África do Sul com recorde mundial indesejável do desempregro

0
182

África do Sul estabeleceu na semana passada um recorde mundial indesejável, com o anúncio da agência de estatísticas Bloomberg sobre a subida do desemprego para um recorde de 34,8% no segundo trimestre, o maior dos 83 países analisados pela agência.

  Ayanda Mbatha foi um dos infelizes que se juntou às fileiras dos desempregados no mesmo período.

  Vestido de camisa com gravata, o graduado em engenharia mecânica, de 26 anos, passou quatro semanas nos subúrbios de Hyde Park e Sandton, em Joanesburgo, anunciando suas habilidades através de cartaz em volta do pescoço e com cópias do seu currículo na mão, na esperança de que um motorista pudesse ajudar com uma oferta de emprego.

  “Às vezes pensava: não tenho um emprego, fui demitido, o que vou fazer? Não há mais salário a entrar”, disse numa entrevista.

  Mbatha é uma das estimadas três milhões de pessoas que perderam seus empregos por causa das restrições para conter a pandemia de coronavírus, que provocaram o encerramento de muitos serviços essenciais na economia mais industrializada da África.

  A maioria das empresas foi fechada por cinco semanas a partir de 27 de Março e algumas reduziram o quadro de funcionários ou fecharam permanentemente por causa do ‘lockdown’. Um estudo realizado por um grupo de 30 académicos e pesquisadores mostra que mais 1,5 milhão de pessoas foram dispensadas.

    Para o hábil Mbatha, bater na calçada valeu a pena. Uma foto dele no cruzamento foi amplamente compartilhada e chegou a um director de uma empresa de automação em busca de um engenheiro de projecto.

  Ele começou a trabalhar em Setembro, depois de quatro meses sem emprego, e agora está a usar a rede de recrutadores e especialistas de carreira que o ajudaram a orientar outras pessoas.

* O que diz o economista da Bloomberg

  Muitas das perdas de empregos no segundo trimestre devem ser revertidas assim que a economia se abrir, mas a questão é quanto e quando? Acreditamos que a recuperação será prolongada devido às fracas perspectivas de crescimento.

  Esperamos também um ligeiro aumento na taxa de desemprego estrutural, uma vez que alguns dos que foram demitidos durante a crise continuam desempregados.

  A África do Sul enfrentou uma crise de desemprego antes mesmo do vírus. A taxa de desemprego está acima de 20% há pelo menos duas décadas, embora a economia tenha se expandido 5% ou mais ao ano no início dos anos 2000.

  Os analistas citam um sistema educacional que não fornece habilidades adequadas e leis laborais rígidas, que tornam a contratação e demissão onerosa e o planeamento espacial da era do apartheid difíceis para quem procura emprego, entrar e permanecer na força de trabalho formal, como parte do problema.

  O presidente Cyril Ramaphosa prometeu impulsionar o crescimento económico para 5% até 2023 e priorizar o emprego durante a sua campanha presidencial, há três anos.

  Desde que se tornou presidente do país, sediou uma cúpula de empregos que visava criar 275.000 vagas por ano e lançou um programa para criar oportunidades de emprego para jovens.

  Os resultados têm sido irregulares e a falta de urgência na implementação de políticas para im-pulsionar o crescimento e convencer as empresas a investir está a impediro o progresso.

  “Grande parte do descompasso que vemos entre as soluções governamentais e os problemas que temos é porque o governo está a fazer políticas para uma economia que não existe”, disse Sithembile Mbete, professor sénior de estudos políticos na Universidade de Pretória.

* A crise pode piorar

  Apenas manter a taxa de emprego inalterada exigiria que a economia – presa em sua maior recessão em 28 anos – crescesse de 1,5% a 2,25% ao ano para corresponder a um aumento anual de 1,5% na população em idade activa, de acordo com Elna Moolman, economista do Standard Bank Group Ltd.

  As estimativas populacionais mostram que há 59,6 milhões de pessoas na África do Sul, das quais quase 30% entrarão no mercado de trabalho na próxima década.

  “Com base nos cenários para a recuperação económica pós-2020, pode levar de três a sete anos antes que o emprego retorne aos níveis de 2019”, disse Christie Viljoen, economista da PwC na Cidade do Cabo.