África do Sul em paz no pós-Mandela

0
37
África do Sul em paz no pós-Mandela

O professor John Volmink considerou que a morte de Nelson Mandela foi seguida pelo “receio” de que “o caos” se instalasse na África do Sul, mas tal “não aconteceu” e hoje o país tem “muitos Mandelas”.

 Em entrevista à Lusa, em Lisboa, onde está para participar nos trabalhos de criação de uma rede internacional de Academias Ubuntu, o professor universitário sul-africano apresentou-se como “um micro-Mandela”, que tenta “continuar a construir o sonho” do histórico líder negro.

 “Hoje, há muitos, muitos Mandelas na África do Sul”, garantiu, reconhecendo que “havia muito receio que, uma vez que Mandela partisse, se instalasse o caos e as pessoas se matassem umas às outras”. Porém, “isso não aconteceu”, o que confirmou a “verdadeira liderança” de Mandela.

 “Os piores líderes são os temidos, os líderes bons são admirados, mas os melhores líderes são os que, terminado o seu trabalho, levam as pessoas a dizer ‘conseguimos’. Agora, nós não pensamos em Mandela diariamente, mas o espírito dele vive em nós”, explicou John Volmink.

 “Sabemos que o melhor líder desta era viveu na África do Sul, mas ele nunca escreveu um livro nem desenvolveu um manual sobre liderança, porque ele é um livro”, distinguiu, assinalando “o privilégio” que o país teve por conviver com Nelson Mandela durante 24 anos, depois de este ter passado 27 preso.

 John Volmink destacou que o primeiro Presidente negro da África do Sul “recorria muito” à tradição oral africana. “Nós falamos dos assuntos, não [re-corremos aos] grandes livros em bibliotecas, isso é mais a tradição ocidental. Em África, partilhamos ideias, sentamo-nos juntos, falamos… Mande-la fazia muito isso. Esse é o espírito ubuntu, que nos consciencializa de que estamos ligados uns aos outros”, disse.

 As Academias Ubuntu espalhadas pelo mundo – em Portugal coordenada pelo Instituto Padre António Vieira – reuniram-se sábado, na Fundação Gulbenkian, com o objectivo de criarem uma rede global.

 John Volmink teve um papel central na reforma curricular do ensino pós-apartheid. Em 1994, havia “currículos escolares diferentes” para cada comunidade, “um para negros, outro para brancos, outro para indianos, etc.”, recordou.  O Governo de Mandela começou a trabalhar “num só” currículo, que “abraçasse toda a gente” e “removesse” todos “os termos ofensivos”, transmitindo valores de confiança, respeito e compaixão.