Ano da queda do império da família Espírito Santo por desavenças à espera da privatização anunciada

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Ano da queda do império da família Espírito Santo por desavenças à espera da privatização anunciada

O ano 2014 ficará para sempre ligado à queda do império Espírito Santo, consumada com o colapso do BES, a jóia da coroa, que foi alvo de uma intervenção pública da qual resultou o Novo Banco.

  As desavenças públicas entre Ricardo Salgado, líder histórico do Banco Espírito Santo (BES), e José Maria Ricciardi, presidente do Banco Espírito Santo Investimento (BESI), no final de 2013, foram o primeiro sinal.

  Mesmo depois de emitirem uma declaração conjunta em que apazi-guavam a tensão existente, em novembro de 2013, a ‘guerra’ entre primos não era um bom augúrio para 2014.

  Durante os primeiros meses do ano, a sucessão de Ricardo Salgado continuava a ser notícia.

  Em meados de fevereiro, o BES apresentou um prejuízo de 517,6 milhões de euros relativamente a 2013, quando tinha fechado 2012 com um lucro de 96,1 milhões de euros.

  Na apresentação dos resultados, a última em que os órgãos de comunicação social foram convocados, Salgado admitiu a possibilidade de o BES vir a fazer um novo aumento de capital.

  Com a divulgação dos resultados do BES relativos ao primeiro trimestre, marcado pelo prejuízo próximo de 90 milhões de euros é também confirmado que o banco vai mesmo avançar com um aumento de capital superior a mil milhões de euros.

  E é o prospecto desse aumento de capital, publicado em maio, que, entre muitas outras informações relevantes, confirma a existência de irregularidades graves nas contas da ‘holding’ Espírito Santo International (ESI).

  É o dia que marca o início do fim do império da família Espírito Santo.

  Ricardo Salgado, em entrevista, admite que a crise "bateu forte" e faz ‘mea culpa’ pelos problemas financeiros na área não financeira, mas re-cusa demitir-se.

  Apesar de tudo, o aumento de capital do BES, cujos resultados foram conhecidos já em meados de junho, foi totalmente subscrito e a procura superou a oferta.

  Já em julho, várias notícias voltam a colocar em causa a solidez financeira do Grupo Espírito Santo (GES) e é conhecido que o Banque Privée Espírito Santo, na Suíça, estava em incumprimento no reembolso a alguns clientes que tinham aplicações em dívida da ESI e que esta empresa estava a avaliar um pedido de insolvência.

  Os rumores sobre a queda do império começam a correr mundo, são notícia na Europa e nos Estados Unidos e penalizam os mercados de ca-pitais internacionais.

  Depois de avanços e recuos sobre a equipa que ia gerir o BES, devido à exigência do Banco de Portugal de afastar nomes da família Espírito Santo, no dia 14 de julho é comunicado ao mercado a cooptação do eco-nomista Vítor Bento para substituir Ricardo Salgado.

  Confirma-se o pedido de protecção de credores da ESI no Luxemburgo e nos dias seguintes seguem-se-lhe a Rioforte, a ESFG, a ESFIL (todas com sede no Luxemburgo), bem como a Espírito Santo Financial Portugal.

  Neste período, começam a sair as primeiras notícias acerca de buscas conduzidas pelas autoridades nas sedes em Portugal das ‘holdings’ do GES.

  A 24 de julho, Salgado é constituído arguido pelo Tribunal Central de Instrução Criminal, no âmbito da operação Monte Branco, depois de ter sido detido na sua casa, em Cascais. Sai em liberdade condicional e com o pagamento de uma caução de três milhões de euros. Em causa estão transferências de 14 milhões de euros que foram feitas por um construtor para sociedades ‘offshore’ de Salgado e que este justificou como sendo um presente.

  No rol dos credores do universo GES surge também a Portugal Telecom, depois de se saber que tinha investido quase 900 milhões de euros na Rioforte, investimento de que não foi reembolsada.

  No dia 30 de julho, já à noite, o BES divulgou um prejuízo semestral histórico de 3,6 mil milhões de euros, justificados com "factores de natu-reza excepcional" e que colocavam o rácio de capital do banco abaixo dos mínimos exigidos pelas autoridades.

  No dia seguinte o Banco de Portugal revelou em comunicado que foram descobertos factos no BES que apontam para a "prática de actos de ges-tão gravemente prejudiciais", admitindo consequências contraordenacio-nais e até criminais para a ex-equipa de gestão liderada por Salgado.

