Antigo ministro brasileiro escreveu Uma quase autobiografia de Fernando Pessoa

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Antigo ministro brasileiro escreveu Uma quase autobiografia de Fernando Pessoa

O livro "Fernando Pessoa – Uma quase autobiografia", escrito pelo brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho, após oito anos de pesquisa e 30 viagens a Portugal, chega esta semana ao mercado português, numa edição da Porto Editora.

 O autor, que é consultor da Unesco e ex-ministro da Justiça do Brasil, explica que decidiu fazer o livro porque tinha vontade de saber coisas sobre o poeta português, sobre as quais ninguém tinha escrito.
 "A obra de Pessoa já está bem estudada, mas quem é o homem atrás da obra? Eu sempre quis saber mais sobre o Pessoa, mas esse livro que eu queria ler não existia. Então decidi fazê-lo", conto Cavalcanti, que se apaixonou por Pessoa há cerca de 50 anos, quando ouviu pela primeira vez, em 1966, o poema "Tabacaria", recitado por João Villaret.
 "Desde então, é uma paixão que me encanta e oprime", brinca.
 Para o autor, a (quase) autobiografia, que na versão brasileira possui 750 páginas, começou "de verdade" quando descobriu que toda a obra do poeta estava baseada em factos de sua própria vida.
 "Quando um poeta escreve ‘Se eu cassasse com a filha da minha lavadeira, talvez fosse feliz’ é uma imagem recorrente, que quer dizer ‘se tivesse uma vida simples, talvez fosse mais feliz’ em
outros, em Pessoa não. Em Pessoa, eu sabia que existia uma lavadeira, chamada Inês, uma filha da lavadeira, chamada Guiomar, e um romance", explica.
 Feita a descoberta, a primeira grande busca de Cavalcanti foi para identificar quem seria o bom e velho Esteves, personagem de "Tabacaria", no mundo real de Pessoa.
 "Busquei entre os amigos, e não havia nenhum. Entre autores portugueses, nenhum. Então pedi ao historiador que estava a trabalhar comigo que procurasse nos jornais, dos 12 meses anteriores à data que ‘Tabacaria’ ficou pronta, por todos os Es-teves que foram mencionados nas notícias", conta Cavalcanti, a fazer mistério.
 A pesquisa nos jornais chegou a três nomes que, no entanto, depois de conferidas idades, profissões e moradas, não poderiam ser o Esteves da "Tabacaria", assinada pelo heterónimo Álvaro de Campos. A descoberta veio mais tarde, por coincidência, ao avaliar outro documento.
 Segundo Cavalcanti, quando Pessoa morreu, a sua única irmã estava em Cascais, com a perna partida, e o cunhado estava a cuidar das crianças e da mulher. Com isso, quem acabou por declarar o óbito do poeta foi Joaquim Esteves, um vizinho.
 "No ‘Livro do Desassossego’ aparece uma descrição física deste vizinho, ‘um velhinho rechonchudo e corado’, que conversa com o dono pálido da Tabacaria. Então, o Este-ves é um desses amigos anónimos, pessoas que ficam ao nosso redor pela vida, mas que Pessoa devia gostar tanto dele, na sua simplicidade, que resolveu homenageá-lo num poema que pressentia eterno", conclui Cavalcanti.
 Nas pesquisas, o autor descobriu ainda um Pessoa extremamente vaidoso que, apesar dos 12 graus de miopia, usava um óculos de apenas três graus, para evitar o efeito de redução dos olhos provocado pelas lentes.
 "Impressionoume a quantidade de vezes que ele disse no diário não ter jantado por falta de dinheiro. Mas, ao invés de comprar roupas na periferia da cidade, que era mais barato, comprava nas lojas caras de Lisboa", ressalta.

* Detectados erros  na descodificação do espólio de Pessoa

 O autor de "Fernando Pessoa – Uma quase autobiografia", o brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho, identificou erros de descodificação de textos do espólio do poeta, entre elas o nome da sapataria que dizia frequentar, durante a investigação para a obra.
 "Numa de suas anotações, [Pessoa] dizia que comprava na sapataria Contexto, segundo a descodificação. Só tem um problema: nunca existiu em Portugal uma sapataria com esse nome", afirma Cavalcanti que descobriu tratar-se, na verdade, da sapataria Contente, uma das mais famosas em Lisboa na época de Pessoa.
 Tantas são as histórias e as peripécias vividas pelo autor para chegar à fonte que desejava, que agora lhe estão a recomendar que escreva "um livro do livro".
 "Num momento, achei que as cartas que Pessoa escreveu a Sá-Carneiro haviam sido enterradas com o amigo. Então fui ao cemitério em que ele [Sá-Carneiro] foi enterrado, em Paris, determinado a desenterrá-lo", conta Cavalcanti, que não conseguiu localizar o corpo do português, que terá sido enterrado como indigente.
 Mário de Sá-Carneiro, autor de "A confissão de Lúcio", amigo de Pessoa e um dos principais nomes da geração de Orpheu, suicidou-se em Paris em 1916, aos 26 anos.
 José Paulo Cavalcanti Filho, consultor da Unesco e ex-mi-nistro da Justiça do Brasil, decidiu escrever o livro, porque tinha vontade de saber coisas sobre o poeta português, sobre as quais ninguém tinha escrito.
 "A obra de Pessoa já está bem estudada, mas quem é o homem atrás da obra? Eu sempre quis saber mais sobre o Pessoa, mas esse livro que eu queria ler não existia. Então decidi fazê-lo", contou o escritor, que se apaixonou por Pessoa há cerca de 50 anos, quando ouviu pela primeira vez o poema "Tabacaria", recitado por João Villaret.
 Segundo Cavalcanti, até o ritmo da obra, que o autor intitula de "quase" autobiografia pelo grande número de frases do próprio Pessoa, foi escrito num ritmo que se harmonizasse com a escrita pessoana.
 "Percebi que podia contar a vida dele com as palavras dele. Não é exatamente o que ele disse, que na época ele escreveu como diário. É o que eu queria dizer, mas com as palavras dele", explica o brasileiro, que estará em Portugal no próximo dia 26 para o lançamento oficial do livro, na Casa Fernando Pessoa.
 Lançada no ano passado no Brasil, a obra superou as expectativas de venda, ao registar um volume de 30 mil exemplares vendidos nos quatro primeiros meses após o lançamento.