Afinal a troika está em Portugal por insistência de Mário Soares

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Afinal a troika está em Portugal por insistência de Mário Soares

A guerra de nervos terminou na noite de 6 de Abril. Mas até à última hora Sócrates resistiu a chamar o FMI. Mário Soares levantou a ponta do véu de uma história mirabolante.

 “Tive uma discussão com ele gravíssima. Eu queria que ele pedisse ajuda e ele não queria”. O ex-Presidente da República Mário Soares revelou pormenores dos bastidores explosivos do pedido de assistência à troika, que se consumou na noite de 6 de Abril. Soares confirma em público que, até ao fim, Sócrates não queria chamar o FMI.

 “Ele achava que podia ter feito um acordo com a senhora Merkel”, contou também Soares. E de facto Sócrates foi elogiado por Angela Merkel poucos dias antes de o seu Pacto de Estabilidade e Crescimento ser chumbado no parlamento, a 23 de Março, por todos os partidos da oposição. Merkel estava disponível a aceitar uma alternativa à troika, mas o parlamento português não.
 Sócrates apresenta a demissão do governo ao Presidente da República e continua a jurar que não governa com o FMI. Teixeira dos Santos, o ministro das Finanças, que numa entrevista ao “Expresso” tinha declarado que juros a 7% eram o limite a partir do qual mais valia chamar o FMI, começa a defender a hipótese. As relações entre os dois (já abaladas por outros episódios, como o financiamento da Madeira, começam a esfriar).
 Sócrates prepara-se para todos os cenários, mas a estratégia passa por adiar a todo o custo o que se revelaria inevitável. No dia 4 de Abril admi-te à RTP que poderá pedir ajuda em caso de “emergência nacional” – mas tenta adiar o mais possível essa decisão.

 No início da tarde de 6 de Abril já a pressão dos banqueiros era enorme. O primeiro-ministro reúne-se com Mário Soares e continua a resistir tenazmente. Na véspera, Ricardo Salgado – o presidente do Banco Espírito Santo – deixava Sócrates mais sozinho e juntava-se à onda de banqueiros que, nos dias anteriores, andavam em procissão por todas as capelinhas que pudessem influenciar o governo e levá-lo a pedir o empréstimo. Para os banqueiros, Sócrates tornara-se de repente o inimigo a abater. O primeiro-ministro deitava chispas (conta quem viu) cada vez que sabia de mais uma iniciativa de banqueiros para o pressionar para chamar o FMI.

 De repente, nesse dia 6 de Abril, Teixeira dos Santos decide dar uma entrevista por escrito ao “Jornal de Negócios”. E enquanto o gabinete do primeiro-ministro se esfalfava para desmentir a notícia dessa manhã do “Financial Times” – que dizia que Portugal ia recorrer ao FMI –, o ministro das Finanças, em entrevista por escrito ao “Negócios”, lança a bomba. “Portugal foi irresponsavelmente empurrado para uma situação muito difícil nos mercados financeiros. Perante esta difícil situação, que podia ter sido evitada, é necessário recorrer aos mecanismos de financiamento disponíveis no quadro europeu em termos adequados à actual situação política.” Foi desta maneira inédita que o governo português anunciou à troika que iria pedir o empréstimo. À hora em que Teixeira dos Santos dá a entrevista ao “Negócios”, o primeiro-ministro ainda não tinha decidido accionar o pedido de ajuda externa nesse mesmo dia.

 Perante o facto consumado, o primeiro-ministro marcou uma comunicação ao país para essa noite. “Lutei nestes últimos anos para que isto não acontecesse. Tínhamos uma solução e ela foi deitada fora”, disse Sócrates. “Sempre encarei um pedido de ajuda externa como um último recurso. Tudo tentei, mas em consciência julgo que chegámos ao momento em que não tomar essa decisão acarreta-ria riscos.”
 Afinal, apenas três dias antes, em entrevista à RTP, Sócrates tinha sido devastador quanto às consequências de um pedido de ajuda externa. Se chamasse o FMI, “o país perderia reputação e prestígio” e “afastar-se-ia dos mercados durante muito tempo”. Lembrou que na Irlanda “houve cortes salariais devido à ajuda externa”. “Estou comprometido com a ideia de defender Portugal do cenário de ajuda externa. Estou convencido que esta estratégia é a que devemos seguir e continuarei a ser fiel a ela.” Mas deixou aberta uma porta de emergência, ao confessar: “As coisas ficaram mais difíceis agora.”

 Recentemente, em entrevista ao “Público”, a directora-adjunta de informação da TVI acrescentava mais pormenores aos bastidores do resgate. “Muitas pessoas não perceberam porque é que andava a entrevistar banqueiros todos os dias. A verdade é que as entrevistas foram feitas numa segunda, numa terça, numa quarta e numa quinta; 48 horas depois, o primeiro-ministro estava a pedir ajuda financeira.”
 Judite de Sousa diz “só mais tarde” ter percebido que os banqueiros aproveitaram o seu convite, “para acertar uma posição conjunta de forma a fazer um ultimato a José Sócrates”. “Acabei por, com aquelas entrevistas, fazer parte de uma narrativa que foi meticulosamente preparada pelos banqueiros”, diz..