  Paralelamente, o supervisor inibiu os direitos de voto inerentes à participação do ESFG no BES, ou seja, a família Espírito Santo deixa de ter po-der sobre o banco.

  No dia seguinte, as acções do BES negoceiam pela última vez na bolsa de Lisboa, por determinação da CMVM.

  O BES, que sempre ‘fugiu’ das verbas disponíveis para capitalização pública, não tinha agora sinais políticos de que os milhões da ‘troika’ ainda existentes para a banca continuavam disponíveis.

  A 3 de agosto, um domingo, e já depois de reunir de emergência com o Banco Central Europeu, o Banco de Portugal tomou o controlo do BES, aplicou-lhe uma medida de resolução e anunciou a separação do banco em duas entidades: o chamado banco mau (um veículo que mantém o nome BES e que concentra os activos e passivos tóxicos do ‘velho’ BES, assim como os accionistas) e o banco de transição que foi designado No-vo Banco.

  Já em setembro, no dia 13, Vítor Bento (que transitou da liderança do BES para o Novo Banco), abandonou a presidência, vindo a ser substituído por Eduardo Stock da Cunha, actualmente em funções.

  No parlamento, durante outubro, é criada uma comissão de inquérito à gestão do BES e do GES, e desde então já foram várias personalidades ouvidas.

  Na semana passada foi apresentado o ‘balanço inaugural’ do Novo Banco, que revela que a entidade perdeu quase 11 mil milhões de euros em depósitos em julho e que o BES Angola é responsável por mais de me-tade das imparidades de 4,9 mil milhões de euros reconhecidas no banco.

  No dia seguinte teve início o processo formal de venda do Novo Banco, lançado pelo Fundo de Resolução.

  A partir de 9 de dezembro, foi a vez de Ricardo Salgado e o seu primo José Maria Ricciardi explicarem, perante uma comissão parlamentar na Assembleia da República, como se desmoronou o maior grupo familiar português.

   O presidente do Banco Espirito Santo Investimento (BESI), José Maria Ricciardi, responsabilizou o primo Ricardo Salgado pela queda do império Espírito Santo, numa carta enviada, em maio, ao Banco de Portugal e pu-blicada a 9 de dezembro no Diário de Notícias.

  Na carta, datada de 27 de maio de 2014, ao vice-governador do Banco de Portugal, Ricciardi desmentiu Ricardo Salgado, ex-presidente do BES e do GES, e recusou qualquer quota de responsabilidade pelo buraco de-tectado no banco.

  A missiva, a que o Diário de Notícias teve acesso, foi enviada cinco dias depois de Ricardo Salgado ter afirmado, em entrevista ao Jornal de Ne-gócios, não ter sido o único responsável pela crise no banco e no Grupo Espirito Santo (GES), avançando que os vários membros da família no Conselho Superior do Grupo tinham cometido erros.

  Na carta publicada pelo DN, Ricciardi explica que as contas e os movimentos financeiros da Espirito Santo International, holding do Grupo GES, eram tratados por um “núcleo restrito” sob a direcção do antigo homem-forte do BES, Ricardo Salgado, garantindo nunca ter sido chamado a interferir. Na altura, o presidente do BESI alertou que já tinha pedido um inquérito, em novembro de 2013, para apurar as responsabilidades sobre a situação financeira e contabilística do grupo. No entanto, o banqueiro não revelou publicamente a sua posição pois considerava que tal pe-nalizaria a imagem e reputação do BES.

O presidente do Banco Espirito Santo de Investimento, José Maria Ric-ciardi, acusou o antigo presidente do BES, Ricardo Salgado, de “infâmia” por este ter sugerido que o primo tinha tido uma “contrapartida” após “denúncia” ao Banco de Portugal.

  “É uma verdadeira infâmia”, declarou Ricciardi na comissão de inquérito à gestão do Banco Espírito Santo e do Grupo Espírito Santo.

  Primeiro, sublinhou, o Banco de Portugal ou “qualquer entidade reguladora não faz negociações com administrações de instituições bancárias” e, segundo, falar com o regulador e denunciar situações menos lícitas é uma obrigação de um qualquer membro de uma administração.

  Além de Ricciardi, também o Governador do Banco de Portugal desmentiu Ricardo Salgado. Carlos Costa enviou uma carta à comissão parlamentar, com documentos anexos, para refutar várias das afirmações do ex-presidente do BES.