam à sustentabilidade do Lar.

 Henrique Pereira falou na renovação da cozinha do Lar, com a compra de uma máquina de lavar loiça industrial, novos frigoríficos, a cozinha foi limpa e restaurada. Foi também informado aos sócios da SPB que foi adicionada mais uma pessoa para o trabalho administrativo do Lar.

 Henrique Pereira informou também do novo sistema biométrico de entrada e saída dos funcionários do Lar, o que vai impedir fraudes e vai proporcionar por isso uma pou-pança maior nos gastos através de um maior e mais forte controlo das horas laborais.

 Foi também feita manutenção às casas da Villa Santa Isabel, com Henrique Pereira e trabalhadores da sua empresa a levarem a cabo pequenas renovações e melhoramentos.

 Henrique Pereira falou na requalificação camarária dos terrenos do Lar. “Está-se a tratar disso, Osvaldo Gonçalves, que teve o pai na Lar, vai tentar ajudar para se conse-guir a requalificação de zona institucional e não para zona urbana.”

 Sandra Crawford leu a acta da assembleia-geral anual de 2018. A acta foi dada como correcta, proposta por José Contente e secundada por José Luís Rodrigues.

 Jorge de Sousa fez o relatório de contas.

 “Uma das maiores dificuldades do Lar, é o facto de haver dificuldade em angariar fundos para manter a organização, não para fazer lucro, mas cobrir as despesas mensais.

 Os valores em numerário das contas bancárias são semelhantes àqueles dos anos anteriores, há apenas uma diferença de 100 mil randes.”  “Foram gastos 95 mil randes em câmaras de segurança e gastos cerca de 48 mil randes num sistema de purificação de água. Foram gastos 17 mil randes em compras de software informático no sistema biométrico, que custou 2.500 randes. Pagámos 8 mil randes na compra de um computador portátil, foi comprado um pacote de software para empresas NPO (Organização Sem Fins Lucrativos) no valor de 6.500 randes. Portanto, na maioria, foi a parte de segurança que custou mais ao orçamento”.

 Jorge de Sousa informou que os passivos a longo prazo contam com provisões feitas para aqueles utentes cujas famílias ou recursos próprios não cobrem as despesas do Lar com esses utentes. “O que significa que se essas pessoas estiverem cá por um período mais prolongado, temos que fazer uma provisão para cobrir essa despesa”.

 “No ano passado existiam apenas 35 pessoas nessa situação, este ano aumentou para mais do dobro, o que significa que estamos a passar por tempos muito difíceis e que está a tornar cada vez mais difícil recuperar fundos suficientes para cobrir as despesas do dia-a-dia.”

 Dos passivos correntes, houve um aumento. Jorge de Sousa, indicou que existe um problema com a conta da água junto da Câmara Muni-cipal de Joanesburgo. “Este ano foi cá posto cerca de um milhão de randes que estamos a dever ao município. Algo que nós continuamos a tentar resolver mas foi acordado com o município que nós íamos liquidar essa conta no valor mensal de 30 mil randes. Além do consumo da água que temos normalmente, que temos um poço de água, temos que por vezes utilizar a água da rede quando há faltas de energia e os po-ços de água não podem funcionar porque não têm motor para puxar a água”.

 Na demonstração de resultados, Jorge de Sousa informou de um deficite de um milhão e 800 mil randes, que representa 113% de acréscimo do ano anterior. “Parte desse milhão, são os valores que temos estado a pagar para liquidar a dívida com a despesa da água”.

 “Em termos da folha salarial, existe pouca diferença se bem que este ano provavelmente será diferente, porque temos tido alguns quadros a sair, entrada de pessoas co-mo a Elizabete Carvalho a partir deste mês.”

 “Em termos de facturação de receitas que recebemos dos residentes do Lar, existe um acréscimo bastante elevado de 13%, a comparar com o ano anterior, mas em termos do valor global recebido de devedores, tudo indica que a Sandra tem isso mais controlado este ano e que estamos a tentar recuperar quase a 100% dessas despesas”.

 “Temos sempre residentes que não conseguem pagar e para esse efeito os auditores criaram uma provisão de qua-se 438 mil randes, à cautela de talvez não receber esse valor. No ano anterior também foi feita uma provisão dessa natureza e vê-se no ano corrente que devolveram 399 mil randes da provisão do ano an-terior, o que significa que realmente apesar de terem dúvidas de receber o dinheiro, ele deu entrada”.

 “Nós, como quadro executivo, estamos a fazer o máximo possível para recuperar todos os valores ausentes há muito tempo.”

 Das despesas de gestão diária do Lar, afirmou que as despesas estão em vigor comparadas com o ano anterior, “resta salientar que os custos com água e luz, tem um milhão 454 mil a mais, a comparar com 62 mil do ano anterior, o que significa que o valor da dívida nunca foi contabilizada no ano anterior e que agora tem estado a ser paga e foi por isso contabilizada, não só em termo de provisão feita mas também em pagamentos feitos”.

 “Houve uma despesa grande, em termos de MedCare, o que não existia no ano anterior.”

 “Temos despesas superiores às receitas no ano em vigor, pouco mais de três milhões de randes. Agora esse é um deficite temos de tentar procurar da melhor forma possível. Propus a redução das despesas em 25%, talvez seja demasiado, mas precisamos de uma meta.”

 “Este ano recebemos, da Villa Santa Isabel, 50 mil randes a menos, porque não havia inquilinos em certas casas, estamos também a ajustar as rendas em atraso. Para esse efeito, foi feita uma provisão de 52.750 randes este ano, para as rendas em atraso. Estamos a trabalhar para recuperar os fundos, recuperámos cerca de 44 mil randes dessas rendas em atraso.”

 Foi aberta a discussão à assembleia.

 Foi levantada a questão, por Rogério Varela Afonso, pelo facto das doacções feitas à SPB durante a Festa do Magusto, num valor global de 830.550 randes, não se encontrarem especificadas e terem sido omitidos os nomes dos doadores. Os donativos da Academia-Mãe do Bacalhau também não foram descriminados.

 Foi assumido esse erro por parte do presidente do Board, que garantiu que o tesoureiro iria rectificar o lapso.

 José Luís Rodrigues perguntou qual é o gasto real, em termos separados, da água e da luz. Sugeriu que fosse descriminado o custo da água e da luz separadamente na conta-bilidade do Lar.

 Michael Gillbee levantou a questão da dívida da água ao município de Joanesburgo. Questionou se a dívida está a ser paga com juros de mora e porque é que se continua a fazer gastos de água da rede, uma vez que o comendador José Valentim abriu três furos artesianos para reduzir os gastos com a água e tornar o Lar autossuficiente em termos de recursos hídricos.

 O comendador Gilberto Martins respondeu que não tinha a certeza, mas que iria verificar se as facturas estão a ser cobradas com juros de mora e que se continua a gastar água da rede por necessidade como as faltas de energia.

 Michael Gillbee levantou a questão se seria pertinente, nas faltas de luz, haver um pequeno gerador para continuar a fornecer água ao Lar. O comendador Martins afirmou que será uma proposta a considerar por parte do Board e do Executivo do Lar.

  O relatório de contas foi aprovado por todos, proposto por João Carreira e secundado por Henrique Pereira.

 Chegou-se depois ao ponto da agenda de trabalhos da eleição de novos membros para o Board. A sair, estavam comendador Gilberto Martins, José Contente, comendador Ivo de Sousa. Ambos os co-mendadores decidiram recandidatar-se e ficarem no Board. Com José Contente, saiu São Quelho, Luís Guerreiro.

 A lista de nomes apresentada com novos membros tinha cinco candidatos, Mário Martins, Manuel de Abreu, Analiza Lousada, João de Gouveia. Acrescentada à lista foi Esmé Pereira.

 Uns não foram aceites por não serem membros com quotas pagas e Manuel de Abreu e Analiza Lousada não aceitaram por motivos que Gilberto Martins não quis di-vulgar.

 José Contente, que não aceitou ficar nos corpos directivos, saiu da mesa do Board e juntou-se à assembleia.

 O comendador Gilberto Martins pediu uma ovação para José Contente, pelos anos de continuado trabalho e dedicação à SPB e ao Lar.

 Ficou estabelecido que ficam no Board of Trustees do Lar Santa Isabel Orlando Marques, António Leite, Rui Policarpo, Dominic Pais, José Ferreira, Luísa Martins, Henrique Pereira, Jorge de Sousa e Carlos da Canha.

 Não houve objecção quanto aos dois nomes anteriores permanecerem e Esmé Pereira juntar-se ao Board.

  O presidente do Board deu a palavra a José Contente que propôs o comendador José Valentim como sócio honorá-rio da SPB. Foi votado em assembleia geral e foi aceite por maioria. “Foi um homem que deu imenso a esta casa e a esta causa, não só em termos financeiros, mas do seu tempo. Fez aqui três furos de água, ligou a estátua da Santa Isabel ao furo da água que não estava e estes furos, os tanques ali colocados vão permitir no futuro ao Lar poupar milhares senão mesmo milhões de randes”.

 Sob o último ponto acrescentado à agenda de trabalho, o item “geral”, o comendador Canha apelou à continuação do bom trabalho do comendador Gilberto Martins mas que este traga os luso-descendentes da faixa etária de 40 anos para cima, para se integrarem no Lar e no sentido de ajudarem a angariar fundos e meios de susten-tabilidade à instituição.

 Nelson Reis levantou a ques-tão do afastamento de Fátima Curado, antiga directora do Lar, “quando é que se vai tra-tar desta situação? Dar à senhora o que ela vale e merece pelos anos de dedicação que deu à casa”

 O comendador Gilberto Martins respondeu “ninguém mais do que nós, Board e Executivo do Lar, quer ver es-ta situação resolvida. Já vamos na terceira oferta, duas já foram recusadas. Vamos ver se a terceira também é. Prometo que estamos a tentar chegar ao melhor acordo para as duas partes.”

 Orlando Marques sublinhou a afirmação do comendador Martins ao referir que “estamos a fazer as coisas a bem. Não queremos prejudicar a senhora nem temos interesse em melindrá-la.”

 Ainda no fim, Jorge Araújo afirmou que o Magusto não é o maior angariador de fundos, como o comendador Martins afirmou, mas sim a Academia-Mãe do Bacalhau. Entende que é a maior festa que mais dinheiro ganha ao Lar, mas a maior fonte de rendimentos doados, é a Academia-Mãe.

 Gilberto aceitou a correcção e a observação feita por Jorge Araújo.

 Sem mais assuntos discutidos, a reunião foi dada como encerrada pelas 22h55.